Por Miza Tâmara
Semanas após sua realização, o Sergipe Oil & Gas (SOG26) já permite uma leitura mais ampla sobre o momento vivido pela indústria de óleo,gás e energia em Sergipe.Realizada de 29 a 31 de julho de 2026, no Centro de Convenções AM Malls, em Aracaju,a 5ª edição do evento reuniu mais de 3,2 mil participantes,mais de 120 palestrantes em 21 paineis, representantes de oito países, mais de 90 marcas na feira de negócios, 15 patrocinadores,21 instituições apoiadoras e sete mídias parceiras.Agora, no início de setembro,os números ganham uma dimensão que vai além da escala alcançada pelo evento.
O que se observa é a consolidação de um ambiente de negócios que posiciona Sergipe em uma nova etapa da indústria de óleo, gás e energia. É o que avalia Eduardo Aragon, organizador do Sergipe Oil & Gas:
“O estado deixou de ser apenas uma promessa associada às reservas e à produção e passou a integrar, de forma mais consistente, a agenda de investimentos, infraestrutura,regulação, tecnologia e desenvolvimento da cadeia produtiva brasileira”, observa Aragon.
Essa mudança de patamar esteve diretamente relacionada ao momento vivido pelo Projeto Sergipe Águas Profundas(SEAP), um dos principais vetores do novo ciclo de desenvolvimento do setor no estado.A perspectiva de expansão da produção offshore e, sobretudo,do aumento da oferta de gás natural coloca Sergipe diante de uma oportunidade que ultrapassa a atividade de exploração e produção e alcança toda a arquitetura do mercado de gás, da infraestrutura de escoamento e processamento à atração de indústrias consumidoras e ao desenvolvimento de fornecedores.
Foi justamente essa visão sistêmica que permeou boa parte das discussões do SOG26.
Ao longo dos três dias, a agenda técnica avançou sobre temas como mercado de gás natural, competitividade, segurança energética, integridade estrutural,segurança de processos,transformação digital, produção onshore, descomissionamento, governança de fornecedores, fertilizantes, logística offshore, construção de dutos e qualificação profissional.
O resultado foi uma programação que refletiu a complexidade do novo momento da indústria. Em vez de concentrar o debate exclusivamente na produção de hidrocarbonetos,o SOG26 colocou em evidência os diferentes elos que precisam estar preparados para absorver o ciclo de investimentos projetado para Sergipe.

O avanço do SEAP, com a contratação dos dois FPSOs previstos para o projeto, também muda a natureza das oportunidades associadas ao estado.
“Nesta quinta edição do Sergipe Oil & Gas um dos destaques está no anúncio da contratação dos dois FPSOs, O SEAP-1 e o SEAP-2, que marca o início da execução do projeto. A partir daí, serão movimentadas diversas atividades, como a instalação de sistemas submarinos, a construção de dutos, a operação das duas unidades de produção e o escoamento do gás para terra. O volume de gás que chegará a Sergipe poderá contribuir para a atração de novas indústrias consumidoras e para a expansão do mercado no estado”, explicou Aragon.
O governador de Sergipe, Fábio Mitidieri, reforçou a necessidade de transformar a expansão da oferta de gás em desenvolvimento econômico para o estado.
“Não queremos ser apenas o Uber do gás, extraindo essa riqueza e enviando para outros estados. Queremos atrair indústrias, agregar valor e gerar empregos aqui”, defendeu.
Para o senador Laércio Oliveira, relator da Lei nº 14.134/2021, a Nova Lei do Gás, os resultados apresentados no SOG26 representam uma transformação que ultrapassa os indicadores econômicos e alcança diretamente a população sergipana.
“Quando vejo essa curva de crescimento, não enxergo apenas gráficos.Vejo a transformação da vida de milhares de sergipanos. Quero ajudar a construir essa escadinha para que Sergipe chegue ao topo. Confesso que fiquei emocionado ao ver esse cenário”, compartilhou.
Outro eixo relevante desta 5ª edição foi o ambiente regulatório. Entre os destaques da abertura estiveram as assinaturas de acordos de cooperação técnica envolvendo o Governo Federal, o Governo de Sergipe, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e instituições do setor, com foco na criação de novas oportunidades para a indústria.
A harmonização regulatória e o fortalecimento da cooperação institucional são elementos importantes para ampliar a segurança jurídica, reduzir entraves e criar condições mais favoráveis à atração de investimentos. Em um mercado que passa por transformações estruturais, a capacidade de articulação entre os diferentes agentes também se torna um fator de competitividade. A aquisição da distribuidora de gás também foi apontada como um movimento estratégico para o estado. A operação amplia a capacidade de Sergipe de participar de forma mais ativa da dinâmica do mercado de gás e se conecta às perspectivas de expansão da oferta proporcionadas pelo SEAP.
Diretora da ANP e homenageada durante a abertura do evento, Symone Araújo destacou a importância desse movimento para a estratégia energética sergipana.
“Então o Estado de Sergipe dá um passo muito importante porque ele sai na frente com a aquisição da distribuidora de gás. É uma causa justa, é uma causa meritória e é, sobretudo, uma causa transformadora”, avaliou Symone.

Ao lado Márcio Félix, Symone Araújo da ANPé homenajeada durante o SOG26.
A ampliação da oferta de gás natural também foi um dos principais temas da programação técnica. Com a entrada em operação do SEAP, a expectativa é de aumento da disponibilidade do insumo e de uma transformação na dinâmica do mercado estadual, criando condições para novos investimentos industriais.
O debate realizado durante o SOG26 também colocou em perspectiva a possibilidade de Sergipe avançar como um polo de gás natural, com capacidade de atrair atividades intensivas no consumo do insumo e agregar valor à produção. A discussão envolve não apenas volume disponível, mas infraestrutura, competitividade, preços, logística e capacidade de conexão entre produtores e consumidores.
A transformação digital também ocupou espaço estratégico no SOG26. Tecnologias voltadas à automação, análise de dados, integridade de ativos, segurança operacional e eficiência de processos mostraram como a inovação vem deixando de ser uma agenda paralela para se tornar parte central da competitividade da indústria.
Na Arena Innovation, empresas como Petrobras, Eneva, Sergas e SBM Offshore apresentaram estratégias e soluções relacionadas à transformação digital, enquanto outros debates avançaram sobre integridade estrutural, segurança de processos e produção onshore.

Participantes do Painel Saúde e Bem-estarnas Organizações do Setor de Óleo e Gás.
A aproximação entre empresas, universidades e instituições de pesquisa também ganhou força. A Universidade Federal de Sergipe (UFS) levou ao evento pesquisas, laboratórios e projetos relacionados aos setores de petróleo, gás e energia, ampliando o diálogo entre academia e mercado e reforçando a importância da formação de profissionais para atender às novas demandas da indústria.
O descomissionamento, em particular, representa uma frente de negócios que ganha importância no estado à medida que plataformas rasas chegam ao fim de seus ciclos produtivos.
A atividade envolve planejamento, engenharia, remoção de estruturas e equipamentos, transporte, destinação de materiais e suporte logístico em terra, criando oportunidades para empresas especializadas e para a implantação de bases capazes de atender às diferentes etapas da operação.
A agenda também foi discutida em uma plenária específica durante o SOG26, mediada por Aragon, dentro de um contexto em que a indústria sergipana passa a conviver simultaneamente com novos projetos de produção e com o encerramento de ciclos anteriores. Essa perspectiva também foi destacada pelo organizador do evento ao projetar os próximos movimentos do mercado sergipano.
Para ele, a combinação entre a execução do SEAP e a possibilidade de novos processos relacionados ao descomissionamento poderá acelerar a chegada de empresas interessadas em se instalar no estado.
“A expectativa para o ano que vem é a atração de empresas para se instalarem no estado e avaliarem novas oportunidades a partir da movimentação que o SEAP-1 e o SEAP-2 estão trazendo para Sergipe. Temos uma perspectiva bastante positiva para 2027, principalmente pela possibilidade de ampliar a presença da cadeia de fornecedores e prestadores de serviços no estado”, projetou Aragon.
Se os painéis ajudaram a projetar os caminhos da indústria, a rodada de negócios foi responsável por transformar parte dessa expectativa em oportunidades concretas. A iniciativa reuniu nove empresas compradoras e 95 fornecedoras, com 380 reuniões realizadas ao longo da programação.
A estimativa apresentada pelo co-organizador do SOG26 Nicolás Honorato é de mais de R$ 230 milhões em negócios no curto prazo. O resultado dá uma dimensão econômica importante ao evento e evidencia a capacidade do Sergipe Oil & Gas de conectar demanda e oferta em uma cadeia que tende a ganhar escala com os novos projetos. “O resultado da rodada de negócios demonstra essa capacidade do evento de aproximar empresas em um momento de expansão das oportunidades no estado”, enfatizou.
A participação de fornecedores sergipanos também ganhou relevância nesta edição. A presença de empresas locais na feira e nas agendas de negócios indica um movimento de maior inserção do empresariado do estado na cadeia de óleo, gás e energia, ao mesmo tempo em que o evento amplia sua capacidade de atrair empresas de outras regiões do país.
Mais do que uma vitrine, a feira passou a funcionar como um ambiente de conexão entre operadores, fornecedores, prestadores de serviços, investidores e instituições. É justamente essa capacidade de gerar relações comerciais que pode ampliar o impacto econômico do evento para além dos três dias de programação.
A perspectiva para a próxima edição já começa a ser desenhada a partir dos movimentos observados em 2026. Para Eduardo Aragon, a expansão esperada para 2027 está diretamente relacionada à maturação dos projetos e à capacidade de Sergipe de absorver os novos investimentos.
A expectativa é de que empresas da cadeia offshore passem a avaliar a instalação de operações no estado diante do conjunto de oportunidades que se desenha.
“A expectativa para o ano que vem é atrair empresas para se instalarem no estado e avaliarem novas oportunidades a partir da movimentação que o SEAP-1 e o SEAP-2 estão trazendo para Sergipe. Temos uma perspectiva bastante positiva para 2027, principalmente pela possibilidade de ampliar a presença da cadeia de fornecedores e prestadores de serviços no estado”, projetou Aragon.
Nicolás Honorato avalia que o avanço do Projeto Sergipe Águas Profundas tende a ampliar o interesse de empresas que ainda não participaram do evento, especialmente companhias ligadas ao segmento offshore.
“Temos a sinalização da participação de empresas que ainda não haviam participado do evento porque o projeto SEAP estava em fases iniciais, mas que, diante da sua evolução, já avaliam entrar na próxima edição com estande ou patrocínio. Entre elas, estão empresas relevantes como a SBM, além de outras companhias do segmento offshore, de serviços e equipamentos, com potencial de fornecimento para o projeto”, afirmou Nicolás.

Além da chegada de novos expositores e patrocinadores, a organização projeta uma participação maior de empresas de pequeno e médio porte, tanto de
Sergipe quanto de outras regiões do país. A expectativa também é de ampliar a estrutura da feira e dos espaços dedicados ao conteúdo técnico.
“Também esperamos ampliar a participação de empresas de pequeno e médio porte, de engenharia, serviços e equipamentos, tanto de Sergipe quanto de outras regiões do Brasil. A projeção é chegar a cerca de 100 estandes e ampliar o espaço das arenas, diante da demanda crescente por conteúdos técnicos”, acrescentou Honorato.
A internacionalização também aparece como uma das próximas fronteiras do evento. A organização trabalha para viabilizar, pela primeira vez, delegações internacionais formalmente estruturadas, com representantes do Canadá e dos Estados Unidos.
“Esperamos contar, no ano que vem, pela primeira vez, com uma delegação internacional formal. Já recebemos sinalizações do Canadá e dos Estados Unidose estamos trabalhando para trazer empresas dos dois países de forma organizada, em pavilhões nacionais”, revela Nicolás Honorato
O SOG27 está programado para os dias 28 a 30 de julho de 2027, novamente no Centro de Convenções AM Malls, em Aracaju. À medida que o calendário avança neste segundo semestre de 2026, o balanço desta edição do SOG começa a se misturar às perspectivas para o próximo ciclo. O que se desenha para 2027 não é apenas uma edição maior do evento, mas a resposta a um mercado que também ganha escala e complexidade.
O legado do SOG26, portanto, está menos nos três dias de programação e mais na agenda que permanece em movimento.

Os R$ 230 milhões em negócios potenciais, a presença internacional, a ampliação da participação empresarial e a diversidade técnica dos debates mostram que o evento já opera em uma dimensão que ultrapassa a lógica de uma feira setorial.
O Sergipe Oil & Gas se consolida, assim, como uma plataforma de articulação de um mercado em transformação. E, à medida que Sergipe avança na direção de uma nova fronteira de produção de óleo e gás, o desafio passa a ser transformar ativos estratégicos em investimentos, investimentos em cadeia produtiva e cadeia produtiva em desenvolvimento econômico sustentável para o estado.