Por André Ramalho
PIPELINE. LRCAP tem protagonismo de térmicas a gás e ancora novos terminais de GNL no Brasil. Leilão também recontrata usinas existentes e reafirma modelo gas-to-wire.
ANP dá sobrevida a pleito de usuários por corte maior no custo de gasodutos. Portaria do Mover engloba biometano. Guerra atinge infraestrutura de GNL no Catar. A nova descoberta de gás da Petrobras na Colômbia e mais. Confira:
De novos terminais de gás natural liquefeito (GNL) a novas térmicas com gás onshore, além da recontratação do parque existente – e até termelétricas a biometano.
O 2º Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) – que, enfim, aconteceu – foi marcado por uma contratação ampla e teve espaço para empreendimentos de diferentes perfis.
O certame alçou as termelétricas a gás como protagonistas na oferta de potência ao sistema elétrico: foram, ao todo, 92 usinas a gás contratadas.
Uma potência de 15,2 GW que, ao fim, abrigou tanto térmicas conectadas à malha de gasodutos quanto as desconectadas – os dois modelos de negócios que travaram um cabo-de-guerra nas discussões sobre o desenho do leilão.
Formatado para distensionar interesses conflitantes, o LRCAP cumpriu o objetivo de evitar uma fuga de demanda das usinas do sistema de transporte de gás. Um pesadelo que pairava sobre o mercado e que poderia se refletir num pico de tarifas para todos os usuários da malha de gasodutos. (entenda)
Ao mesmo tempo, foi o leilão dos projetos de GNL, com protagonismo da Eneva, que já planeja dois novos terminais de regaseificação – um no Ceará e outro no litoral do Sudeste.
O tamanho do leilão, aliás, contrariou os consumidores de energia. O LRCAP sai marcado pela falta de competição, com vendas com pouco ou nenhum deságio em relação aos preços-teto e um custo anual de R$ 39 bilhões em receitas fixas aos agentes.
A seguir, a gas week traça um raio-x dos principais projetos e vencedores do LRCAP. É, claro, uma primeira leitura do leilão.
O LRCAP deixa, como saldo, a construção de ao menos dois novos terminais de regaseifcação nas costa brasileira.A Eneva, que negociou 4,4 GW de térmicas a gás no leilão, tem planos de inaugurar novos hubs de gás no Ceará e no Sudeste (RJ ou ES) – amparados em terminais de GNL.E sem pretensões, por ora, de conexão com a malha de gasodutos (embora a obrigatoriedade da interligação de terminais de GNL esteja em debate na ANP)Em resumo:
Com isso, o Ceará voltará a ter uma fonte de GNL. Dono do primeiro terminal do país, o estado perdeu sua infraestrutura de regaseificação em 2023, depois da desativação da planta da Petrobras – e da desistência do projeto Portocem, da Ceiba, vendido posteriormente para a New Fortress e transferido para Barcarena (PA).Além dos dois novos terminais de GNL, a Eneva também vai ampliar em 1,3 GW o seu parque termelétrico no hub de Sergipe.A empresa aumenta, assim, o uso do terminal de regás de Barra dos Coqueiros (SE),Além de ancorar novas térmicas próprias no terminal de Sergipe, a companhia assinou contratos para fornecimento de gás flexível a usinas de outros agentes, num volume total de 5,5 milhões de m³/dia.Aliás… não foi só a Eneva que aproveitou o LRCAP para monetizar terminais de GNL.A OnCorp, que desenvolve um projeto de uma planta de regás no Porto de Suape (PE), negociou no LRCAP uma térmica própria: a UTE Frevo (20 MW), em Suape (PE), que contará com investimento de R$ 103 milhões. E garantiu mais 11 contratos de suprimento para térmicas de terceiros, do Espírito Santo ao Ceará. Com isso, a empresa passa a ter mais de 90% da capacidade do terminal contratada.A previsão é começar as obras da planta de GNL em meados do ano e iniciar as operações do ativo no fim de 2027.A New Fortress, dona do terminal de Barcarena (PA) e o TGS (SC), atualmente inativo, também monetizou sua infraestrutura no leilão, ao negociar:
Há um desafio posto de desenvolver novos projetos de GNL num contexto de crise global – os efeitos da guerra no Oriente Médio, que escalou para a destruição de parte da infraestrutura de liquefação do Catar, um dos maiores exportadores do mundo.Uma guerra no meio do caminho. Durante teleconferência com analistas, para comentar sobre a participação da Eneva no LRCAP, o CEO, Lino Cançado, disse que, apesar de ter como principal supridor a Qatar Energy, a companhia já está com sua demanda 100% coberta para 2026 – o gás fornecido pela QE vem dos Estados Unidos.A Eneva, porém, ainda não fechou os contratos de suprimento para as novas térmicas – e a expectativa no mercado é de que projetos dependentes de GNL terão a matriz de riscos afetada pelo conflito no Oriente Médio, nas negociações pós-leilão.Cançado, no entanto, afirmou que, pelo alta quantidade de potência contratada, o poder de negociação da Eneva nas negociações por molécula tende a ser favorecido.
Por coincidência… o 1º LRCAP, de 2021, também foi afetado por uma crise no mercado global, no contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia.
O LRCAP também viabilizou novos projetos no modelo gas-to-wire, com destaque para a estreia da Origem Energia.
A empresa negociou sete termelétricas, num total de 380 MW. As usinas, previstas para 2028 e 2029, demandarão investimentos de R$ 2 bilhões.
A companhia aposta na verticalização de seus negócios. Os projetos serão instalados no município de Pilar (AL) e abastecidos, principalmente, com gás próprio do Polo Alagoas.
Além disso, as térmicas serão conectadas ao projeto de estocagem subterrânea de gás, em desenvolvimento pela empresa em Alagoas e previsto para o segundo semestre.
Já a Imetame negociou, no LRCAP, a expansão de mais 17 MW do projeto Prosperidade, que recebe o gás produzido pela companhia na Bacia do Recôncavo, na Bahia.
A capacidade adicional deverá ser entregue em 2029. Além disso, a empresa também recontratou a UTE Prosperidade IV (8,8 MW), para a partir de 2028.
Outra produtora onshore que aproveitou o leilão para monetizar suas reservas foi a PetroReconcavo, que assumiu o compromisso de fornecimento de gás às UTEs Corcovado 4, 5 e 6, que somam 142,5 MW.
As usinas foram negociadas pela Brasil GTW e entrarão em operação em 2028 – a atuação da PetroReconcavo, portanto, limita-se ao suprimento de molécula.
Pioneira no modelo gas-to-wire no Brasil, aliás, a Eneva recontratou, por mais dez anos, as usinas Parnaíba I e III, que somam 811 MW de potência negociada e cujos contratos originais vencem em 2028 e 2029, respectivamente.
Donas dos maiores parques termelétricos a gás natural do país, o trio Eneva, Petrobras e J&F abocanhou praticamente a metade da potência total contratada no 2º LRCAP.Enquanto a Eneva conseguiu viabilizar novos projetos e, ao mesmo tempo, recontratar seu atual parque de geração a gás no Parnaíba e no Espírito Santo, a Petrobras e a J&F se concentraram nas usinas existentes.
Quem também se destacou, mas com foco em novos projetos, foi a Evolution Power Partners (EPP).
A KPS também atingiu o seu objetivo de recontratar as térmicas flutuantes no Rio de Janeiro, do PCS e que somam 536 MW; além de ter negociado um projeto novo: a UTE Santana (229 MW), no Amapá.Mesmo roteiro seguido pelo Grupo Delta Energia, que recontratou a UTE William Arjona (MS), com 67 MW; e negociou uma expansão, de 168 MW de potência: a UTE Campo Grande (MS). As usinas consumirão gás nacional.Já a Urca Gás arrematou duas usinas (31,2 MW cada) no Espírito Santo: os projetos São Mateus I e II.E teve espaço até para o biometano, com a vitória da Cocal, com duas térmicas que somam 9,2 MW.
Revisão tarifária. A ANP acatou o pedido do Conselho de Usuários (CdU) e prorrogou por mais 15 dias (até 3/4) a consulta pública sobre a proposta de valoração da Base Regulatória de Ativos (BRA) do transporte.
Gas release. A ANP também abriu um questionário sobre o desenho do programa de desconcentração da oferta. A ideia é receber contribuições para subsidiar a definição dos elementos centrais do programa.
Mobilidade. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio de Serviços (MDIC) publicou nesta sexta (20/3) a portaria que detalha as soluções consideradas estratégicas para receber os incentivos previstos no programa Mobilidade Verde (Mover).
Guerra atinge infra de GNL. Um ataque iraniano ao complexo de Ras Laffan, no Catar, eliminou 17% da capacidade de gás natural liquefeito da estatal Qatar Energy. (Reuters/Valor)Colômbia. A Petrobras anunciou uma nova descoberta de acumulação de gás no poço exploratório Copoazu-1, no bloco GUA-OFF-0, em águas profundas na Colômbia. A estatal atua como operadora do bloco, com 44,44%, em parceira com a Ecopetrol (55,56%).
Argentina. A Galp obteve autorização da ANP para importar até 20 milhões de m³/dia de gás argentino, por dois anos. Mira como mercado potencial os segmentos termelétrico, distribuidoras e consumidores livres.