Por Antonio Batista (D.Sc, Professor Universitário, atualmente, é Diretor da Agência Amapá/Governo do Amapá)
O Planalto das Guianas, que historicamente formou uma grande unidade geográfica estendendo-se do Amapá (Brasil) – que um dia já foi chamado Guiana Portuguesa à Guiana Espanhola (atual Venezuela), Guiana Inglesa (Guiana), Guiana Holandesa (Suriname) e Guiana Francesa, está rapidamente se consolidando como a nova fronteira petrolífera global. Essa região, que antes era periférica no cenário energético mundial, hoje concentra esforços de exploração e produção de hidrocarbonetos dos maiores players do setor.

Na Guiana (inglesa), enormes descobertas de petróleo offshore transformaram o país em um dos centros energéticos de maior crescimento no mundo. Em 2024, o Produto Interno Bruto (PIB) da Guiana cresceu cerca de 43,6 % em termos reais em relação ao ano anterior, de acordo com o Banco Mundial. Os Blocos como o Stabroek, operados por grandes consórcios internacionais, já produzem mais de 800 mil barris por dia e têm projeções que podem elevar a produção a mais de 1,3 milhão de barris por dia até o final da década, com investimentos bilionários programados para os próximos anos.Ao mesmo tempo, o Suriname tem intensificado suas iniciativas exploratórias, abrindo vastas áreas offshore para concessão e atraindo interesse de grandes empresas globais, com expectativas de primeiro óleo e desenvolvimento significativo até por volta de 2028.
No Brasil, o Estado do Amapá, situado no extremo norte e fazendo parte do Platô das Guianas, teve a licença para exploração de petróleo liberada em outubro de 2025, marcando um avanço estratégico na chamada Margem Equatorial Brasileira — uma faixa que se estende ao longo de fronteiras nacionais e que geologicamente compartilha características com as bacias produtoras vizinhas. Atualmente, o Estado já tem blocos sob concessão das seguintes empresas: PETROBRAS, BRAVA Energia, EXXON MOBIL, CHEVRON e CNPC.
Na Guiana Francesa, um território ultramarino que tradicionalmente tinha restrições legais à atividade petrolífera, o Senado francês aprovou em 29 de janeiro de 2026 uma proposta para permitir a exploração de petróleo e gás, abrindo caminho para que o desenvolvimento de recursos energéticos também seja uma realidade desse lado da fronteira. Esta era o único território que estava impedindo a atividade petrolífero. Desde 2017 estava proibido a atividade na região. Portanto, a Guiana Francesa agora também faz parte da “Rota do Petróleo”.
Por fim, a Venezuela, que possui as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris, que equivale a aproximadamente 17 % das reservas mundiais conhecidas.Apesar dessa imensa riqueza geológica, o setor petrolífero venezuelano esteve profundamente estagnado ao longo dos últimos anos. A combinação de sanções internacionais impostas pelos Estados Unidos e outros países, junto com infraestrutura deteriorada, falta de investimentos e má gestão da estatal PDVSA, reduziu a produção a uma fração de seu potencial histórico — de mais de 3 milhões de barris por dia no início dos anos 2000 para cerca de 1 milhão de barris por dia recentemente, uma participação inferior a 1% da produção global.

Mudanças recentes no cenário político e geopolítico — incluindo a intervenção norte-americana no país em 2026 e decisões políticas que estão abrindo o setor a investidores estrangeiros — indicam que a indústria petrolífera venezuelana pode estar prestes a ressurgir com força renovada. Relatórios apontam que legislações aprovadas em janeiro de 2026 visam liberalizar o setor, atrair capital estrangeiro e modernizar a produção, rompendo com décadas de controle estatal exclusivo e sanções severas. Juntas, essas transformações mostram que todos os países do arco norte da América do Sul estão consolidando o petróleo como uma força motriz de suas economias, atraindo bilhões em investimentos, gerando empregos, tecnologia e impulsionando desenvolvimento numa região que por muito tempo foi negligenciada no cenário global de energia.
Essa dinâmica coloca o Platô das Guianas no centro das atenções como uma das fronteiras mais promissoras para a produção de hidrocarbonetos nas próximas décadas.Diante desse cenário de rápida consolidação do Planalto das Guianas como nova fronteira petrolífera mundial, torna-se estratégico que empresas brasileiras do setor de petróleo e gás se mobilizem desde já para planejar e estruturar sua presença na região.
A experiência internacional mostra que as maiores oportunidades — contratos, parcerias, bases logísticas, fornecimento de bens e serviços especializados — são capturadas por quem chega primeiro e se posiciona de forma antecipada junto aos operadores, governos e cadeias produtivas locais. A inércia ou a demora nesse movimento poderá significar perda de competitividade, espaço e relevância, abrindo caminho para que empresas estrangeiras ocupem posições-chave em um ciclo de investimentos que deverá movimentar bilhões de dólares nas próximas décadas. O arco norte sul-americano deixa de ser promessa e passa a ser realidade — e o tempo de decisão será determinante para quem pretende fazer parte dessa transformação.