A Petrobras pediu ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorização para perfurar três novos poços exploratórios no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas: Manga, PAD Morpho e Crotalus.
Para ampliar a licença, o órgão impõe uma série de condições ambientais, de embarcação dedicada à proteção da fauna a nova modelagem de dispersão de óleo.
Os poços se somam ao Morpho, único autorizado pela licença emitida em 2025 e atualmente em perfuração. Segundo a própria estatal, o Morpho deve ser finalizado entre agosto e setembro.
Em recente parecer da Coordenação de Licenciamento de Exploração (Coexp) do Ibama, o órgão cobrou esclarecimentos adicionais da estatal, respondidos na sexta (14/8). A Petrobras afirma que todas as considerações do órgão foram endereçadas.
Além das três perfurações, o pedido abrange os testes de formação e o abandono definitivo dos quatro poços do bloco.
O Ibama exige que uma nova embarcação dedicada à proteção da fauna esteja integrada ao Plano de Proteção à Fauna (PPAF) antes da fase de reservatório do primeiro poço contingente a ser perfurado, com vistoria ambiental prévia.
A Petrobras havia informado ao órgão que não conseguiria integrar a unidade à campanha do poço em curso e se comprometeu a disponibilizar a embarcação para vistoria antes do início da perfuração do próximo poço no bloco.
O Ibama propôs ainda inserir na licença uma nova condicionante que obriga a Petrobras a apresentar proposta de simulado de emergência uma vez ao ano, com participação do órgão.
Antes mesmo da emissão da licença, a capacidade de resposta da estatal a um vazamento já era ponto sensível do processo: em 2025, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou ao Ibama que não concedesse a autorização até que a Petrobras refizesse a simulação de emergência.
O órgão também pediu a atualização da modelagem de dispersão de óleo com os dados da chamada Base Hidrodinâmica da Margem Equatorial (BHMEQ), estudo agora finalizado que contou com participação da própria Petrobras no consórcio responsável.
A licença emitida em outubro de 2025 já incluía, entre suas condicionantes, a apresentação de nova modelagem de dispersão de óleo com a base hidrodinâmica elaborada para a Margem Equatorial
O que muda agora, com a perspectiva de três novos poços, é a cobrança para que os resultados da base finalizada sejam incorporados à modelagem do processo, com ajustes nos planos de emergência e de proteção à fauna, se necessário.
“É possível afirmar que não se esperam alterações significativas dos resultados”, diz o documento da Petrobras.
Na segunda (17/8), o MPF enviou ofício ao Ibama para questionar a liberação das novas perfurações por meio de anuência ou de alteração de condicionantes da licença que autorizou a abertura apenas do Morpho.
Para os procuradores do Pará e do Amapá que assinam o documento, o caminho descumpre normas ambientais, ignora impactos cumulativos e contradiz informações prestadas à sociedade e à Justiça. O órgão deu prazo de cinco dias para o Ibama responder, com informações, justificativas e documentos.
O argumento central é o do impacto acumulado. “O aumento do número de poços amplia o tempo da atividade e interfere na intensidade e na frequência dos impactos sobre a fauna, a flora e as comunidades tradicionais da região costeira, como indígenas, quilombolas, extrativistas e pescadores artesanais”, afirmou o MPF.
A Petrobras avalia substituir a sonda ODN II (NS-42), que perfura o Morpho, pela Amaralina Star (NS-43) na campanha dos três novos poços. O Ibama não vê impedimento técnico, mas exige comunicação com antecedência mínima de 30 dias caso a empresa opte pela troca.
A estatal afirma que as duas unidades têm características técnicas similares e que a adequação para o recolhimento dos cascalhos da fase-reservatório será feita antes do início da perfuração.
O Morpho é um poço pioneiro, o primeiro a testar o prospecto. O PAD Morpho, um dos três poços agora pedidos ao Ibama, é um poço de extensão: sua função é delimitar o tamanho do reservatório descoberto pelo pioneiro.
Apenas com os dois concluídos, a Petrobras terá dados para afirmar, com segurança, a extensão do reservatório de Morpho. Manga e Crotalus são prospectos novos, independentes.
Desde o anúncio de 14 de agosto, Magda Chambriard esclarece que ainda não é possível dizer se o material encontrado tem escala comercial e que a comercialidade só poderá ser constatada com os três novos poços.
A perfuração do Morpho vai atingir mais de 7 mil metros de profundidade, partindo de uma lâmina d’água de 2.886 metros.
Os indícios de petróleo anunciados em 14 de agosto foram identificados ainda durante a perfuração, antes de atingir o alvo final. É comum: durante a perfuração de poços, equipes e equipamentos na própria sonda monitoram o cascalho retirado durante os trabalhos para monitorar em que momento começam a surgir traços de petróleo ou gás natural.
Indício, porém, não é produtividade. Para comprovar que o reservatório de fato produz, é preciso o teste de formação.
É uma operação de produção controlada e de curta duração, em que o poço é aberto e os fluidos sobem à superfície por uma planta de teste montada na própria sonda. Normalmente, o fluxo é limitado a 72 horas, e é essa etapa — pendente de aval do Ibama — que dirá o potencial da primeira descoberta em águas profundas na Foz do Amazonas.