Por Jorge Priori
Conversamos com Roberto Castello Branco sobre o Brasil e o setor de petróleo. Roberto é doutor em economia e foi presidente da Petrobras de janeiro de 2019 a abril de 2021.
Eu costumo dizer que o Brasil é uma fortaleza global de recursos naturais. O setor de petróleo, e aqui incluo o gás, tem um grande potencial, mas, infelizmente, a sua realização é limitada pela intervenção do Estado. No caso do Agro, o país consegue realizar o seu enorme potencial, já que a intervenção do Estado foi muito reduzida. Por exemplo, não existe uma empresa estatal produzindo soja ou carne, pois isso fica a cargo do setor privado. Além disso, não existe mais a intervenção que havia no passado, já que o controle de preços foi abolido na década de 1990.
Esse não é o caso da mineração, onde o governo exerce influência sobre a Vale, e do petróleo, onde a intervenção do governo é feita através da Petrobras e da regulação. Como o potencial do setor petrolífero brasileiro somente será realizado quando houver uma redução significativa da presença do Estado no setor, eu postulo a privatização da Petrobras, que é um bicho esquisito, uma sociedade de economia mista onde o setor privado tem 62% do capital total e o restante é do governo, sendo que o governo acha que a empresa é dele. É por isso que todos os presidentes da República, sem exceção, se julgam no direito de intervir, com diferentes graus, na Petrobras, mas essa intervenção é maligna, não cria valor e não gera crescimento para a empresa. Pelo contrário, ela é ruim tanto para a Petrobras quanto para o país.
O Brasil importa diesel e, eventualmente, gasolina, pois não tem refinarias suficientes, já que o setor privado não quer investir nessa atividade. Eu tentei vender algumas refinarias e sei como isso é difícil. Isso porque um investidor não vai investir, no mínimo, R$ 1 bilhão em um ativo quando o governo controla, fixa e intervêm na formação de preço do seu principal produto. São as forças de demanda e oferta que determinam o preço do produto. É por isso que eu reputo como muito corajosa a decisão do Mubadala de investir em uma refinaria brasileira.
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Agora, eu não vejo como primordial essa questão de que o Brasil tem que produzir tudo. Havia uma discussão na Petrobras sobre uma integração vertical, ou seja, quem produz petróleo tem que refiná-lo, sendo que isso seria o valor adicionado. O ponto é que a operação de petróleo é completamente diferente da operação de refino.
A operação de petróleo utiliza uma tecnologia muito mais sofisticada e é capaz de gerar, caso seja competentemente administrada, um alto retorno para o seu investidor. Já a operação de refino é uma operação industrial que utiliza tecnologias relativamente estáveis, requer custos baixos e eficiência energética e tem margens muito menores. Dessa forma, uma estatal que tem elevados custos de pessoal em função de acordos sindicais e da sua cultura estatal, além de outros custos, perde dinheiro com o refino. Em outras palavras, a Petrobras não conseguiria gerar um retorno com o refino que cobrisse o custo de capital da companhia, o que é muito perigoso no longo prazo. Esse é o problema.
Outro ponto é que todos os governos se convenceram de que a Petrobras é indutora do desenvolvimento nacional, sendo que essa visão está redondamente equivocada. Se isso fosse verdade, a Petrobras teria feito um péssimo trabalho, já que o Brasil cresceu muito pouco nos últimos 40 anos. Cabe destacar que o desenvolvimento econômico depende de todas as empresas. Por exemplo, se o bar da esquina, que tem três ou quatro funcionários, vender mais, tiver custos mais baixos e prosperar, ele vai contribuir para o desenvolvimento econômico.
Por mais que essa história seja um erro muito sério, ela é utilizada como justificativa para o governo intervir na Petrobras, utilizando-a como veículo de propaganda e para beneficiar, como aconteceu no passado, partidos ou políticos aliados. Uma empresa governada por interesses políticos, e não pelo interesse em gerar lucro para os seus acionistas.
Com relação ao gás, no Brasil a grande fonte é o pré-sal. O problema é que o gás brasileiro é diferente do gás encontrado nos Estados Unidos, na Argentina ou no Catar, já que ele é um subproduto do petróleo. Isso porque quando o petróleo é extraído do pré-sal, o gás vem junto, o que exige separar o gás do petróleo. O ponto é que o pré-sal tem incidência de carbono, que precisa ser separado para ser devolvido ao poço, o que reduz a produção de gás. Isso é feito, pois como o carbono contamina o meio-ambiente, a empresa fica sujeita as multas das autoridades ambientais.
O que o Brasil precisa fazer é abrir os mercados e permitir a exploração do shale gas, que, por incrível que pareça, é proibida em alguns estados, o que é um verdadeiro absurdo. O gás é muito importante para a composição da matriz energética brasileira, pois ele é um combustível de transição, já que emite muito menos carbono que o petróleo e o carvão. Ele fica no meio da hidroeletricidade, que depende da água, portanto é afetada pela precipitação pluviométrica, já que pode haver seca ou não, e dos renováveis, que são de geração intermitente.
O gás custa caro no Brasil, pois nós importamos o GNL (Gás Natural Liquefeito), mas isso poderia ser substituído pelo shale gas ao longo do tempo. Dependendo do sucesso da exploração, nós poderíamos passar a ser exportadores de gás.
O setor de combustíveis padece de dois grandes problemas: a adulteração de combustíveis e a sonegação de impostos. Hoje, a distribuição de combustíveis é totalmente privada, tanto nos combustíveis de fato, que são distribuídos pelos postos, quanto no gás. Por exemplo, a distribuição de GLP (Gás Liquefeito de Petróleo), o gás de cozinha, e de gás natural foram privatizadas, mas para que isso beneficie o consumidor, é necessário que a abertura dos mercados, que está na Lei do Gás, seja mais explorada.
Por mais que a Petrobras ainda retenha um grande poder de mercado nessa área, isso melhorou muito, pois já foi 100% de tudo, mas é importante que o futuro governo vá mais a fundo nesse assunto.
Todos eles acham que entendem, mas se entendessem de fato, não interviriam na companhia, pois isso prejudica muito o papel da indústria do petróleo. Contudo, como eles cedem à tentação pela busca de poder, eles intervém na Petrobras para servir aos seus interesses políticos.
Por exemplo, a Petrobras já aprovou uma verba de quase R$ 1 bilhão em publicidade para o próximo ano, sendo que uma empresa como a Petrobras não precisa gastar esse montante em publicidade. Além disso, existe um excesso de patrocínios.
Outro ponto: a Petrobras serve de empregadora e de alavanca da indústria naval nacional. Com isso, ela compra navios a preços mais elevados do que compraria em outros lugares. Essas não são funções do setor de petróleo, que tem que produzir, pagar seus impostos, gerar retorno para os seus acionistas para garantir a sua existência e financiar a exploração.
Existem situações em que a volatilidade ainda não se assentou, mas isso depende do julgamento. Se acontece alguma coisa no Oriente Médio e os preços vão lá para cima, você não precisa seguir aquilo imediatamente. É preciso observar, pois existe um período chamado descoberta de preço. Isso porque, como os traders ficam comprando e vendendo para tentar descobrir o preço futuro, isso contribui para o aumento da volatilidade. Durante esse período, o melhor conselho é não fazer nada.
Agora, o que não pode é ficar cinco meses parado com o preço flutuando. Quando isso acontece, a Petrobras deixa muito dinheiro em cima da mesa, sendo que esse dinheiro que poderia ser utilizado no financiamento dos seus investimentos.
Sim, responde. Isso porque a Petrobras possui uma hierarquia respeitada. Em meus quase dois anos e meio como presidente, nunca houve um desrespeito a minha autoridade ou alguém não querendo obedecer uma diretriz que tivesse sido traçada por mim. Por mais que a Petrobras tenha defeitos, ela é diferente de uma repartição pública federal.