MESMO COM A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA, DEMANDA POR PETRÓLEO PODE CONTINUAR CRESCENDO NOS PRÓXIMOS ANOS

MESMO COM A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA, DEMANDA POR PETRÓLEO PODE CONTINUAR CRESCENDO NOS PRÓXIMOS ANOS
13 de janeiro de 2026

A transição energética em curso não representa uma substituição abrupta de fontes, mas sim a convivência crescente entre diferentes matrizes. Essa é a avaliação do consultor em petróleo e gás e professor da PUC-Rio Armando Cavanha, nosso entrevistado desta terça-feira (13) na série especial Perspectivas 2026. Segundo ele, o petróleo continuará sendo relevante para a indústria por muitos anos e a demanda pela commodity não arrefecerá pelo menos até a próxima década. No entantoas fontes solar e eólica continuam crescendo e adicionando capacidade ao sistema. “A verdade é que a velocidade da transição dependerá menos das metas declaradas e mais da combinação entre custos relativos, velocidade tecnológica e estabilidade geopolítica”, avaliou. Cavanha avalia que as universidades e centros de pesquisa terão papel crucial durante o processo de transição energética, pois ajudam a “interpretar as probabilidades, os esforços e os resultados, transformando em propostas de políticas, tecnologias e formação de capital humano”. O entrevistado conclui dizendo que investir em educação e pesquisa é política econômica e energética ao mesmo tempo. “A universidade deve continuar sendo o espaço que relativiza modismos, traduz incertezas em planejamento e gera consensos técnicos duradouros”, finalizou.

– Como foi o ano de 2025 em seu setor de atuação?

O ano de 2025 confirmou que a transição energética não é um destino fixo, mas uma adição energética de várias fontes distintas.

As análises e decisões sobre o petróleo permaneceram sólidas. Não há substituição comercial visível para quem gera 6000 produtos petroquímicos e sustenta a logística pesada de aviões, navios, caminhões, e equipamentos militares. Pelo contrário, o mundo aponta demandar 110 ou 115 milhões de barris por dia na próxima década, saindo dos atuais 100 milhões de barris por dia.

Ao mesmo tempo, as energias para eletricidade, como as intermitentes solar e eólica, crescem e adicionam capacidade, mesmo requerendo armazenar parte da energia em sistemas complexos de baterias ou utilizando backup em gás natural.

A verdade é que a velocidade da transição dependerá menos das metas declaradas e mais da combinação entre custos relativos, velocidade tecnológica e estabilidade geopolítica.

Nesse contexto, o papel da universidade foi e está sendo decisivo. Ela ajuda a interpretar as probabilidades, os esforços e os resultados, transformando em propostas de políticas, tecnologias e formação de capital humano. A PUC-Rio tem sido um exemplo notável disso. A universidade atua não apenas como um centro de pesquisa, mas como um espaço de convergência entre ciência, indústria e Estado, onde se compreende que o futuro energético será moldado pela inteligência coletiva mais do que por decretos ou slogans.

Em 2025, vimos na PUC-Rio o amadurecimento de iniciativas que dialogam com essa realidade, projetos em hidrogênio verde, captura e armazenamento de carbono, eletrocatálise e redes inteligentes caminham lado a lado com pesquisas sobre regulação, financiamento e impactos sociais da transição. O Instituto de Energia e o Instituto ECOA são exemplos destas iniciativas no país, pesquisando e ensaiando respostas dinamicamente.

– Se fosse consultado, que sugestões daria (ao governo ou ao mercado) para melhorar o ambiente de negócios em seu setor?

Há boas iniciativas de governo no país para a convergência de Indústria, Centros de Pesquisa, Universidade, mas são ainda burocráticas, extremamente reguladas, com interferência excessiva nos direcionamentos.

É certo que o Brasil não hospeda as matrizes nem os centros de pesquisas principais de grandes empresas de serviços tecnológicos, em geofísica, drilling, poços, reservatórios, produção. SLB, CGG, BGP, PGS, TGS, Halliburton, Coflexip, FMC, Cameron, e mais 100 similares. Todas estrangeiras, com filiais no Brasil, por vezes enormes.

Os seus centros de pesquisa estão em Houston, Paris ou Aberdeen. Lá certamente estão as ideias centrais. Por aqui, o que compensa é que temos uma fantástica exploração em águas profundas e uso de FPSOs e linhas flexíveis como ninguém tem.

Portanto, precisamos de uma lógica diferente, precisamos de Universidade forte e atuante, bem como desregulamentação significativa, para atrair uma mudança estrutural.

– Por último, quais são as perspectivas para o mercado em 2026?

Acredito que a melhor medida para que a economia brasileira flua melhor é fortalecer essa ponte entre conhecimento e decisão. Investir em educação e pesquisa é política econômica e energética ao mesmo tempo. A universidade deve continuar sendo o espaço que relativiza modismos, traduz incertezas em planejamento e gera consensos técnicos duradouros.

Os desafios continuam associados à imprevisibilidade regulatória e ao descompasso entre discurso e ação. Precisamos de políticas de Estado, independentemente de partidos ou ideologias, de longo prazo, que garantam previsibilidade à inovação e ao investimento.

Olho para 2026 com um otimismo cauteloso. A PUC-Rio e outras universidades brasileiras têm mostrado que o país possui o talento e a estrutura necessários para transformar ciência em prosperidade sustentável.

A transição energética é, em última instância, uma transição de saberes, e a universidade é o seu motor silencioso, aquele que conecta probabilidade, tecnologia e propósito. No Brasil, esse motor requer estabilidade, regulação inteligente, pragmatismo, mais ciência do que política.

Fonte: Petronotícias.
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