Home ESG Gás Verde dribla a Guerra do Irã e mira a maior planta de biometano do mundo

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13 de abril de 2026

Fabricante de renováveis viu oportunidade crescente em meio à crise do petróleo mundial. Agora, estuda como chegar aos 280 mil metros cúbicos por dia de capacidade

Por Letícia Ozório

Enquanto o barril de petróleo Brent superava os US$ 120 e conflitos no Oriente Médio mantinham os mercados de energia e combustíveis em estado permanente de alerta, uma empresa brasileira assistia seu modelo de negócios escapar dessa turbulência.

Gás Verde, maior produtora de biometano da América Latina, cobra contratos indexados ao IPCA — sem exposição ao dólar ou ao Brent —, o que garantiu estabilidade de preços durante a crise mundial. A companhia, que está expandindo sua operação em novas regiões do país, planeja construir em Seropédica (RJ) o maior complexo de produção de biometano do mundo, com capacidade projetada de até 280 mil metros cúbicos/dia.

proteção cambial não é detalhe menor. Com o diesel superando R$ 7,30 em capitais e a metodologia de revisão tarifária do gás natural sendo atualizada trimestralmente, a pressão sobre os combustíveis fósseis tende a se intensificar nos próximos meses. “Quando o cliente firma contrato conosco, conseguimos ter uma base de custos atrelada ao IPCA. Isso se descola dos riscos internacionais de Brent e de dólar”, diz Eduardo Lima, diretor comercial da Gás Verde.

Nova parceria, nova planta

A expansão mais imediata está em Igarassu, Pernambuco — primeira planta da empresa no Nordeste, já em construção e com operação prevista para o segundo semestre deste ano. Com capacidade de 45.600 metros cúbicos de biometano por dia, a unidade já tem mais de 60% da produção negociada antes mesmo de entrar em funcionamento.

O projeto contou com apoio direto da secretaria de desenvolvimento do governo estadual. “Foi uma experiência muito bacana porque nos unimos para tentar facilitar, no bom sentido, que o projeto saísse do papel e se tornasse realidade”, conta Lima.

Um dos contratos firmados a partir dessa planta é com a Mondelēz Brasil — dona de marcas como Lacta, Oreo, Bis e Sonho de Valsa —, que passará a abastecer sua fábrica em Vitória de Santo Antão com biometano produzido a partir da conversão do biogás do aterro de Igarassu, a cerca de 60 quilômetros de distância. A informação foi divulgada com exclusividade nesta sexta-feira, 10, pela EXAME.

A unidade será a primeira da Mondelēz na América Latina a incorporar o combustível renovável na matriz energética. O contrato, de três anos, prevê fornecimento de 50 mil m³/mês no início, com rampa progressiva até 100 mil m³/mês, e a expectativa é evitar a emissão de 6 mil toneladas de CO₂ ao longo do período — equivalente ao plantio de 40 mil árvores.

O potencial de mercado na região vai muito além de um contrato. Num raio de 150 a 200 quilômetros de Igarassu é possível alcançar os principais polos industriais de Pernambuco: Suape, Ipojuca, Recife, Jaboatão dos Guararapes, Goiana e Belo Jardim, entre outros. “Estamos muito bem posicionados. Se pudéssemos, teríamos três plantas nessa região, porque vimos que existe mercado ativo”, diz Lima. A meta é chegar a 100% do volume contratado até o fim deste ano.

A aposta no CO₂ verde

Além do biometano, a Gás Verde identificou uma oportunidade relevante no subproduto do processo: o CO₂ verde. Diferente do gás carbônico de origem fóssil, o CO₂ verde é purificado a partir de fontes orgânicas — como a decomposição de resíduos em aterros sanitários —, atingindo pureza de 99,998% em padrão beverage grade. Serve para substituir o CO₂ fóssil em setores que dependem de dióxido de carbono de alta pureza, como bebidas e congelamento de alimentos, reduzindo a emissão de gases de efeito estufa ao longo da cadeia.

A planta de Seropédica (RJ) — que abriga a maior unidade de biometano do país, com 180 mil m³/dia — opera a primeira planta de CO₂ verde originada de aterro sanitário do Brasil, produzindo 100 toneladas por dia, com 100% da produção comercializada. “Temos novidade em operação que pensamos em replicar: a produção de CO₂ padrão bebida, com 99% de pureza”, conta Lima.

Com a expansão planejada para Seropédica, onde a capacidade pode chegar a 280 mil metros cúbicos/dia somando a unidade existente a uma nova planta adjacente, a Gás Verde avalia criar o maior complexo de biometano do mundo. “Não existe nada assim em nenhum lugar do mundo”, afirma Lima.

Clientes, frotas e o novo marco regulatório

O portfólio da empresa já inclui Ambev, Nestlé, Henkel, Saint-Gobain, Stellantis, Grupo L’Oréal, Ternium e Haleon — cobrindo setores de bebidas, siderurgia, cosméticos e automotivo. No segmento de frotas, a parceria com a Scania resultou na alocação de 100 caminhões de grande porte movidos a biometano em operações de clientes, fazendo substituição direta do diesel.

“Já fazia sentido com foco em descarbonização, mas a demanda sobe de maneira incrível. O biometano, além de ser uma opção sustentável, é economicamente interessante”, diz Lima.

economia circular fecha o ciclo de forma quase simbólica: em São Paulo, a Ecourbis — concessionária responsável pela coleta e destinação de resíduos sólidos na zona sul e leste da capital — já usa biometano para descarbonizar sua própria frota de coleta de lixo. Os caminhões que abastecem o aterro rodam com o combustível produzido pelo próprio aterro. “Gostamos de dizer que esse é o perfeito exemplo de economia circular“, resume Lima.

No horizonte regulatório, a Lei do Combustível do Futuro estabeleceu obrigatoriedade de 0,5% de biometano na matriz de todos os produtores e importadores de gás no país — criando um piso de demanda estrutural que não existia antes.

A Gás Verde hoje produz 160 mil m³/dia e projeta chegar a 650 mil m³/dia até 2029, com nove novas plantas em seis estados, incluindo a unidade de Juiz de Fora (MG), com início de operação previsto para 2027.

Fonte: exame.
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