Por Lara Rizério
Por muitos anos, o segmento de refino da Petrobras (PETR4) foi visto pelo mercado como um dos elos mais fracos da companhia. Em meio à preferência dos investidores pela área de exploração e produção (upstream), que se beneficia diretamente dos preços elevados do petróleo, as refinarias costumavam ser associadas a menores margens, maior necessidade de investimentos e impacto negativo nos resultados.
Mas essa percepção pode estar prestes a mudar.
Relatório recente do BTG Pactual chamou atenção para o potencial do downstream – divisão que engloba refino, transporte e comercialização de derivados – de se transformar em uma fonte relevante de geração de caixa para a estatal justamente em um momento em que o mercado monitora os riscos de um petróleo menos favorável nos próximos anos.
A leitura é que aquilo que durante muito tempo foi considerado um “patinho feio” da tese de investimento da Petrobras pode começar a funcionar como um importante amortecedor dos resultados, sustentando lucros e dividendos mesmo em cenários de Brent menos robusto.
O principal fator por trás dessa mudança é o cenário global para as margens de refino, conhecidas no setor como crack spreads — indicador que mede a diferença entre o custo do petróleo bruto e o preço dos derivados produzidos pelas refinarias, como diesel e gasolina.
Segundo o BTG, os spreads permaneceram significativamente acima das médias históricas e apresentaram nova aceleração recente. A instituição destaca que, diferentemente de ciclos anteriores, parte dessa força decorre de fatores estruturais: anos de subinvestimento em capacidade de refino global, restrições à oferta de combustíveis russos após as sanções internacionais e tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Para André Matos, CEO da MA7 Capital, o mercado pode estar subestimando a relevância dessa dinâmica para a Petrobras.
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“Durante muito tempo o refino foi tratado como o patinho feio da tese da Petrobras, visto como um negócio que consumia caixa e derrubava margem. O que a leitura mais recente sugere é uma inversão desse papel”, afirma.
Segundo ele, como a Petrobras refina aproximadamente 70% de seu próprio petróleo, cerca de 1,8 milhão de barris por dia, a companhia não fica apenas exposta às oscilações do Brent, mas também captura diretamente os ganhos provenientes do aumento das margens de refino.
“Mesmo que o preço do petróleo se acomode, os combustíveis podem continuar remunerando bem. Isso traz resiliência ao lucro, ao fluxo de caixa e, consequentemente, aos dividendos”, acrescenta.
A mudança de percepção ganha importância porque reduz a dependência da Petrobras em relação ao segmento de exploração e produção, historicamente responsável pela maior parte do lucro da companhia.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o fortalecimento do refino ajuda a equilibrar os resultados ao longo do ciclo do petróleo.
“Quando o refino passa a capturar margens mais elevadas, a companhia ganha uma segunda fonte relevante de geração de caixa, tornando os resultados mais equilibrados e reduzindo a volatilidade dos lucros”, afirma.
Na visão do especialista, se o desempenho acima do esperado do downstream persistir nos próximos trimestres, o mercado poderá atribuir maior valor ao segmento em suas projeções, abrindo espaço para revisões positivas de lucro e até para valorização das ações.
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Ele ressalta, porém, que a tese dependerá da comprovação de que essa melhora é estrutural e não apenas fruto de um momento favorável para as margens internacionais.
Outro elemento que reforça a tese é a elevada utilização do parque de refino da estatal. Analistas destacam que as refinarias da Petrobras vêm operando próximas de níveis recordes, com taxas de utilização ao redor de 97%.
Para Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, essa combinação entre alta ocupação das refinarias e margens favoráveis muda significativamente a contribuição do segmento para os resultados.
“Por muito tempo, o downstream foi considerado o ponto fraco da companhia. Hoje, ele surge como um vetor de resiliência e upside relevante”, afirma.
Segundo Uarian, o refino pode ampliar sua contribuição para os lucros, para o fluxo de caixa livre e para os dividendos distribuídos aos acionistas. Ele destaca ainda que cerca de 70% da produção de óleo da companhia é processada internamente, permitindo capturar melhor os preços mais fortes dos combustíveis.
“Antes, o mercado precificava o refino como um risco ou um arrasto. Agora, ele pode atuar como catalisador, trazendo maior previsibilidade e potencial de revisão positiva nos números de consenso para o segundo semestre de 2026 e para 2027”, avalia.
A principal consequência para os investidores seria a sustentação da capacidade de distribuição de dividendos, um dos principais atrativos da Petrobras na Bolsa.
Tanto o BTG quanto analistas independentes destacam que um downstream mais forte contribui para manter a geração de caixa robusta mesmo em cenários de petróleo menos favoráveis. Em algumas projeções, o dividend yield segue próximo de 10% ao ano.
Na avaliação de Matos, da MA7 Capital, o verdadeiro gatilho para uma reprecificação positiva das ações não seria necessariamente um único trimestre forte, mas a percepção de que a força do refino pode durar mais tempo do que o mercado imagina.
“Se essa tese se confirmar ao longo do segundo semestre, abre espaço para revisões de projeções de lucro para cima. É aí que mora o verdadeiro catalisador para a ação”, afirma.
Assim, o segmento que durante anos foi enxergado como um peso dentro da Petrobras pode estar prestes a assumir um papel bem diferente: o de um dos pilares que sustentam a geração de caixa e os dividendos da companhia em um cenário global cada vez mais desafiador para as petroleiras.
Neste cenário, o BTG manteve recomendação de compra para as ações preferenciais da Petrobras – PETR4. O banco tem preço-alvo para o final de 2027 de R$ 56 por ação, baseado em um valuation por fluxo de caixa descontado e implica um yield de fluxo de caixa ao acionista de cerca de 9% e um dividend yield de cerca de 8%, ambos para 2027.