Jean Paul Prates
Presidente do Conselho Gestor do CERNE e ex-presidente da Petrobras
Depois de anos de debate e sucessivos adiamentos, começam finalmente a sair do papel soluções estruturais para um dos maiores paradoxos energéticos do Brasil: a sobra crescente de energia eólica e solar produzida no Nordeste, especialmente no chamado Brasil Equatorial.
Além do esperado leilão de baterias, agora previsto para 2026, o Ministério de Minas e Energia concluiu recentemente os estudos que viabilizam o futuro leilão do Bipolo Nordeste II, um novo corredor de transmissão em corrente contínua que ligará Angicos, no Rio Grande do Norte, a Itaporanga, em São Paulo, ao longo de cerca de 2.500 quilômetros. Trata-se de uma das obras mais relevantes do setor elétrico brasileiro nas próximas décadas.
O projeto introduz no país, pela primeira vez em um sistema de longa distância, a tecnologia HVDC-VSC, Corrente Contínua de Alta Tensão com Conversor Fonte de Tensão. Essa solução permite maior controle de potência, estabilidade e flexibilidade operacional, características essenciais para integrar com segurança grandes volumes de energia intermitente, como a eólica e a solar. Segundo estudos da Empresa de Pesquisa Energética, esse reforço estrutural ampliará a capacidade de exportação de energia do Nordeste de cerca de 13 GW, em 2025, para aproximadamente 24 GW em 2035, viabilizando uma potência instalada regional que pode chegar a 60 GW em fontes renováveis.
Esse avanço é fundamental para a segurança do Sistema Interligado Nacional e representa um marco tecnológico para o setor elétrico. Também abre oportunidades relevantes para empresas de engenharia, fabricantes de equipamentos e integradores tecnológicos, ao exigir novas competências, certificações, inovação e parcerias internacionais.
Mas é preciso ir além. Mesmo com maior capacidade de escoamento de energia para o Sudeste e o Sul, o verdadeiro desafio estratégico do Nordeste não é apenas exportar eletricidade limpa, mas transformar essa abundância em desenvolvimento econômico local. Isso passa, necessariamente, pela atração de indústrias eletrointensivas e pela eletrificação massiva das frotas e das cidades da própria região.
Do Rio Grande do Norte ao Amapá, existem condições reais para eletrificar integralmente indústrias, transportes e centros urbanos em menos de 40 anos, com base no enorme potencial eólico e solar disponível em terra e no mar. Esse movimento permitiria ao Nordeste deixar de ser apenas fornecedor de energia e assumir um papel central como polo neoindustrial na nova economia digital e eletrificada.
Essa nova etapa começa com o reforço da transmissão, mas precisa avançar de forma simultânea para a atração de datacenters, sempre com rigor ambiental e atenção à questão hídrica. Em seguida, a retomada consistente dos projetos de hidrogênio verde torna-se viável, impulsionada por preços competitivos da energia limpa abundante, capazes de atender mercados já existentes no refino, na petroquímica e em cadeias industriais associadas. A consolidação de indústrias verdes eletrointensivas completa esse ciclo virtuoso e duradouro.
O Nordeste inovou no fim dos anos 1990 ao liderar a expansão das energias renováveis no Brasil. Hoje, o futuro digital e elétrico já está posto. Preparar o Rio Grande do Norte para esse novo ciclo não é uma opção ideológica, é uma necessidade estratégica. O desenvolvimento sustentável, industrial e tecnológico da região passa, cada vez mais, por transformar energia limpa em valor, empregos e prosperidade para as próximas gerações.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.