Carlos Mastrangelo aponta disputa por equipamentos com Data Centers e adoção de novas tecnologias como desafios do mercado de FPSOS

Carlos Mastrangelo aponta disputa por equipamentos com Data Centers e adoção de novas tecnologias como desafios do mercado de FPSOS
14 de outubro de 2026

Considerado um dos pioneiros na disseminação mundial do uso de plataformas do tipo FPSO, Carlos Mastrangelo escreveu, em parceria com o também experiente executivo Jorge Mitidieri, o livro “FPSO: Legado Offshore”. A obra aborda desde as escolhas técnicas que moldaram o mercado de navios-plataformas até os atuais desafios operacionais e as tendências futuras.

Em entrevista ao Petronotícias, Mastrangelo analisou os fatores que pressionam o mercado de unidades de produção offshore, como a disputa por equipamentos com setores como os de data centers e aviação, e as incertezas que afetam as decisões de investimento em projetos de petróleo e gás. O executivo também discutiu os impactos da adoção de novas tecnologias, como a inteligência artificial, e defendeu o planejamento de longo prazo e a atuação do governo para evitar sobrecargas na cadeia brasileira de fornecedores e ampliar a participação nacional nos projetos.

Qual foi a proposta da obra e por que considera importante olhar para o passado ao pensar no futuro da indústria?

O título FPSO: Legado Offshore pode dar a impressão de que se trata de um livro de história, voltado ao passado. No entanto, essa não é a proposta. A obra busca compreender o presente com base nos acontecimentos anteriores, de modo a projetar o futuro. A palavra “legado” está relacionada justamente ao que deixamos para as próximas gerações, oferecendo referências para que possam pensar no futuro.

Para projetar o futuro, seja na vida pessoal ou nas empresas, é preciso conhecer o passado. As histórias se repetem e, infelizmente, os erros também. O livro aborda diversos aspectos dessa relação, incluindo a influência da inteligência artificial nos projetos. Por exemplo: existe um discurso politicamente alinhado de que a IA contribuirá para reduzir o número de pessoas a bordo e substituir atividades realizadas no mar.

Essa redução de pessoal se concretizou em outras etapas da evolução tecnológica?

No livro, fazemos um regaste histórico do que aconteceu na indústria ao longo dos anos. No início da década de 1990, surgiram as primeiras unidades com sistemas digitais no Brasil, enquanto essa transformação também começava a ocorrer em outras partes do mundo. Os computadores passaram a permitir a substituição dos sinais mecânicos de pressão por sinais elétricos, por exemplo.

A expectativa inicial era simplificar os processos e aumentar a eficiência na leitura dos dados de campo. Imaginava-se que, no futuro, seria possível reduzir o número de pessoas a bordo. Ao longo do tempo, porém, embora o perfil do trabalhador embarcado tenha mudado, também houve uma tendência de aumento do efetivo a bordo, por diversos outros motivos. O livro aborda essa questão em detalhes.

Inicialmente, o uso de IA pode demandar um acréscimo de demanda de atividades que hoje são executadas por pessoas que já trabalham a bordo das plataformas. Portanto, existe uma preocupação de que aconteça o mesmo que ocorreu no passado: estressar as unidades de produção por conta das novas demandas. Em síntese, a proposta da obra é relacionar o presente aos acontecimentos do passado, compreender as reações dos especialistas e abordar diferentes temas, sempre com uma perspectiva voltada também para o futuro.

Falando do mercado de maneira geral, quais são hoje os principais desafios do setor que dificultam a chegada de um projeto à decisão final de investimento?

A situação é desfavorável porque, de um lado, a cadeia de suprimentos enfrenta preços elevados em um mercado pressionado. Essa pressão decorre não apenas da demanda, mas também da concorrência com projetos de desenvolvimento mais simples. Um exemplo são os grandes data centers, que competem diretamente com os projetos de águas profundas.

Esses empreendimentos utilizam as mesmas máquinas de geração de energia empregadas nos grandes FPSOs. Ao mesmo tempo, quem desenvolve um projeto de upstream precisa realizar estudos de viabilidade, avaliar os investimentos e estimar os prazos de retorno, considerando diferentes cenários de rentabilidade futura e a imprevisibilidade natural do negócio.

Além das incertezas relacionadas ao reservatório, que são inerentes à atividade, existem as incertezas externas a ele, que também precisam ser consideradas na análise de viabilidade dos projetos.

Além dos data centers, que outros setores disputam os mesmos equipamentos?

A indústria da aviação também utiliza máquinas que concorrem com as demandadas pelo setor de petróleo e gás. Há ainda a disputa por chips, painéis elétricos e outros equipamentos. Trata-se de uma concorrência que envolve diversos segmentos. As grandes instalações de gás natural liquefeito (GNL), com pacotes de até US$ 20 bilhões, também fazem parte desse cenário de disputa por recursos e equipamentos.

Nesse contexto, a cadeia de suprimentos precisa apresentar propostas firmes às operadoras, considerando os preços atuais e as condições de um mercado pressionado. Do outro lado, as operadoras precisam avaliar seus projetos com base nesses custos atuais, mas considerando receitas futuras cujo valor ainda é desconhecido.

Falando agora sobre conteúdo local, como a cadeia brasileira de fornecedores pode ampliar sua participação e conquistar novos negócios no contexto atual?

Tenho propriedade para falar sobre conteúdo local porque, entre 2005 e 2006, saí do Brasil para os Estados Unidos para desenvolver o projeto do primeiro FPSO naquele país. Na época, ainda não havia um roteiro regulatório ou técnico definido, e existiam diferentes caminhos possíveis.

Uma das primeiras questões que tivemos de analisar foi a Jones Act, uma lei americana da década de 1920 que regulamenta a cabotagem entre portos dos Estados Unidos. Ela estabelece requisitos relacionados à empresa responsável pela embarcação, que deve ter capital americano, além de exigir aço, tripulação e bandeira americanos. Tivemos de encontrar uma maneira de desenvolver o projeto dentro do prazo e atender à legislação.

É natural que existam requisitos de conteúdo local. O que não pode acontecer é que eles impeçam a realização dos projetos.

O Brasil já é um dos mercados mais aquecidos em termos de atividade e tem capacidade para atender a muitas demandas. O desafio está em evitar a sobrecarga do mercado. O país tem condições de executar de ponta a ponta algumas atividades, como engenharia básica, engenharia de detalhamento e engenharia do sistema de suprimentos. O problema surge quando dez projetos chegam ao mesmo tempo.

Como evitar que essa concentração de projetos sobrecarregue a cadeia de fornecedores?

Essa não é uma responsabilidade das empresas operadoras, mas principalmente do governo, que não pode se isentar e deixar operadoras e fornecedores discutirem essas questões por conta própria.

Também trabalhei na Europa, onde há requisitos locais e uma atuação governamental na regulação da demanda, com o objetivo de evitar a sobrecarga do mercado.

A concentração da demanda em ondas gera dificuldades. Quando vários projetos básicos são iniciados simultaneamente, o mercado fica pressionado nessa etapa, e as empresas começam a se capacitar para atender às necessidades. Quando essa onda passa, a demanda migra para a engenharia de detalhamento, pressionando outro segmento. Enquanto isso, as empresas que se prepararam para a etapa anterior podem acabar sem trabalho.

Uma estratégia de longo prazo, capaz de estabilizar a demanda, oferece mais segurança aos investidores para entrar nesse mercado. Por isso, acredito que o governo não pode se isentar dessa responsabilidade nem deixar que uma operadora lidere esse processo.

Fonte: Petronotícias.
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