Por André Ramalho
PIPELINE. De gasodutos a terminais de GNL, investimentos em infraestruturas de gás para atender às térmicas do LRCAP começam a ganhar contornos.
Leilão do gás da União avança. Decisão sobre fracking adiada no STJ. TBG cobra conclusão de sua revisão tarifária. Comgás autorizada a vender biometano no mercado cativo e mais. Confira:
Seis meses após o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) contratar 15 GW de termelétricas a gás natural, os investimentos em infraestruturas de gás para atender à demanda do setor elétrico começam a ganhar contornos.
O caso mais recente é o da Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG), que apresentou à Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em agosto, um novo projeto para ampliar a capacidade do Gasbol de abastecer as térmicas vencedoras do LRCAP.
Mas não só. Do Sul ao Nordeste, há projetos para reforçar a malha de gasodutos para atender à demanda adicional das novas térmicas.
E na infraestrutura de importação de gás natural liquefeito (GNL), o mercado também se movimenta para colocar de pé novos terminais – e tem projeto à venda, de olho no aquecimento da demanda termelétrica.
A seguir, a gas week atualiza os novos projetos de infraestrutura de gás que miram a demanda das térmicas do LRCAP.
Em agosto, a TBG solicitou à ANP autorização para construção do Projeto Livre Alocação, um conjunto de reforços no trecho Sul do Gasbol que visa aumentar a flexibilidade e capacidade de envio do gás importado pelo TGS a São Paulo. Ao todo, a empresa estima investimentos de US$ 290 milhões.“É um projeto de adequação da nossa malha à nova realidade de fonte de suprimento”, disse o presidente da TGB, Jorge Hijjar, em entrevista ao podcast gas week, em referência à necessidade de adequar o Gasbol ao declínio do gás boliviano (no lado da oferta) e à contratação de térmicas no LRCAP (no lado da demanda). Assista na íntegra
As preocupações com o declínio do gás boliviano e seu impacto sobre o setor elétrico já vêm sendo, aliás, objeto de discussões no Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) desde o ano passado.O TGS tem capacidade de injeção de 15 milhões de m³/dia no Trecho Sul do Gasbol, mas a configuração atual do gasoduto possui restrições físicas ao escoamento do gás injetado em Garuva (SC), no sentido Norte, fazendo com que o gás do TGS fique “preso”, em grande medida, na região Sul.
O Projeto Livre Alocação inclui:
A TBG formaliza, assim, um projeto que já havia apresentado como alternativa ao governo durante a consulta pública do Plano Nacional Integrado das Infraestruturas de Gás Natural e Biometano (PNIIGB), no fim de 2025.A transportadora concluiu a engenharia conceitual do empreendimento – que está, neste momento, na fase de projeto básico, etapa que consolidará o posicionamento definitivo das instalações, os critérios de dimensionamento, o traçado e as características finais dos reforços de rede. A TBG prevê a entrada em operação do projeto em outubro de 2029, prazo compatível, segundo a companhia, com o atendimento das principais demandas contratadas no LRCAP.De fora do plano de investimentos apresentado originalmente pela companhia no processo de revisão tarifária em curso, o projeto, se aprovado pela ANP, deverá ser incluído na base de ativos em revisão tarifária extraordinária – como previsto na Resolução ANP 991/2026.
O impacto das térmicas do LRCAP sobre o planejamento da malha de gasodutos ainda está sendo digerido pelas transportadoras.Em entrevista ao podcast gas week, o presidente da Associação de Empresas de Transporte de Gás Natural por Gasoduto (ATGás), Rogério Manso, sinalizou que as transportadoras pretendem revisar, para 2027, o Plano Coordenado, para incorporar “a mudança importante” do aumento da demanda potencial do mercado brasileiro.
“A ideia é, uma vez que a gente feche esse ciclo com contratos, com compromissos firmes [de contratação de capacidade pelas térmicas], é revisar o Plano Coordenado e, quem sabe, entregar no próximo ano uma visão atualizada desse plano”, disse. Assista na íntegra.
O plano atual, preparado antes do LRCAP, já incorpora alguns dos projetos estruturantes para o atendimento da demanda adicional – do setor termelétrico, inclusive.É o caso do Projeto Veredas, da Transportadora Associada de Gás (TAG), que contempla loops e a expansão de Ecomps existentes para ampliação da capacidade de transporte de gás no Nordeste, para atendimento do incremento de demanda da região.Em julho, o Comitê Gestor do PAC incluiu o projeto no programa federal, a pedido do Ministério de Minas e Energia – que justificou que a expansão da malha é indispensável, justamente, para suprir as novas usinas do LRCAP.
Em nota, a TAG esclareceu que está conduzindo estudos para a preparação de sua rede de transporte para o abastecimento das novas termelétricas no Nordeste, vencedoras do LRCAP – o que inclui investimentos estimados em R$ 1,6 bilhão e com conclusão prevista para 2028. A transportadora citou que o Projeto Integrado de Expansão da Infraestrutura de Transporte de Gás Natural de Veredas, incluído no PAC, faz parte desse escopo; e acrescentou que os projetos estão em estudos e seguem os ritos regulatórios, bem como de governança interna da companhia para a aprovação dos investimentos.A malha da Nova Transportadora do Sudeste (NTS) também passa por investimentos de reforço, com a Ecomp Japeri – cuja importância para a segurança do abastecimento das térmicas tem sido reforçada pelo CMSE; e com a conexão do Terminal de Regaseificação de São Paulo (TRSP) à rede de transporte, aprovada em junho pela ANP.Um pedido da Edge, dona do TRSP, que mira oportunidades de negócios para suprimento às térmicas do LRCAP.
“[Com as térmicas contratadas no LRCAP] a gente está falando de uma demanda de 95 milhões de m³/dia de gás flexível. O GNL tem vocação no mundo inteiro para isso [flexibilidade no suprimento]… O TRSP está pronto, muito em breve conectado à rede. Então a gente vê ele com um papel muito importante, tem boas conversas acontecendo”, afirmou o CEO da Edge, Demétrio Magalhães, ao podcast gas week. Assista na íntegra
O aumento esperado na demanda por gás do setor termelétrico terá impacto não só sobre a malha de gasodutos, mas também sobre as infraestruturas de importação de gás.E o mercado se movimenta, para colocar de pé novos terminais de GNL na costa brasileira.De acordo com informações da CNN, confirmadas pela eixos, a OnCorp colocou à venda o seu projeto no Porto de Suape (PE), previsto para 2028.O grupo J&F é apontado, no mercado, como um dos interessados no ativo. A companhia tem negado publicamente que esteja em negociações com a OnCorp e também sinaliza a intenção de instalar um novo terminal de regaseificação em Suape (PE) para 2028.Ao mesmo tempo, a J&F se prepara para operar, em 2027, o Terminal Gás Sul (TGS), arrendado junto à New Fortress em Santa Catarina.
A J&F, uma das protagonistas do leilão de reserva de capacidade, tem como meta aumentar de 12 milhões de m³/dia para 30 milhões de m³/dia em 2030 o volume movimentado pela MGás, seu braço de comercialização de gás e está montando seu portfólio de suprimento. O crescimento será sustentado pelos clientes industriais da empresa e pelas térmicas do grupo, vencedoras do LRCAP – uma carteira que pode crescer, aliás, se confirmada a entrada da J&F como sócia nos projetos negociados pelos consórcios ION (EPP), inabilitados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O recurso das partes ainda está pendente.
A Eneva, principal vencedora do LRCAP, aliás, já iniciou as obras para instalação do novo terminal de GNL do Pecém (CE), previstas para serem concluídas em 2028. A empresa também planeja uma planta de regaseificação no Sudeste, mas para começar a operar em 2031.
Leilão do gás da União. Depois de anos de negociações, o certame, previsto para outubro, ganhou contornos importantes esta semana:
Decisão sobre fracking adiada. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) adiou na quarta (9/9) a decisão sobre o uso do fraturamento hidráulico para a exploração e produção de petróleo e gás natural não convencionais no Brasil. Relator do caso, o ministro José Afrânio Vilela pediu vista do próprio processo.
Revisão tarifária. A taxa de retorno das transportadoras, definida pela ANP, não reflete adequadamente os riscos e as incertezas que caracterizam o setor, na visão da ATGás.Tarifas do Gasbol. A TBG pede que a ANP conclua logo a revisão tarifária da companhia, atrasada há dois anos, mesmo que não seja possível chegar a uma solução definitiva para a integração das tarifas com as demais transportadoras. Em entrevista ao podcast gas week, o presidente da TBG, Jorge Hijjar, afirmou que o atraso tem impactado diretamente no fluxo de caixa da transportadora. Assista na íntegra
Biometano em São Paulo. A Comgás recebeu autorização da Arsesp para começar a vender biometano diretamente aos seus clientes no mercado cativo. A nova modalidade, chamada Mercado Cativo Verde, atende segmentos industrial, refrigeração, cogeração e mobilidade.
Gás argentino. A Tesla Comercializadora de Gás se prepara para entrar no mercado livre, com gás natural importado. A trader recebeu autorização da ANP para trazer até 5 milhões de m3/dia da Argentina e da Bolívia.