Por Ferraz Jr
O avanço da inteligência artificial trouxe para o centro do debate energético os data centers, infraestruturas que frequentemente são rotuladas apenas como consumidoras vorazes e constantes de eletricidade. No entanto, a expansão da matriz renovável brasileira impõe um desafio que exige uma mudança nessa perspectiva: a necessidade de flexibilidade para lidar com o curtailment, que é o desligamento forçado de usinas eólicas e solares pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) devido ao excesso de oferta em momentos de baixa demanda. Este é o assunto da Série Energia de hoje.

Fernando de Lima Caneppele – Foto: Arquivo pessoal
O professor Fernando de Lima Caneppele, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP em Pirassununga (SP), acredita que, neste cenário, os data centers podem deixar de ser uma carga passiva para se tornarem aliados estratégicos da rede. “Como essas estruturas operam ininterruptamente, elas possuem o que chamamos de âncora de consumo. Ao serem instalados de forma planejada, próximos a grandes centros de geração ou em pontos da rede com sobra de energia, eles transformam o que seria desperdício de geração limpa em processamento de dados”, explica. Ele defende que, dessa forma, o Brasil teria a oportunidade de deixar de ser apenas um exportador de eletricidade para se tornar um exportador de processamento verde, aproveitando a energia que hoje é perdida por falta de demanda imediata.
Caneppele diz que a grande mudança tecnológica ocorre na capacidade desses centros de atuar na gestão pelo lado da demanda. “Por meio de algoritmos de inteligência artificial, é possível deslocar cargas de processamento que não exigem resposta em tempo real para os horários de pico de geração solar e eólica. Em vez de pressionar o sistema, o data center reage à oferta: ele aumenta o consumo quando há excedente na rede e reduz sua pressão nos horários em que a demanda nacional atinge o pico e a geração renovável oscila”, afirma. Para ele, o desafio da engenharia brasileira é integrar o mundo dos bits com o mundo dos watts de forma pragmática, garantindo que o potencial renovável do País seja integralmente aproveitado para sustentar a nova economia digital.
A Série Energia tem apresentação do professor Fernando de Lima Caneppele e coprodução com o jornalista Ferraz Junior, da Rádio USP de Ribeirão Preto. Você pode sintonizar a emissora em FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular para Android e iOS.