O debate econômico brasileiro continua preso a uma visão que o mundo já superou. Quando se fala em política industrial, ainda se pensa em setores, fábricas e subsídios específicos. Mas a economia contemporânea já não se organiza mais assim.
A competitividade não nasce dentro da planta industrial, ela emerge do ecossistema produtivo que a sustenta: energia, logística, serviços especializados, tecnologia, financiamento, dados, infraestrutura e mercados. O valor econômico migrou da fábrica para a cadeia de valor. E muitos no Brasil ainda não perceberam isso.
Essa defasagem ajuda a explicar uma das características mais persistentes da economia brasileira: crescimento modesto e produtividade baixa. O problema não é apenas crescer pouco. É produzir dentro de um sistema econômico caro, fragmentado e desarticulado, em que custos sistêmicos elevados, serviços pouco sofisticados e infraestrutura deficiente corroem a competitividade antes mesmo que o produto chegue ao mercado.
A competitividade não nasce dentro da planta industrial, ela emerge do ecossistema produtivo que a sustenta
A raiz dessa confusão é, ao menos parcialmente, conceitual. Durante décadas, desenvolvimento foi associado à capacidade de instalar fábricas, visão que fazia sentido numa economia organizada em torno da produção em massa. Hoje, um automóvel depende tanto de software, IA, design e conectividade quanto de aço e componentes físicos.
Em muitos casos, o valor está menos no objeto e mais na inteligência que organiza a sua produção, operação e integração aos mercados. A velha fronteira entre indústria e serviços tornou-se não apenas imprecisa, mas analiticamente enganosa.
Serviços respondem por cerca de 73% do PIB brasileiro e por três quartos do emprego formal. Mas o que importa mesmo não é o seu tamanho, é a sua função. Os serviços se converteram em determinantes críticos dos custos, da inovação e da viabilidade econômica dos investimentos. Deixaram de ser setor complementar para ocupar posição estratégica na arquitetura produtiva.
Evidência empírica recente confirma essa transformação. Levantamento com duas mil empresas industriais brasileiras revela que as firmas maiores, mais tecnológicas e exportadoras são as que mais demandam serviços sofisticados: logística avançada, engenharia, P&D, IA, consultorias especializadas e outros. À medida que sobem na escala tecnológica, esses insumos deixam de ser somente custos operacionais e passam também a funcionar como instrumentos centrais de diferenciação.
Uma indústria internamente eficiente pode perder competitividade porque o transporte é caro, o crédito é escasso ou os serviços especializados simplesmente não existem na qualidade e escala necessárias. A produtividade que importa é cada vez mais a produtividade da cadeia.
Esse diagnóstico adquire dimensão ainda maior diante das transformações estruturais em curso. A reorganização das cadeias globais de valor, as tensões geopolíticas e, sobretudo, a transição energética estão redefinindo os critérios de localização produtiva de maneira que vai muito além da conjuntura.
A economia global foi construída nos últimos 100 anos sob a premissa de que energia fóssil podia ser transportada eficientemente por longas distâncias. Mas essa premissa está sendo solapada.
Na economia verde, os termos de troca mudam radicalmente. Elétrons não cruzam oceanos em navios. Hidrogênio e amônia enfrentam perdas de eficiência significativas, custos logísticos proibitivos e desafios tecnológicos ainda não resolvidos.
O incentivo econômico se inverte: em lugar de levar energia aos centros industriais, passa a fazer sentido deslocar partes das cadeias produtivas para onde há abundância de energias renováveis, água, terras, minerais críticos e outros recursos naturais. É nesse contexto que o powershoring — a reorganização das cadeias globais de valor em torno da energia limpa e do capital natural — emerge não como tendência marginal, mas como novo eixo estruturante da geografia econômica global.
O Brasil ocupa posição rara nesse cenário. Afinal, poucos países reúnem, simultaneamente, potencial renovável de classe mundial, base industrial relevante, biodiversidade singular e reservas de minerais críticos. Mas ativos naturais, por si sós, não geram desenvolvimento.
Recursos sem cadeias de valor sofisticadas produzem renda, não dinamismo. O verdadeiro desafio é industrializar as vantagens comparativas e transformar capital natural e energia limpa em plataformas produtivas complexas, capazes de atrair investimento, gerar tecnologia e inovação e criar emprego qualificado.
Isso exige uma mudança de perspectiva na política econômica: sair da lógica de intervenções setoriais fragmentadas e migrar para políticas voltadas a cadeias de valor: reduzir custos sistêmicos, sofisticar serviços, integrar infraestruturas, ampliar a digitalização, desenvolver capital humano e melhorar a coordenação regulatória.
A justificativa é que os maiores gargalos brasileiros são horizontais: serviços caros afetam toda a estrutura produtiva; crédito caro encarece todas as cadeias; infraestrutura deficiente penaliza todos os setores; instituições e regulações frágeis debilitam a confiança. Respostas fragmentadas a problemas sistêmicos produzem, inevitavelmente, resultados fragmentados.
Tal como a indústria, o agronegócio e a mineração também estão se transformando em plataformas intensivas em tecnologia, logística e IA, e a qualidade do ecossistema ao seu redor é cada vez mais determinante do sucesso ou do fracasso.
Tudo isto não significa prescindir de intervenções dirigidas. Há situações em que a política deve ser precisa e seletiva, incluindo onde retornos sociais são elevados, falhas de mercado são estruturais e o país dispõe de vantagem comparativa real ou emergente.
A economia verde é exemplo evidente: investimentos em hidrogênio limpo, bioeconomia, combustíveis, aço e alumínio de baixo carbono reúnem essas condições e merecem atenção específica do Estado. A questão não é, portanto, o jogo binário de se o Estado deve ou não intervir, mas onde, como e com qual racionalidade econômica. Num contexto fiscal tão apertado como o que temos, a seletividade é ainda mais necessária.
O futuro da competitividade brasileira não será decidido apenas dentro das fábricas ou das fazendas. Será construído na capacidade de erigir cadeias de valor eficientes e integradas. O verdadeiro risco do Brasil não é falta de potencial — é continuar respondendo às perguntas do século XXI com as ferramentas conceituais do século XX.
Jorge Arbache é professor da Universidade de Brasília e da Fundação Dom Cabral e senior fellow do Instituto Clima e Sociedade (iCS).