Por Carla Teles
O estaleiro baiano renasce em um lugar onde, por anos, a paisagem industrial parecia congelada: galpões enormes, docas profundas, equipamentos instalados, mas pouca ou nenhuma atividade. Agora, a rotina mudou com reabertura de setores, retorno de equipes e um fluxo constante de visitas técnicas e frentes de trabalho na região.
O movimento gira em torno do complexo conhecido como Enceada, em Maragojipe, no Recôncavo Baiano, que havia ficado à margem da indústria naval por anos.
A retomada reacende expectativas na Bahia e no país, porque não envolve apenas um canteiro reaberto, mas a recuperação de capacidade produtiva que o Brasil perdeu ao longo da última década.
Por muito tempo, quem passava pelo Recôncavo via a mesma cena: um projeto grandioso que parecia ter sido interrompido no meio do caminho. Galpões gigantes e estruturas prontas, mas paradas, alimentavam a impressão de que a promessa de um polo naval tinha ficado no passado.
Nos últimos meses, esse quadro começou a mudar. Setores foram reabertos, equipes retornaram e a presença de negociações e avaliações técnicas passou a marcar a rotina. É nesse contexto que o estaleiro baiano renasce como pauta central para a economia local e para a indústria naval brasileira.
Para entender por que o estaleiro baiano renasce agora, é preciso voltar ao início do projeto. No começo da década de 2010, o Brasil vivia um ciclo de expansão na indústria naval, impulsionado pela demanda ligada ao pré-sal, com necessidade de plataformas, embarcações e módulos de grande porte.
Foi nesse ambiente que o estaleiro em Maragojipe foi concebido para operar em grande escala, com docas, pátios, galpões e linhas de produção voltadas a grandes encomendas.
A meta era transformar a economia regional e posicionar o Brasil entre os grandes do setor, com geração de empregos e fortalecimento da cadeia do petróleo e do gás no Nordeste.
O cenário promissor mudou rapidamente. A queda do preço internacional do petróleo reduziu o ritmo de investimentos, e as investigações da Operação Lava-Jato impactaram contratos ligados à cadeia naval brasileira, paralisando projetos e interrompendo obras.
Com menos contratos para sustentar a operação, o complexo passou por redução contínua e desativação de setores. A infraestrutura montada para funcionar em larga escala ficou subutilizada, e a região sentiu o impacto com diminuição da atividade econômica depois do auge das obras.
A retomada ganhou força quando Petrobras e Transpetro voltaram a demandar serviços e estruturas compatíveis com manutenção e modernização de embarcações. Nesse cenário, o Enceada reapareceu como alternativa com potencial, e o estaleiro baiano renasce amparado por contratos firmados entre 2023 e 2024.
Houve visitas técnicas, avaliações detalhadas e inspeções que confirmaram a condição estratégica da infraestrutura, mesmo após longo período de baixa operação. A partir daí, negociações avançaram e contratos iniciais deram início a uma nova fase, ainda gradual, mas com efeitos visíveis no território.
A reativação não significa retorno automático ao porte máximo planejado originalmente. O que aparece, por enquanto, é um processo de reconstrução com cautela: reorganização administrativa, atualização de protocolos de segurança e retomada de setores essenciais para cumprir os contratos.
Ao mesmo tempo, o complexo passa a avaliar ampliação da carteira de serviços e diversificação dentro do segmento naval e offshore.
Cada avanço confirma que a estrutura segue funcional, competitiva e pronta para demandas industriais relevantes, ponto-chave para sustentar o argumento de que o estaleiro baiano renasce com base operacional real, e não apenas expectativa.
O complexo foi projetado para grande escala, com docas profundas, pátios amplos e galpões capazes de receber estruturas volumosas. Mesmo após anos com baixa atividade, parte relevante dessa infraestrutura permaneceu preservada, o que facilita a retomada.
A localização também é tratada como diferencial: proximidade com a Baía de Todos os Santos e acesso por canal profundo, permitindo transporte de módulos e embarcações com mais eficiência.
Isso reduz custos logísticos e aumenta competitividade, especialmente em operações ligadas ao petróleo e ao gás, reforçando a narrativa de que o estaleiro baiano renasce por combinar capacidade instalada e posicionamento estratégico.
O ritmo de recuperação depende diretamente da continuidade de contratos e do apetite do setor por novas encomendas. A janela aberta por Petrobras e Transpetro pode acelerar a operação, mas o próprio movimento é descrito como gradual: retoma, testa capacidade, entrega e busca ampliar.
As projeções são cautelosas, mas positivas dentro desse desenho. Se houver continuidade de investimentos e expansão de demandas, há espaço para modernização progressiva e crescimento do volume de atividades, com impacto direto na manutenção de empregos qualificados e na preservação de conhecimento técnico acumulado no país.