Por Marcelo Rezende*
Por muitas décadas, os sistemas de baterias foram vistos como um dos principais limitadores da mobilidade elétrica. Nos últimos anos, porém, esses componentes passaram por uma evolução significativa e se tornaram o principal catalisador da eletrificação das frotas.
Isso vem garantindo avanços contínuos em autonomia, segurança e sustentabilidade ao longo do ciclo de vida dos veículos. Essa transformação é resultado de uma série de avanços tecnológicos notáveis.
O primeiro deles se refere às químicas das baterias com a transição de tecnologias como chumbo-ácido para íons de lítio, e, mais recentemente, para as LFP (lítio-ferro-fosfato) e NMC (níquel-manganês-cobalto).
Essas mudanças proporcionaram ganhos expressivos em densidade energética, vida útil e segurança térmica, além de permitir maior autonomia e confiabilidade para aplicações veiculares.
Outro passo importante foi a integração e gestão inteligente com o desenvolvimento de sistemas de gerenciamento de baterias (BMS) mais sofisticados. Eles possibilitam o monitoramento em tempo real de parâmetros críticos das baterias, como temperatura, tensão e estado de carga.
Isso garante não apenas a segurança operacional, mas também a otimização do desempenho e da durabilidade dos packs.
Um avanço significativo está diretamente ligado à eficiência dos sistemas de recarga. Graças à melhoria contínua na capacidade de admissão de energia pelas baterias — cada vez mais rápida e sem comprometer sua vida útil — somada ao desenvolvimento da infraestrutura, tornou-se possível abastecer veículos eletrificados de forma ágil.
A expansão das redes de recarga, a implementação de carregadores de alta tensão e a padronização de conectores e protocolos de comunicação permitem que isso ocorra de forma segura, tanto em áreas urbanas quanto em rodovias.
Além disso, tecnologias como o carregamento bidirecional (V2G) e a recarga ultrarrápida vêm ampliando ainda mais a viabilidade operacional das frotas, oferecendo maior flexibilidade e integração com sistemas energéticos inteligentes.
Outro fator crucial é a expressiva queda no custo por quilowatt-hora (kWh) das baterias automotivas. Estudos do Departamento de Energia dos Estados Unidos mostram que o valor médio caiu mais de 80% nos últimos 15 anos. Essa redução foi impulsionada pela evolução tecnológica, ganhos de escala e maior eficiência na cadeia de suprimentos.
Apesar dos avanços, persistem diversos desafios e a desinformação é um dos mais relevantes. Mitos e informações incorretas sobre a segurança e a confiabilidade dos veículos elétricos ainda prejudicam sua aceitação entre os consumidores.
Um exemplo comum é a ideia de que as baterias dos veículos elétricos são altamente inflamáveis e propensas a incêndios. Na realidade, os modelos modernos passam por rigorosos testes de segurança.
Além disso, o BMS, a proteção térmica e os protocolos de desligamento automático reduzem drasticamente o risco de falhas catastróficas. Estudos também mostram que a taxa de incêndios em veículos elétricos é igual ou até inferior à de veículos a combustão.
Outro ponto de desinformação está relacionado à confiabilidade, especialmente em aspectos como autonomia, durabilidade e manutenção. Há uma crença de que as baterias se degradam rapidamente ou que os veículos elétricos não são adequados para o uso diário.
Na prática, a maioria dos fabricantes oferece garantias de oito a dez anos para os packs de baterias, e a degradação média anual varia entre 1% e 2,5%, dependendo da química e do uso.
Além disso, os veículos elétricos possuem menos peças móveis e, consequentemente, exigem menos manutenção preventiva em comparação aos modelos a combustão.
Há também desafios técnicos, que devem ser gradualmente superados nos próximos cinco a dez anos. Eles serão impulsionados por inovações como baterias de estado sólido, recarga ultrarrápida, maior densidade energética e integração com redes inteligentes (smart grids).
Contudo, políticas públicas eficazes e incentivos à inovação serão essenciais para garantir uma transição energética plena e inclusiva.
Em relação aos desafios culturais e à desinformação, é provável que sejam superados à medida que a tecnologia se torne mais presente e acessível, representando um avanço importante para toda a sociedade.
*Marcelo Ramos Rezende é Diretor Geral de Sistemas de Baterias da BorgWarner no Brasil, sendo responsável pelos negócios da área na América do Sul.