Por Leo Garfinkel
O Brasil corre risco de ficar sem potência suficiente para atender à demanda de energia elétrica em momentos considerados críticos a partir de 2027, segundo projeções do PEN (Plano da Operação Energética 2026-2030), elaborado pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).
Para assegurar o abastecimento, o Operador recomenda a realização de leilões anuais de capacidade, usados pelo governo para dar segurança à rede elétrica e estabilidade do fornecimento imediato de energia a qualquer momento.
Segundo o ONS, o LRCap (Leilão de Reserva de Capacidade) de 2026, que terminou com contratações de quase 20 GW por R$ 515 bilhões, não será suficiente para suprir a demanda do país em cenários de alto consumo. O leilão contratou 100 empreendimentos, principalmente termelétricas, que podem ser acionadas a qualquer momento, independentemente das condições climáticas ou horário.
O documento divulgado pelo ONS na 6ª feira (10.jul.2026) analisa a capacidade do SIN (Sistema Interligado Nacional) de fornecer energia e potência suficientes para suprir a demanda de energia a partir de critérios definidos pelo CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) e pelo MME (Ministério de Minas e Energia). Leia a íntegra do plano (PDF – 5 MB).
Segundo o PEN, o atendimento energético estará assegurado conforme os parâmetros estabelecidos, mas alerta que a oferta de potência, necessária para atender picos de consumo, ainda é insuficiente, mesmo com as contratações do LRCap realizado em março.
Ao avaliar o cenário para 2027, o Operador identificou riscos tanto para o suprimento de energia quanto para a oferta de potência, que deve ficar abaixo do limite estabelecido na regulação. A mesma situação persistirá até 2030.
Segundo o ONS, o risco de desabastecimento cresce principalmente nos momentos considerados críticos, quando há demanda máxima simultânea a um desempenho muito baixo da geração eólica e solar. Esse cenário costuma ocorrer no fim da tarde e início da noite, quando cresce o consumo de energia e as usinas renováveis que dependem de sol ou vento deixam de produzir.
“Sob o aspecto do atendimento de potência, atenção para o esgotamento do limite de intercâmbio em momentos críticos, no limite, podendo levar ao não atendimento de ponta caso haja uma combinação de demanda muito elevada e baixa geração eólica”, afirma o PEN.
Embora avalie que os leilões realizados em março de 2026 tenham ajudado a reduzir o risco em comparação ao plano anterior (PEN 2025), o ONS entende que a oferta contratada ainda é insuficiente para atender plenamente aos critérios regulatórios a partir de 2027.
O Operador alerta também para riscos relacionados à retirada ou atraso das operações de usinas termelétricas no LRCap 2026. O leilão é alvo de processos na Justiça Federal e no TCU (Tribunal de Contas da União) que questionam procedimentos usados pelo governo e pedem a derrubada integral dos resultados, o que anularia as contratações.
Segundo o ONS, a retirada das usinas vendedoras no LRCap de 2026 resultaria em violações imediatas de suprimento de energia em todos os subsistemas do país a partir de 2028.
Em um cenário de atraso na entrada em operação das usinas contratadas, os riscos de deficit de potência são menores, mas ainda assim haveria redução de oferta de 3,6 GW em outubro de 2028 e de 1,9 GW a partir de agosto de 2029.
A projeção considera uma distribuição de atrasos baseada em uma análise histórica de leilões dos últimos 15 anos para usinas termelétricas, nos quais 10% dos empreendimentos entram em operação na data prevista, 15% não entram em operação (casos de inviabilização ou paralisação) e 75% apresentam atrasos de 3 meses a 2 anos.