Por Bruna Oliveira
Reconhecida entre as atividades produtivas que mais movimentam mão de obra no Brasil, a construção civil também lida com a falta dela em seus canteiros. O paradoxo está em números: segundo dado apresentado pelo Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), oito em cada 10 construtoras relatam falta de gente para trabalhar. Para o setor, o momento traça um panorama do mercado de trabalho, muito mais adepto, hoje, às jornadas flexíveis.
Historicamente, a construção civil é um dos setores que mais emprega no país. No Rio Grande do Sul, são mais de 140 mil empregos diretos e mais de 500 mil se considerados os indiretos. Mas a percepção geral é de que os canteiros estão envelhecendo. A média de idade do trabalhador empregado na construção é de 44 anos, e sem perspectivas de renovação.
— Os jovens não estão mais entrando na construção civil. Eles enxergam a atividade como um trabalho pesado, com poucas perspectivas de crescimento profissional e distante da inovação. Mas essa percepção não corresponde à realidade. A construção civil mudou. Os canteiros de obras estão mais organizados, seguros e tecnológicos — contrapõe o presidente do Sinduscon-RS, Rafael Garcia.
De acordo com as entidades do ramo, o setor oferece crescimento profissional e remuneração atrativa. Hoje, entre os setores produtivos, a construção civil tem o maior salário médio de admissão do país, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mencionados pelo Sinduscon.
Um piso mínimo regulamenta a atividade. A média de salário varia de R$ 3 mil a R$ 4 mil. Mas a urgência e a necessidade fazem com que as empresas paguem mais do que isso. Os postos de pedreiro, pintor, instalador e carpinteiro estão entre os mais difíceis de se preencher, e, justamente por isso, remuneram bem.
Entre os trabalhadores, a baixa atratividade é atribuída à escassez de oportunidades para qualificação. Ou seja, para permanecer na atividade, é preciso a contrapartida do estudo, dizem. Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Porto Alegre (STICC), Gelson Santana, a atração se dá por políticas públicas. O dirigente acredita que, para ter de volta esses trabalhadores, é preciso incentivo que envolva esforços de empresários, sindicatos e federações.
— A construção civil é um ramo de muita oportunidade. O trabalhador pode começar como servente e, se quiser, pode terminar como engenheiro. Mas ele precisa ter essa oportunidade — observa Santana, acrescentando que o trabalhador sempre vai escolher pelo ofício que lhe der as melhores condições, seja de salário, seja de oportunidade de estudo.
Para o presidente do Sinduscon, é preciso atacar o problema da falta de mão de obra em duas frentes. Primeiro, reconquistando “o orgulho de construir”. O ramo da construção, por exemplo, foi primordial na reconstrução do Rio Grande do Sul pós enchentes históricas, reforçando o papel indispensável desses trabalhadores. E, segundo, agindo na retenção e na qualificação desses profissionais:
— Ao longo do seu desenvolvimento profissional, o trabalhador precisa ter cursos de capacitação, almejando ganhar cargos e posições superiores — exemplifica Garcia.
Diretor de engenharia da construtora Pavei, Rafael Pavei conta que uma das formas de manter os funcionários ativos na empresa foi optando pelo quadro próprio de colaboradores, em vez dos terceirizados. Assim, a companhia consegue estar mais próxima do funcionário, acompanhando o seu desenvolvimento profissional.
— Foi uma estratégia da empresa e estamos sentindo resultado, ainda que pontualmente. O nosso DNA sempre foi esse, mas não resolve o todo — diz Pavei.