O Sertão vai virar bioenergia

O Sertão vai virar bioenergia
9 de março de 2026

Cultivo do agave em larga escala para produção de biocombustível deverá provocarrevolução socioambiental no Semiárido Brasileiro

O PROGRAMA BRAVET

Todo este potencial bioeconômico e ambiental chamou a atenção de empresas e institutos de pesquisa. Poucos anos depois do início dos estudos com o agave na Unicamp o professor Gonçalo Pereira foi procurado por representantes da Shell. A empresa enxergou no desenvolvimento do agave no Brasil um destino promissor para parte de seus investimentos obrigatórios em novas tecnologias e biocombustíveis– a legislação brasileira ordena que concessionárias de petróleo e gás apliquem de 0,5% a 1% da receita bruta em pesquisa e desenvolvimento.

Com o patrocínio da Shell, que destina investimento de R$ 100 milhões no projeto, os horizontes foram ampliados, encampando o objetivo de estruturar toda uma nova cadeia agroindustrial do agave, desde o desenvolvimento de espécies mais produtivas até a mecanização da colheita agrícola e a industrialização de biorrefinarias.

Assim nasceu o Programa Brave, oficialmente traduzido pela sigla Brazilian Agave Development – que também serve para identificar a bravura da planta que sobrevive ao clima árido com pouca água e imensa produtividade energética.

“O agave é uma planta conservadora, demora de três a cinco anos para chegar à idade produtiva, porque evoluiu em ambiente hostil, esperando a hora certa de crescer para evitar a morte por falta de água”, conta o professor.

“O que estamos fazendo é trabalhar com indutores decrescimento, para dizer à planta que ela pode confiar, que o ambiente será protegido, para destravar seu metabolismo acelerar o ciclo.”

A pesquisa biológica, o pilar Brave – Bio do programa, segue sob liderança do professor Gonçalo Pereira no LGE da Unicamp, que também trouxe para o projeto a colaboração de parceiros acadêmicos: a Esalq/USP para estudos de solos, a Unesp para técnicas de tratamento de biomassa, e a UFRB, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, como unidade de apoio próxima ao Semiárido.

As primeiras quarenta mudas de agave tequilera, importadas do México, chegaram à Unicamp em janeiro de 2022, dando início a experiências com cruzamentos processos de melhoramento genético.

“Quando começamos não sabíamos sequer o desempenho destas plantas no Brasil. Hoje já caracterizamos as espécies, definimos qual será usada na industrialização e desenvolvemos protocolos de cultura”, conta o professor.

“Um grande avanço foi desenvolver, em tempo recorde, uma variedade transgênica resistente ao glifosato [herbicida usado para eliminar ervas daninhas e aumentar a produtividade das plantações].”

Para estruturar toda a nova cadeia produtiva o Senai Cimatec da Bahia foi associado ao Programa Brave, com injeção de mais R$ 20 milhões da Embrapii, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial. A instituição é responsável pelo pilar Brave-Mec, que desenvolve a mecanização da colheita do agave, e Brave-Ind, que envolve o projeto industrialização para produção de etanol, biometano e biochar. A primeira biorrefinaria piloto deve entrar em operação até meados de 2026, servindo de exemplo para as futuras usinas de agave.

“Eles estão desenvolvendo a primeira colheita mecanizada de agave no mundo”, destaca Pereira. “Até no México eles colhem as folhas manualmente, mas lá é para produzir tequila a US$ 100 o litro. Aqui, com o objetivo de produzir bioetanol por R$ 2,50 o litro o processo não aceita ineficiências.”

A Casa dos Ventos, uma das maiores geradoras de energia eólica e solar do País, com diversas usinas instaladas no Nordeste, entrou no Programa Brave como parceiro de campo, cedendo uma área em Jacobina, Sertão da Bahia, para abrigaras primeiras plantações experimentais. A empresa tem interesse estratégico nesta iniciativa com projeto para plantar 10 mil hectares de agave para mesclar a produção de biocombustíveis com sua geração de energia limpa.

As biorrefinarias de etanol e biometano precisarão de energia externa para funcionar – porque o agave não produz tanto bagaço quanto a cana para alimentar sua própria geração termoelétrica – e melhor ainda se for de fonte renovável, pois eleva ainda mais os ganhos ambientais do programa.

REVOLUÇÃO BIOECONÔMICA

O professor Gonçalo está convicto de que, no horizonte de dez anos à frente, o Programa Brave terá engatilhado no Sertão nordestino a maior revolução bioeconômica que se tem conhecimento no mundo.

Ele observa que as plantações de agave poderão ser combinadas com outras para aumentar ainda mais a produção de biocombustíveis, como a macaúba – palmeira que oferece a maior produtividade de óleo, três a quatro vezes mais do que a soja, que pode ser utilizado para produção de biodiesel, HVO, óleo vegetal hidrogenado que substitui diesel fóssil sem necessidade de adaptação do motor, ou bioquerosene de aviação, conhecida como SAF, combustível sustentável de aviação.

“A macaúba está se adaptando bem ao Sertão mas talvez não produza tanto porque é originária do Cerrado”, pondera Pereira. “Mas também pode se cultivar junto com o agave o licuri, uma palmeira típica do Semiárido que mesmo nas secas mais extremas é a última a morrer. Cada hectare de licuri pode produzir 1,5 mil litros de óleo, três vezes mais do que os 500 litros da soja.”

Na visão arguta de um conselheiro científico semeador de bioenergia Gonçalo Pereira vislumbra uma transformação socioeconômica completa em um território dominado pela pobreza extrema:

“Primeiro: as plantações de agave e o uso do biochar, carvão vegetal que aplicamos no solo, regeneram a terra, retêm água e criam condições para o plantio de comida onde antes era impossível. Estamos convertendo solo infértil em fértil. Mas não adianta produzir comida se as pessoas não têm dinheiro para comprar. E o projeto também cria este caminho econômico de prosperidade com geração de emprego e renda por meio do cultivo da bioenergia, dando ao sertanejo a condição de comprar o alimento que agora também pode ser produzido ali. É um ciclo virtuoso completo”.

Texto na íntegra: https://www.autodata.com.br/revistas/?revista=380&visualizacao=flipbook#page=70

Fonte: Revista Autodata.
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