Por Nelson de Sá
O economista Justin Yifu Lin, um dos principais consultores do governo chinês, apresentou em Pequim as “novas oportunidades” para o mundo com o recém-anunciado 15º Plano Quinquenal do país.
Encerrado o pronunciamento, o UOL perguntou quais serão as oportunidades para o Brasil num momento em que a América Latina está sob pressão dos Estados Unidos para reduzir relações com a China.
Ex-economista-chefe do Banco Mundial, professor e gestor na Universidade de Pequim, Lin respondeu em inglês, possivelmente para ampliar o alcance da mensagem, que estendeu para toda a região. Sublinhou que China e América Latina são economias complementares.
“O crescimento da China gerou a maior demanda de mercado dos países da América Latina. Portanto, manter boas relações será importante para que se beneficiem do crescimento dinâmico da China”, afirmou.
“Mas a condição para que o mercado da China se mantenha aberto, a única condição, é que vocês não se engajem numa guerra comercial com a China.”
Brasil, México, Argentina e outros vêm sendo cobrados publicamente pelo governo americano para se afastarem economicamente da China.
Alguns cederam, como o Panamá, que deixou a Iniciativa Cinturão e Rota e cassou a concessão de dois portos —e já enfrenta a resposta chinesa, com o abandono do uso dos portos e também de seus navios pela maior potência comercial do planeta.
“Compreendo que possa haver alguma pressão por parte dos seus vizinhos [EUA] quanto às relações com a China, mas as relações comerciais são vantajosas para ambos os lados”, prosseguiu Lin.
“E as economias menores ganham mais que as maiores. Isso significa que o crescimento dinâmico da China, como uma grande economia, será ótima notícia para os países da América Latina, desde que sigamos as regras da OMC [Organização Mundial do Comércio] e tomemos o benefício mútuo como base das nossas interações.”
Há uma visão entre exportadores brasileiros, que este jornalista ouviu em Pequim da sojicultora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina, de que o Brasil pode ser dependente da China, mas esta também é dependente do Brasil.
As ações relativas ao Panamá mostram que a China tem alternativas e não teme mais recorrer a elas. No caso da soja brasileira, por exemplo, voltou a negociar com os próprios EUA.
No caso do minério de ferro, investiu numa grande mina na África, que já está produzindo, e passou a jogar duro com as mineradoras da Austrália e do Brasil.
O alerta de Lin vem no rastro da tentativa do governo americano de reagir à crescente participação chinesa no Porto de Santos, o maior do Hemisfério Sul.
Em entrevista ao jornal A Tribuna, no início de março, o cônsul americano em São Paulo, Kevin Murakami, declarou: “Nossa preocupação é um leilão que dá vantagem a empresas chinesas que podem pôr em risco a soberania do Brasil sobre o maior porto da América Latina“.O argumento é semelhante ao usado em relação aos portos do Panamá e do Peru, entre outros.
Após obter o controle sobre o petróleo venezuelano, cujo maior cliente é a China, os EUA estão agora voltados à infraestrutura latino-americana, no esforço de afastar investimentos chineses.
Além dos portos, outro alvo é o cabo submarino que ligaria Valparaíso a Hong Kong, já adiado pelo novo governo chileno.