O Nordeste não está perdendo só parques renováveis. Está perdendo o futuro industrial da transição energética

O Nordeste não está perdendo só parques renováveis. Está perdendo o futuro industrial da transição energética
24 de abril de 2026

Atraso em soluções e falta de horizonte claro para compensação de cortes de geração contaminam toda a cadeia da reindustrialização verde

Por Jean Paul Prates

A notícia de suspensão de quase R$ 40 bilhões em investimentos em renováveis no Nordeste é grave, mas ela é apenas a face mais visível de um problema maior. O que está efetivamente em risco não é só a expansão da geração eólica e solar.

É a possibilidade de o Nordeste se consolidar como plataforma brasileira da nova economia energética, com hidrogênio renovável, amônia verde, eletrificação de frotas, data centers sustentáveis, fertilizantes de baixo carbono e reindustrialização limpa. A reportagem da Folha apenas expôs numericamente uma deterioração que o setor já sente há bastante tempo.

É importante separar diagnóstico técnico de discurso corporativo. Não considero correto tratar como erro regulatório nem a regra mais restritiva sobre o Reidi, nem o sinal locacional que encarece o uso da rede para empreendimentos mais distantes dos centros de carga.

Esses pontos, ainda que impopulares para parte do setor, guardam racionalidade econômica e sistêmica e decorrem de decisões da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que, nesse aspecto, buscaram enfrentar distorções reais do setor elétrico. Insistir nisso como eixo principal da crise é um equívoco analítico. O centro do problema está em outro lugar.

O verdadeiro fator de desincentivo é a incerteza crescente quanto às soluções para o curtailment, tanto no passivo acumulado quanto na perspectiva futura.

O investidor não desiste apenas porque enfrenta corte de geração. Ele desiste quando percebe que o poder público não oferece horizonte claro, cronograma crível, mecanismo de compensação confiável nem estratégia coerente para absorver o excedente renovável em novos usos produtivos.

O ponto decisivo é este: o curtailment deixou de ser apenas um problema operacional da geração e passou a contaminar toda a cadeia da nova industrialização verde.

Quando não há previsibilidade sobre como o sistema tratará os cortes de energia, também perdem atratividade os projetos a jusante que dependem de energia limpa, abundante e estável para fechar sua conta econômica. Hidrogênio renovável, amônia verde, centros de dados, indústria eletrointensiva de baixo carbono e eletrificação de mobilidade deixam de avançar não por falta de vento ou sol, mas por ausência de segurança institucional.

E isso ocorre justamente no momento em que o mundo volta a viver os efeitos de mais uma crise internacional do petróleo, dos combustíveis e dos fertilizantes. Em vez de aproveitar a conjuntura para acelerar sua alternativa competitiva, o Brasil transmite hesitação. Em vez de transformar o Nordeste em resposta estratégica à instabilidade fóssil global, o país mantém a região presa a gargalos que já deveriam estar sendo enfrentados com senso de urgência.

Sempre que a pressão aumenta, seja por artigos, reclamações empresariais ou manifestações de agentes que conseguem chegar ao Presidente da República, o Ministério de Minas e Energia reaparece com a mesma resposta padronizada: diz que soluções estruturais estão em implantação e aponta ampliações na infraestrutura de transmissão.

É claro que transmissão é parte da resposta. Mas já não basta repeti-la como mantra. O problema exige mais do que linhas e subestações. Exige armazenamento, gestão inteligente da demanda, modernização tarifária, sinal econômico adequado ao consumo flexível e política industrial conectada à geografia real da oferta renovável.

Fonte: Eixos.com.
Voltar