Por Noel Budeguer
O Brasil está vendo bilhões em obras estratégicas apodrecerem na fila burocrática enquanto países vizinhos passam a tapete. R$ 130 bilhões em projetos públicos e privados estão paralisados hoje por conflitos e indefinições no processo de licenciamento ambiental — e a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar nisso.
O número, levantado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), não representa obras mal planejadas ou empresas desonestas. São rodovias, ferrovias, usinas e projetos habitacionais que emperraram num labirinto de decisões conflitantes entre Ibama, Funai, Ministério Público Federal e Judiciário — cada um com critérios diferentes, muitas vezes subjetivos.
O levantamento contabiliza dezenas de projetos espalhados por todo o país — rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas, linhas de transmissão e habitação popular. Os casos a seguir são os mais emblemáticos, mas representam apenas uma fração do total bloqueado.
Segundo o relatório “Radiografia do Licenciamento Ambiental Federal” publicado pelo próprio Ibama em 2025, o prazo médio para emissão de uma licença prévia em grandes obras ultrapassa 3 anos. Três anos. Enquanto isso, máquinas enferrujam, contratos vencem e o custo da obra multiplica.
O problema não é a existência do licenciamento — nenhum país sério dispensa avaliação de impacto ambiental. O problema é a execução: regulamentos vagos que abrem espaço para decisões arbitrárias, conflito de competências entre órgãos e uma judicialização crescente que transforma qualquer projeto em campo minado jurídico.
A Ferrogrão foi projetada para ligar Sinop, em Mato Grosso, a Miritituba, no Pará, criando um corredor logístico de 933 km para escoar a produção pelo Arco Norte. Mesmo com potencial de reduzir custos bilionários no transporte de cargas, o projeto segue travado por disputas ambientais, judiciais e regulatórias.
A Ferrogrão é o símbolo mais emblemático desse colapso. A ferrovia de 933 quilômetros que ligaria Sinop, no Mato Grosso, ao porto de Miritituba, no Pará, está paralisada desde 2021 por decisão judicial — cinco anos de espera para um projeto que o governo estima ser capaz de economizar R$ 7,9 bilhões por ano em custos logísticos.
Em maio de 2026, o STF decidiu por 9 votos a 1 manter a lei que ajusta os limites do Parque Nacional do Jamanxim para viabilizar o projeto. Mas a vitória é parcial: a ferrovia ainda depende de licenciamento ambiental completo antes do primeiro trilho ser instalado. O ministro dos Transportes prometeu leilão no segundo semestre de 2026 — promessa que o setor ouve com ceticismo.

A BR-319 segue no centro de uma disputa que mistura isolamento logístico, pressão ambiental e bilhões em obras paradas. Enquanto o trecho central entre Porto Velho e Manaus depende de decisões judiciais e licenciamento, a rodovia continua sendo vista por parte da população amazônica como uma ligação vital com o restante do país.
A rodovia que liga Porto Velho a Manaus — e que representa para milhares de amazonenses o direito básico de ir e vir — virou outro campo de batalha. Em abril de 2026, a Justiça Federal suspendeu quatro licitações do DNIT para obras no trecho central da via, paralisando uma contratação de R$ 678 milhões por 60 dias.
O motivo: o governo tentou enquadrar as obras como simples “melhoramento e manutenção” para dispensar o licenciamento ambiental com base na nova Lei Geral aprovada em 2025. A juíza rejeitou o argumento, apontando que a própria BR-319 foi tratada por duas décadas como empreendimento de significativo impacto ambiental — e não pode mudar de categoria por conveniência política.

A CMPC colocou o Projeto Natureza no centro da crise do licenciamento ambiental no Brasil: a fábrica de celulose prevista para Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul, envolve investimento bilionário, mas segue cercada por disputas jurídicas, exigências socioambientais e o risco de perder espaço para o Paraguai.
Nenhum caso ilustra melhor a crise do que o Projeto Natureza, da gigante chilena CMPC. A empresa planeja construir em Barra do Ribeiro (RS) a maior fábrica de celulose do Rio Grande do Sul — um investimento entre R$ 25 bilhões e R$ 27 bilhões que geraria empregos, divisas e desenvolvimento regional por décadas.
A CMPC já comprometeu US$ 400 milhões apenas no planejamento e nos estudos do projeto. Sem construir um tijolo sequer. Em maio de 2026, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública apontando que o licenciamento avançou sem a realização da Consulta Prévia, Livre e Informada a comunidades indígenas Guarani Mbya, pescadores artesanais e quilombolas — exigência da Convenção 169 da OIT.
O diretor-geral da CMPC no Brasil foi direto: “Se a gente não tiver o projeto para o Rio Grande do Sul, ele morre. Infelizmente ele morre.” E o Paraguai entrou no radar como destino alternativo — com o argumento fatal de que o país vizinho oferece “madeira e previsibilidade jurídica”, dois ativos que o Brasil não consegue garantir no momento.
O governo federal tentou atacar o problema com a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei 15.190/2025) e, em dezembro do mesmo ano, com a Lei da Licença Ambiental Especial (Lei 15.300/2025), que cria um licenciamento expresso de 12 meses para projetos considerados estratégicos — e de apenas 90 dias para rodovias.
Ambientalistas foram à forra: três Ações Diretas de Inconstitucionalidade tramitam no STF questionando as novas normas. O argumento central é que “estratégico” virou critério político, sem base técnica, permitindo que obras de alto impacto escapem de análise responsável. Até agora, o Supremo não concedeu nenhuma liminar — as leis seguem valendo.
R$ 130 bilhões parados não é só número abstrato. É a estrada que poderia reduzir o custo do feijão no supermercado. É a linha de transmissão que atrasou 24 meses e deixa regiões inteiras dependentes de energia cara. É o porto que o Brasil não construiu enquanto o concorrente sul-americano avançou.
O Brasil vai conseguir destravar essa equação — ou vai continuar perdendo investimentos para vizinhos que aprenderam a dizer “sim” mais rápido?