Mais de 80 milhões de quilômetros de fios precisam ser trocados até 2040: a transição energética não depende só de painéis e carros elétricos, mas de uma corrida colossal por cobre, alumínio, transformadores e reciclagem de cabos antigos

Mais de 80 milhões de quilômetros de fios precisam ser trocados até 2040: a transição energética não depende só de painéis e carros elétricos, mas de uma corrida colossal por cobre, alumínio, transformadores e reciclagem de cabos antigos
15 de junho de 2026

Por Valdemar Medeiros

Mundo precisará adicionar ou renovar mais de 80 milhões de quilômetros de redes elétricas até 2040 para sustentar carros elétricos, energia solar e eólica.

A transição energética costuma ser representada por painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos, mas a infraestrutura decisiva está muito menos visível. Segundo a Agência Internacional de Energia, o mundo precisará adicionar ou renovar mais de 80 milhões de quilômetros de redes elétricas até 2040, o equivalente a reconstruir toda a rede global existente hoje. Sem essa expansão, a eletrificação do transporte, o avanço das renováveis e o aumento da demanda elétrica podem esbarrar em um gargalo estrutural.

O desafio não é marginal. A própria IEA afirma que as redes estão se tornando um dos pontos mais frágeis da transição para sistemas energéticos mais limpos e seguros. Em vez de ser apenas um detalhe técnico, a malha de transmissão e distribuição passou a ser uma das maiores obras de infraestrutura do século.

Carros elétricos, energia solar e eólica dependem de uma rede elétrica muito maior

Segundo a IEA, a rápida adoção de tecnologias como veículos elétricos, bombas de calor e novas fontes renováveis está ampliando o papel da eletricidade em áreas antes dominadas por combustíveis fósseis. Isso eleva a pressão sobre as redes e exige mais linhas, mais conexões e sistemas mais modernos para levar energia até cidades, indústrias e centros de consumo.

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Ao mesmo tempo, muitos projetos de energia limpa estão longe dos grandes mercados consumidores. Usinas solares em áreas desérticas e parques eólicos offshore, por exemplo, só se tornam úteis em larga escala quando a rede consegue transportar essa eletricidade com segurança e eficiência.

A transição energética, portanto, não depende apenas de gerar mais energia limpa. Ela depende de construir a infraestrutura capaz de receber, distribuir e estabilizar essa nova eletricidade em escala global.

Os 80 milhões de quilômetros equivalem a reconstruir toda a rede global atual

Segundo a IEA, alcançar as metas nacionais de energia e clima exigirá mais de 80 milhões de quilômetros de redes adicionadas ou reformadas até 2040. O número é tão grande que a própria agência o compara ao tamanho de toda a infraestrutura elétrica mundial já existente.

Carros elétricos, energia solar e eólica dependem de uma rede elétrica muito maior

Uma leitura do relatório feita pelo Balkan Green Energy News ajuda a dimensionar essa escala de forma mais visual. Segundo a publicação, essa extensão seria suficiente para dar cerca de 2.000 voltas ao redor da Terra. A comparação mostra que não se trata apenas de expansão pontual, mas de uma transformação física gigantesca da base energética mundial.

Na prática, a transição para uma economia mais eletrificada exigirá uma obra contínua, fragmentada e global, espalhada por subestações, cabos subterrâneos, linhas aéreas, transformadores e corredores de transmissão em dezenas de países ao mesmo tempo.

Redes elétricas viraram gargalo da transição energética mundial

O problema já começou a aparecer de forma concreta. Segundo a IEA, as redes estão deixando de acompanhar a velocidade da nova economia da energia, o que cria risco real de atraso para a expansão das fontes renováveis e da eletrificação.

A agência aponta que pelo menos 3 terawatts de projetos renováveis aguardam em filas de conexão à rede, e cerca de metade desse volume já está em estágio avançado. Isso equivale a aproximadamente cinco vezes a capacidade solar e eólica adicionada ao mundo em 2022, mostrando que boa parte da energia limpa pronta para entrar no sistema ainda depende de infraestrutura que não ficou pronta no mesmo ritmo.

Esse é um ponto central. Em muitos casos, o problema não é mais instalar painéis ou turbinas, mas garantir que a eletricidade gerada consiga, de fato, circular até os consumidores finais.

Investimento em redes ficou para trás enquanto renováveis quase dobraram

Segundo a IEA, os investimentos globais em energias renováveis quase dobraram desde 2010, enquanto os aportes em redes elétricas permaneceram praticamente estagnados em torno de US$ 300 bilhões por ano. Essa diferença explica por que a expansão da geração limpa passou a correr mais rápido do que a capacidade de conexão do sistema.

Investimento em redes ficou para trás enquanto renováveis quase dobraram

Para a agência, esse desequilíbrio precisa mudar rapidamente. O relatório defende que os investimentos em redes sejam duplicados até o fim da década, alcançando cerca de US$ 600 bilhões por ano. Sem isso, a modernização do sistema elétrico corre o risco de travar justamente quando a eletrificação acelera em transporte, aquecimento e indústria.

Em outras palavras, mais energia limpa não significa automaticamente uma infraestrutura pronta. A expansão da rede deixou de ser etapa secundária e virou condição básica para que a transição energética realmente aconteça.

Cobre, alumínio, transformadores e digitalização ganham papel central

Embora a IEA concentre o foco na infraestrutura de rede e não em uma única commodity, o recado é claro: ampliar milhões de quilômetros de transmissão e distribuição exigirá uma corrida industrial por cabos, equipamentos, transformadores e soluções de modernização.

O relatório também destaca a necessidade de digitalizar as redes, ampliar interconexões entre regiões e remover barreiras administrativas e regulatórias que hoje atrasam a expansão. Não se trata apenas de instalar mais fios, mas de construir um sistema mais inteligente, mais resiliente e capaz de integrar volumes crescentes de solar, eólica e novas cargas elétricas.

A peça mais importante da transição energética, portanto, pode ser justamente a menos visível. Sem rede suficiente, a energia limpa existe, mas não chega. E sem modernização, chega com mais custo, menos segurança e mais atraso.

A maior obra da transição energética pode acontecer sem quase ninguém perceber

Ao contrário de uma ponte monumental, de uma barragem gigantesca ou de um aeroporto novo, a expansão das redes elétricas acontece de forma espalhada e silenciosa. São linhas novas, linhas reformadas, subestações adaptadas, cabos substituídos e sistemas digitalizados em diferentes pontos do planeta.

Mas é justamente essa obra quase invisível que pode definir se o mundo conseguirá ou não sustentar a próxima fase da eletrificação global. Segundo a IEA, sem redes mais extensas, modernas e flexíveis, os países terão dificuldade para cumprir metas climáticas, garantir segurança elétrica e integrar o crescimento acelerado das renováveis.

A grande ironia da transição energética é que sua infraestrutura mais decisiva talvez seja a que menos aparece nas imagens de divulgação.

No centro da mudança global não está apenas a geração limpa, mas uma gigantesca rede de fios, torres, cabos, transformadores e sistemas digitais que precisará crescer em ritmo recorde para que o novo sistema energético funcione.rutura podem atrasar essa transformação?

Fonte: Click Petróleo e Gás.
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