Aexpansão das usinas de etanol de milho abriu uma segunda frente de investimento em Mato Grosso, desta vez fora dos tanques industriais e ligada ao abastecimento energético das fábricas. Estudo da Consultoria Agro do Itaú BBA, divulgado em São Paulo em 11 de setembro, calcula que o Estado poderá precisar entre R$ 7,6 bilhões e R$ 14,3 bilhões em novas áreas de eucalipto nos próximos anos, conforme a eficiência operacional das plantas. A conta acompanha uma indústria cuja capacidade instalada brasileira deve sair de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões em 2030.
“A disponibilidade de biomassa deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a ser um fator relevante para a viabilidade econômica e ambiental dos projetos de etanol de milho. Empresas que estruturarem com antecedência sua estratégia de suprimento energético poderão ter maior previsibilidade de custos, menor exposição a riscos regulatórios e melhores condições para capturar oportunidades associadas à agenda de sustentabilidade”, afirma Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA.
Mato Grosso concentra a maior parte dessa transformação. A capacidade de produção do combustível no Estado deve passar de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros entre 2025 e 2030, segundo o banco. O crescimento exige uma quantidade correspondente de matéria-prima para abastecer energeticamente as fábricas, hoje atendidas por diferentes tipos de biomassa, entre elas madeira de florestas plantadas e material proveniente de supressão vegetal autorizada.

César de Castro Alves, consultor do Itaú BBA
Na projeção do Itaú BBA, uma capacidade nacional de 13 bilhões de litros ao final de 2026 consumiria 35 milhões de metros cúbicos de biomassa de eucalipto caso essa fosse a única fonte empregada pelas unidades industriais. Para manter esse abastecimento ao longo do tempo, seria necessário um estoque florestal próximo de 440 mil hectares plantados.
A conta ganha outra dimensão em Mato Grosso. Considerando capacidade instalada próxima de 12 bilhões de litros em 2030, a indústria estadual demandaria 383 mil hectares de eucalipto para suprir suas necessidades energéticas. A área estimada atualmente soma 165 mil hectares, deixando uma diferença potencial de 218 mil hectares a ser formada nos próximos anos.
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O crescimento das áreas plantadas ocorre ao mesmo tempo em que as regras estaduais modificam a origem da madeira consumida pela agroindústria. Em junho de 2026, Mato Grosso estabeleceu normas para reduzir gradualmente e depois eliminar o uso de biomassa originada da supressão de vegetação nativa por grandes consumidores. Pelo acordo firmado entre o governo estadual e o Ministério Público, novos empreendimentos precisam comprovar fontes sustentáveis de abastecimento, com prioridade para florestas plantadas, manejo florestal sustentável e outras alternativas renováveis.
Para as indústrias em operação, o cronograma estabelece limite de até 40% para utilização de biomassa nativa até 2034 e elimina essa fonte a partir de 2035. A regulamentação passa a integrar o planejamento de suprimento das usinas em um período no qual a capacidade de produção de etanol de milho continua em expansão.
O etanol, por sua vez, disputa essa matéria-prima com outras atividades. Unidades armazenadoras, secadores de grãos, frigoríficos e diferentes segmentos agroindustriais também utilizam biomassa em seus processos. Assim, o aumento da produção do combustível ocorre dentro de um mercado no qual a madeira já possui outros consumidores.
Para as usinas de milho, o uso de fontes renováveis também está associado às credenciais de sustentabilidade do produto. O estudo relaciona a combinação entre milho de segunda safra e biomassa renovável à competitividade do combustível brasileiro em mercados que valorizam produtos com menor intensidade de carbono.
A expansão projetada pelo Itaú BBA também coloca o eucalipto no planejamento econômico das propriedades rurais. Nas premissas consideradas pelo banco, um projeto destinado à produção de biomassa apresenta Taxa Interna de Retorno, a TIR, próxima de 17% ao ano e Valor Presente Líquido, o VPL, de R$ 4,3 mil por hectare, considerando taxa mínima de atratividade de 14% ao ano.
Em um ciclo com dois cortes distribuídos por 13 anos, o modelo analisado acumula receita de R$ 104 mil por hectare e lucro total próximo de R$ 54 mil. Pela mesma conta, a geração média fica em R$ 4,2 mil por hectare ao ano. Convertido para uma referência utilizada no planejamento agrícola de Mato Grosso, o retorno corresponde a 30 sacas de soja por hectare ao ano.
Essa relação coloca o plantio florestal como possibilidade para áreas com menor aptidão para lavouras anuais ou para produtores interessados em distribuir a receita entre atividades diferentes, conforme as premissas consideradas pelo Itaú BBA para o projeto analisado.
“Mato Grosso reúne condições favoráveis para essa expansão, combinando disponibilidade de terras, regime adequado de chuvas e proximidade dos principais polos consumidores de biomassa”, diz Alves. “O cultivo de eucalipto pode representar uma alternativa competitiva para áreas com limitações para culturas anuais e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação de uma cadeia regional de suprimento que tende a se tornar cada vez mais estratégica para o próximo ciclo de expansão do etanol de milho no Brasil.”
Com a capacidade estadual projetada em 11,9 bilhões de litros em 2030 e uma diferença potencial de 218 mil hectares entre a base florestal atual e a necessária para atender o consumo industrial projetado, a expansão do etanol de milho passa a depender também da formação de uma cadeia regional capaz de fornecer biomassa ao novo ciclo de crescimento das usinas.