Investimentos chineses no Brasil somam R$ 230 bilhões desde 2015

Investimentos chineses no Brasil somam R$ 230 bilhões desde 2015
21 de setembro de 2026

Por Daniele Madureira

Os investimentos chineses no país somaram cerca de US$ 45 bilhões (R$ 230 bilhões) entre 2015 e 2025, de acordo com estudo da consultoria Euromonitor International. Só no ano passado, foram US$ 6,1 bilhões (R$ 31 bilhões), alta de 45% na comparação com o ano anterior, fazendo do Brasil o país que mais recebeu aportes chineses no mundo.

Se há uma década o aporte estava concentrado em infraestrutura, como hidrelétricas, agora a China avança também sobre o mercado de consumo brasileiro. O popular “made in China”, de itens de baixo valor agregado, vem sendo substituído — ainda que não totalmente — pelo “made by China in Brazil”, com produtos e serviços sofisticados, que envolvem alta tecnologia de produção e cadeia logística, adaptados ao perfil do brasileiro.

“A China está migrando de uma estratégia focada em preço e importação para uma abordagem que prioriza conteúdo, comunidade, produção local e logística eficiente”, diz Guilherme Machado, gerente de pesquisas da Euromonitor International. Com isso, as marcas chinesas adotam um posicionamento de “luxo acessível”, com produtos de qualidade com design sofisticado e construção de marca, em vez de priorizar preço baixo.

Esse movimento é impulsionado pela instabilidade nos mercados americano e europeu e pelo crescimento mais moderado nos asiáticos, que já estão maduros, o que tornou a América Latina um destino estratégico, diz Machado. Em toda a região, segundo a Euromonitor, os chineses já conquistaram a liderança de mercado em eletrônicos e veículos elétricos; estão avançando com eletrodomésticos e ensaiam uma arrancada em beleza, além de já terem garantido espaço em moda e serviços de delivery e alimentação.

O novo Porto de Chancay, no Peru, com investimentos de US$ 3,5 bilhões, é um símbolo dessa ofensiva. Liderado pela estatal chinesa Cosco Shipping Company e operado em parceria com a peruana de mineração Volcan, o complexo portuário integra a “Nova Rota da Seda” — projeto chinês de investimento em infraestrutura no exterior. O grande calado da baía de Chancay permite receber os maiores navios do mundo, que podem transportar até 24 mil contêineres, reduzindo em até 20 dias o tempo de transporte entre China e América do Sul.

Na América Latina, o predomínio de apenas duas línguas, espanhol e português, facilita a estratégia de entrada dos chineses, que também se valem da proximidade com recursos naturais, o que incentiva a produção localGuilherme Machado, gerente de pesquisas da Euromonitor International

Conta pontos também o uso intensivo de redes sociais na região: mais de 80% dos consumidores latinos usam Facebook, Instagram, TikTok ou WhatsApp diariamente, o que permite às marcas chinesas um alcance rápido e em alta escala.

O Brasil é protagonista dos investimentos chineses na região: de 2015 a 2024, o país recebeu entre US$ 35 bilhões e US$ 40 bilhões, com destaque para energia, mineração, automóveis e agronegócio, informa a Euromonitor. O valor é quase o triplo do que foi aplicado no mesmo período no México, segundo principal destino chinês (entre US$ 12 bilhões e US$ 15 bilhões). Outros países relevantes para os orientais são Argentina, Chile, Colômbia e Peru.

No Brasil, o aporte chinês é mais diversificado do que o dos seus concorrentes asiáticos. Enquanto o Japão prioriza investimentos de longo prazo nos setores automotivo, de energia e agroindustrial, e a Coreia do Sul foca em eletrônicos, semicondutores e baterias, a China vai do automotivo ao delivery, passando por moda, cosméticos e alimentação.

“A economia chinesa já não está tão dinâmica como no passado, o que incentiva as empresas locais a buscarem novos mercados”, diz Alexandre Uehara, coordenador do curso de Relações Internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Essa postura também é estimulada pelo tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump, com quem a China trava uma guerra comercial, acrescenta.

Para Uehara, é conveniente para Pequim manter estreita parceria com o Brasil, uma grande democracia, o que afasta a ideia de isolamento chinês. “A China vem melhorando seu ‘soft power’ no mundo”, diz o especialista, referindo-se à capacidade que as nações têm de influenciar outros atores internacionais por meio da cultura, valores e diplomacia, em detrimento do uso da força militar ou coerção econômica.

Uehara cita o Soft Power Index 2026, organizado pela consultoria britânica Brand Finance, que apontou uma forte queda na pontuação dos Estados Unidos, embora o país mantenha a primeira posição. “Os EUA registraram um declínio de 4,6 pontos em relação ao ano passado, para 74,9 pontos. Em contrapartida, a China melhorou sua posição, para 73,5 pontos, o que reduziu substancialmente a diferença entre o primeiro e o segundo lugar no ranking”, afirma. A melhora da percepção do país asiático ocorre a despeito de denúncias de violação de leis trabalhistas por empresas chinesas, inclusive no Brasil.

O fato de a China concorrer com economias avançadas em setores como o aeroespacial, robótica e inteligência artificial empresta prestígio para outras marcas chinesas, levando à melhora da imagem desses produtos e serviços no BrasilAlexandre Uehara, coordenador do curso de Relações Internacionais da ESPM

Fonte: Uol.
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