Investimento novo em centros de dados está em compasso de espera

Investimento novo em centros de dados está em compasso de espera
4 de março de 2026

Programa de benefícios fiscais, Redata não foi votado e caducou – empresas aguardam ainda posição do Confaz sobre isenção do ICMS

Empresas que constroem e administram centros de dados de grande escala (hyperscale, no jargão do setor) reafirmam investimentos já comprometidos no país, têm esperança de um resgate ainda neste ano do Regime Especial de Tributação sobre Serviços de Data Center (Redata), que caducou na quarta-feira (25). Mas observam que novos aportes, em especial os de maior porte, estão de molho.

“A não votação do Redata e a consequente caducidade da medida representam um retrocesso para a estratégia de digitalização do país, essencial para a soberania e a segurança dos dados do Brasil, hoje majoritariamente mantidos no exterior”, disse o fundador e presidente do conselho da Elea Data Centers, Alessandro Lombardi.

Para as empresas do setor, as isenções fiscais previstas pelo Redata atrairão aportes bilionários em infraestrutura de inteligência artificial (IA), que correm o risco de migrar para outros países. A Amazon, por exemplo, anunciou nesta segunda-feira (2) que vai investir mais € 18 bilhões (US$ 21 bilhões) na Espanha para expandir seus centros de dados (ver Amazon leva mais € 18 bi à Espanha).

Entre 2025 e 2031, as operações de “data centers” no Brasil devem receber um total acumulado de US$ 92 bilhões em investimentos, sendo US$ 69 bilhões em equipamentos e US$ 23 bilhões em infraestrutura entre 2025 e 2031, projeta a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom).

Em 2025, os investimentos no setor somaram US$ 9 bilhões, sendo US$ 7 bilhões em equipamentos e US$ 2 bilhões em infraestrutura, informa a associação.

Segundo um levantamento feito pela Elea, a espera pelos benefícios do Redata reduziu para R$ 2 bilhões os investimentos em novos “data centers” no ano passado. A soma representa menos de um décimo da média de R$ 25 bilhões (US$ 4,8 bilhões) por ano alcançada entre 2020 e 2024.

Um contrato de R$ 2,3 bilhões firmado com a Petrobras em outubro do ano passado trouxe fôlego para a Elea em 2026. Entretanto, caso o Redata seja aprovado, a empresa prevê investimentos adicionais de pelo menos R$ 13 bilhões em novos projetos, sendo R$ 2 bilhões em São Paulo, R$ 10 bilhões no Rio de Janeiro e mais R$ 1 bilhão em outras cidades brasileiras, incluindo a região Norte, informa Lombardi.

A Ascenty, que conta com 25 centros de dados em operação no Brasil e em outros países da América Latina, reforça que seus investimentos no país seguem sólidos. “Temos um plano de investimentos de US$ 1,5 bilhão [R$ 7,7 bilhões] nos próximos 18 meses para o Brasil e a América Latina”, informou o vice-presidente de vendas e estratégia da Ascenty, Marcos Siqueira.

E para que o programa de benefícios fiscais, se for aprovado, destrave novos investimentos no Brasil, a expectativa do setor inclui “agilidade nos licenciamentos, expansão da rede de transmissão elétrica, previsibilidade tributária e estabilidade institucional”, afirma Siqueira.

“Cada ‘data center’ de US$ 1 bilhão gera cinco vezes mais para o país em movimentação financeira por meio de investimentos dos clientes desses ‘data centers’ ”, ilustra o executivo da Ascenty.

A Tecto Data Centers, empresa do grupo de infraestrutura de fibra óptica V.Tal, também reafirmou que mantém o compromisso anunciado no ano passado de investir US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) em novos centros de dados até 2028.

“O plano de expansão da companhia foi estruturado com visão de longo prazo e está sendo executado de forma independente ao andamento do programa”, informou o diretor de receita da Tecto Data Centers, Tito Costa. Os projetos compreendem tanto centros de dados de grande porte como estruturas menores em cidades fora do eixo Rio – São Paulo.

Além do Redata, as empresas do setor estão negociando a isenção do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) junto aos Estados para servidores alocados em centros de dados de IA. O tema será abordado na próxima reunião do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) em 27 de março, informou a Brasscom.

“É importante que a medida integre os equipamentos de informática utilizados pelas grandes empresas de tecnologia, por meio das NCMs [sigla para Nomenclatura Comum do Mercosul], e avance no âmbito estadual, para que os benefícios sejam acompanhados de adequações no ICMS e garantam competitividade ao setor”, ressaltou Lombardi, da Elea.

Para o Grupo EBM Engenharia, que atua na construção de centros de dados para grandes empresas de “data center” na América Latina, o Brasil, sem o Redata, perde mais uma oportunidade de avançar na corrida pela transformação digital.

“O texto deve ser retomado criteriosamente para que possamos evoluir e ganhar competitividade internacional”, comentou o sócio-fundador do Grupo EBM, Eduardo Menossi. Se o Redata não for retomado a tempo, Menossi estima que a projeção de avanço de 12% a 15% nos investimentos do setor com a regulamentação terá de ser revista.

Para 2026, o Grupo EBM projeta faturar R$ 1 bilhão com projetos para centros de dados na América Latina. A projeção da EBM representa mais do que o triplo do faturamento de R$ 300 milhões informado em 2025, que cresceu 50% em base anual.

Sem o Redata, entretanto, “as obras não avançam e a economia perde”, nota o sócio-fundador do Grupo EBM.

Fonte: Valor Econômico.
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