Por Nivaldo Souza
A instalação no Brasil de centros de processamento de dados, os chamados data centers, deve exigir a ampliação da infraestrutura de energia para assegurar o consumo estimado em 25 Gigawatts (GW) até 2035, de acordo com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética).
O consumo, devido a matriz energética do Brasil ser composta por 90% de fontes renováveis, pode compensar as emissões de carbono realizadas por países como os Estados Unidos, líder em data centers. A combinação de fatores foi debatida no fórum “Redes do Amanhã”, realizado em Brasília pela EXAME e PSR.
Estudo da ABDC (Associação Brasileira de Data Center) aponta que o Brasil reduz anualmente a pegada de carbono em pelo menos 7 vezes a cada megawatt consumido por data center, em comparação com o mesmo consumo nos EUA.
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Angela Gomes, diretora técnica da PSR, avaliou que o Brasil tem potencial para atender a novas demandas de energia com sustentabilidade.
“Temos redes de transmissão interligando o país inteiro, a distribuição que chega a 99% da população e as energias renováveis, que têm presença de 90% [da matriz], e são as mais competitivas. Podemos expandir e manter essa renovabilidade”, afirmou.
O Superintendente de Transmissão de Energia da EPE, Thiago Dourado Martins, reportou estudos realizados pela estatal para mensurar o potencial de demanda energética.
“Os data centers são um grande vetor para a expansão de grandes cargas no sistema e também entram em operação em intervalos de tempo curtos. Em resposta a isso, a EPE vem fazendo estudos de perspectiva de transmissão para realizar sua integração”, disse.
A estimativa foi apresentada no painel “Perspectivas regulatórias e de investimentos para a transmissão de energia”, que reuniu especialistas para discutir governança regulatória, investimento em tecnologia e rapidez na execução de projetos como principais desafios.
O avanço dos centros de processamento de dados, contudo, depende da aprovação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). O novo marco legal tramita no Congresso no projeto de lei 278/2026. Mas ainda não avançou no Senado, apesar de ter sido aprovado na Câmara em fevereiro.
A proposta empacou devido ao embate político entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e o Palácio do Planalto sobre o tema. Mas há expectativa de acordo político.
O relator do marco regulatório da inteligência artificial (PL 2338/2023), deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), negocia com Alcolumbre a inclusão do Redata no texto sobre IA, cujo relatório pretende apresentar em 19 de maio para votação no plenário da Câmara no dia 27.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) estima em R$ 1 trilhão os investimentos em datacenters no país ao longo de uma década. A pasta não divulgou o potencial de consumo de energia.
De acordo com Amanda Fernandes, Head na área de Redes da PSR, os data centers representam um desafio para a modernização das redes de transmissão no Brasil.
“Hoje, 2% da carga de energia é de data centers e deve chegar a 10% nos próximos anos”, indicou.
Martins indicou o estado de São Paulo como o mais qualificado em infraestrutura para absorver investimentos.
A EPE já realizou quatro estudos sobre a capacidade paulista e identificou 9 GW do estado do Sudeste como potencial para fornecimento – outros dois levantamentos estão em andamento. Outros estudos indicaram 4 GW de potencial no Nordeste e 5 GW no Sul.
A perspectiva do mercado de data centers movimenta o setor de infraestrutura de bateria para armazenamento de energia, transformadores e outros periféricos.
É o caso da Hitachi, empresa japonesa dedicada ao desenvolvimento de tecnologia para energia. A companhia está com a fábrica de transformadores de Guarulhos (SP) com capacidade ocupada.
“É a maior fábrica em entrega e faturamento da Hitachi no mundo”, disse o presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head of South LATAM, Glauco Freitas.
De acordo com o executivo, a companhia investe R$ 270 milhões em uma nova unidade em Pindamonhangaba (SP) para ampliar a capacidade de produção em 120%, visando atender a demanda futura dos centros de dados de empresas como Google, Meta e NVidia.
“O volume de compras que esse pessoal tem para fazer é gigantesco, algo nunca antes visto”, disse.
Carlos Adolfo Pereira, Coordenador do Comitê de Transmissão da ABDI (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), ponderou sobre a necessidade de o país manter a estrutura de governança representada pela Aneel e a EPE para garantir a expansão do ritmo atual de investimentos na interligação do sistema pelas linhas de transmissão.
“O Brasil hoje é um canteiro de obras de transmissão”, ressaltou.
Pereira indicou que novos contratos devem partir da manutenção da segurança regulatória e da confiabilidade para o investidor. “Vamos ter de construir uma nova distribuição, além dessa que está aí. O que vem nos próximos 30 anos é investir em tecnologia”, concluiu.