Hidrogênio verde deve decolar apenas na próxima década

Hidrogênio verde deve decolar apenas na próxima década
23 de abril de 2026

A combinação entre matriz elétrica com alta participação de fontes renováveis, boa infraestrutura de exportação e avanços regulatórios tornam o Brasil um cenário ideal para o hidrogênio de baixo carbono e seus derivados – mas não para agora. Os projetos em larga escala de produção do chamado hidrogênio verde (H2V), obtido a partir de fontes renováveis, só devem começar a operar entre 2029 e 2030. Até janeiro de 2026, os projetos com FID (decisão final de investimento, na sigla em inglês) para este ano somavam R$ 53 bilhões em investimentos; já para o período de 2027 a 2029, estão previstos mais R$ 55 bilhões, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (ABIHV).

Nos últimos três anos, uma euforia tomou conta do mercado, com hubs de pesquisa e produção nos principais complexos portuários do país e memorandos de entendimento para viabilizar empreendimentos. Porém, nem tudo alcançou a etapa de FID. “A viabilidade dos projetos depende de etapas que precisam ser cumpridas”, diz Fernanda Delgado, diretora executiva da ABIHV. Os projetos tiveram de esperar marco legal, agência reguladora, investidores e infraestrutura de energia, cita Delgado. Além disso, a consolidação da produção e comercialização de H2V e seus derivados (amônia, metanol), dependerá de estabilidade geopolítica e progresso tecnológico.

O mercado global de hidrogênio é estimado em 100 milhões de toneladas/ano, das quais apenas 1% é obtido por meio de processos de baixo carbono. O Brasil produz 550 mil toneladas/ano, sendo 0,3% “verde”. O horizonte para a expansão do H2V é mais amplo, visto que ele pode ser utilizado como insumo para descarbonização de setores intensivos em emissões (aço, cimento, refino, petroquímica) na fabricação de fertilizantes e como combustível de veículos.

Estima-se que, se ao menos três projetos de grande porte se concretizarem, o Brasil triplicará a produção em 2030. Mas, hoje, entre 6% e 7% dos projetos anunciados globalmente chegam a FID e só 2% entram de fato em construção. “Muitos projetos ainda precisam avançar nos estudos de viabilidade técnica e econômica. Então, o patamar de produção que pode ser alcançado pelo Brasil até 2030 ainda é incerto”, diz Paulo Emílio de Miranda, chefe do Laboratório de Hidrogênio da Coppe/UFRJ e presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2).

O H2V brasileiro pode ser decisivo para países que têm metas climáticas ambiciosas, afirma o CEO Gilney Bastos

O cenário geopolítico de curto prazo, especialmente a guerra contra o Irã, que escancarou a necessidade de diversificação das fontes de energia, deslocou o senso de urgência desses projetos, avalia Ricardo Assumpção, sócio líder de sustentabilidade da consultoria EY. “No curto prazo, os investidores devem se voltar para os biocombustíveis, incluindo etanol, biodiesel e SAF [combustíveis sustentáveis de aviação]. O hidrogênio seria uma solução estruturada para descarbonização, mas a longo prazo”, afirma ele.

O elevado custo de capex para infraestruturas de eletricidade e geração de energia renovável e a escassez de contratos de compras mínimas são outros motivos para que o H2V seja uma aposta para os próximos anos, na visão de Assumpção.

Projetos de pequeno e médio portes recebem menos investimentos, mas são importantes para o desenvolvimento do mercado. A White Martins foi pioneira na América do Sul a iniciar a produção de hidrogênio verde em escala industrial no complexo industrial portuário de Suape (PE), em 2022. A unidade produz 156 toneladas de H2V e utiliza energia solar para realizar a eletrólise de água, e a produção é destinada a atender o mercado pernambucano. A empresa inaugurou uma segunda planta de produção no ano passado, em Jacareí (SP), destinada a abastecer o Sudeste. Somadas, as duas plantas terão capacidade produtiva de 1.000 toneladas/ano.

“Nosso objetivo primordial é viabilizar a descarbonização de setores industriais críticos. Em Jacareí, 80% da produção será destinada ao mercado, para atender indústrias de siderurgia, metal mecânico, alimentos e químico”, diz Gilney Bastos, CEO da White Martins. Os outros 20% serão fornecidos para uma fabricante de vidros. A White Martins também planeja exportar parte da produção. “O hidrogênio verde brasileiro pode ser um insumo decisivo para países que possuem metas climáticas ambiciosas, mas não contam com uma matriz energética tão privilegiada quanto a nossa”, diz Bastos.

A Neoenergia, que inaugurou uma usina em Taguatinga (DF) em 2025 para produção de H2V a partir de eletrólise da água com energia fotovoltaica, testa inicialmente o gás como combustível para veículos. A unidade viabiliza a circulação do primeiro ônibus do transporte público do Brasil movido a H2V, em Brasília, em parceria com a TEVX. A companhia também firmou parceria com a Honda para testes com o CR-V e:FCEV, veículo elétrico híbrido com célula de combustível de hidrogênio.

“Os testes têm como objetivo validar desempenho do abastecimento, operação dos veículos a célula a combustível e condições necessárias para futura expansão da tecnologia”, afirma Tatsumi Igarashi, chefe de hidrogênio verde da Neoenergia. O projeto recebeu investimento de R$ 30 milhões, proveniente de um programa de pesquisa, desenvolvimento e inovação regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A mineração é outro setor com interesse no hidrogênio de baixo carbono. A Brazil Iron, que prevê investir US$ 5,7 bilhões em um projeto de produção de ferro verde na Bahia, planeja incorporar o H2V em seu processo industrial para zerar as emissões líquidas.

De olho na movimentação de mercado, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) lançou em 2022 o primeiro certificado de hidrogênio do Brasil, que visa comprovar os atributos ambientais das usinas que produzem o combustível e facilitar exportações. O selo traz duas classificações: uma para o insumo 100% renovável (produzido a partir de fonte eólica, solar ou hidrelétrica) e outra para o parcialmente renovável (a partir de outras fontes, como gás natural). Entre as certificadas estão Furnas e EDP.

Fonte: Valor Econômico.
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