Por Lucianne Carneiro, Marcelo Osakabe e Ana Luiza Tieghi
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, deflagrada neste sábado (28), traz reflexos a diversos setores da economia, com impactos também para o Brasil. Além da alta no preço do petróleo, pressão sobre os fretes marítimos e risco às exportações brasileiras para países do Golfo Pérsico, o fechamento do estreito de Ormuz pode afetar o comércio global de insumos e mercadorias, apontam especialistas ouvidos pelo Valor.
O pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e analista de geopolítica energética Luis Augusto Medeiros Rutledge acredita que o conflito no Irã pode “remodelar forçadamente as cadeias de suprimentos globais”. “Considero que hoje o impacto será muito maior no cenário global de energia e na cadeia de suprimentos de diversas fontes energéticas”, afirma. Pelo Estreito de Ormuz, via navegável entre Omã e Irã, passam mais de 20 milhões de barris de petróleo por dia, acrescenta.
Roberto Uebel, economista e professor de relações internacionais da ESPM, também ressalta que a paralisação do tráfego de navios pelo Estreito pode ter “impacto muito significativo” sobre a cadeia de suprimentos mundial, o que afeta o Brasil. Para ele, a interrupção na logística marítima é a principal questão gerada pelo conflito.
Pelo menos 150 petroleiros já lançaram âncora em águas abertas, evitando entrar no Estreito. A dinamarquesa Maersk, maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo, informou neste domingo (1) a suspensão do trânsito de seus navios pelo local. “A segurança de nossas equipes, navios e mercadorias dos clientes é a nossa prioridade número um. Suspendemos todo o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz até novo aviso”, observou, em comunicado. Além dela, as transportadoras Hapag-Lloyd, CMA CGM, Mitsui OSK Lines e NYK Lines também suspenderam a passagem.
A interrupção do transporte por essa área também pode afetar o Brasil via uma nova escalada dos preços globais de frete marítimo, a depender da extensão do conflito, avalia o consultor da Solve Shipping, Leandro Barreto.
Ele dá como exemplo os ataques da milícia houthis a navios cargueiros que passavam próximo ao Omã, em 2024. A ofensiva levou as empresas a optarem por uma rota mais longa, pela África do Sul. Ao mesmo tempo, muitas cargas já embarcadas e destinadas ao Golfo Pérsico foram obrigadas a ser descarregadas em Singapura, o que congestionou um dos principais hubs globais de transporte marítimo. No auge da crise, o atraso nas operações de Singapura alcançou 7 dias.
Como consequência, os preços médios do frete global triplicaram no primeiro semestre de 2024. O mesmo ocorreu com o preço do frete na rota Ásia-Brasil, cujos preços triplicaram no início do segundo semestre.
No caso do petróleo, Luis Rutledge, da UFRJ, observa que rotas alternativas podem ajudar a mitigar alguns dos efeitos dessa interrupção. Dois oleodutos aparecem como opções nesse cenário, segundo ele. Um deles vai do processamento de petróleo de Abqaiq, próximo ao Golfo Pérsico, até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, e é operado pela Saudi Aramco, estatal da Arábia Saudita. O outro oleoduto é operado pelos Emirados Árabes Unidos e contorna o Estreito de Ormuz, conectando campos petrolíferos terrestres ao terminal de exportação de Fujairah no Golfo de Omã.
Há preocupação com a situação ao longo prazo, se essas relações comerciais serão mantidas ou não”
De qualquer forma, a tendência para o preço do petróleo é de alta. Rutledge analisa que uma interrupção no fluxo no Estreito pode levar a commodity a bater US$ 120, no caso de uma guerra mais longa e intensa, “o que criaria uma pressão significativa sobre a economia global e aumentaria os custos de energia para todos os setores”.
Já o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Roberto Ardenghy, pondera que a situação é indefinida e que não imagina o barril a US$ 100. O IBP reúne as principais empresas do setor de óleo e gás com atuação no Brasil. Na sexta-feira (27), o barril do petróleo do tipo Brent fechou em alta de 2,45%, a US$ 72,48.
Na avaliação de Ardenghy, se o conflito perdurar, pode ser uma oportunidade para o Brasil aparecer como um substituto a produtores da região. O país é o nono exportador mundial de petróleo, com “produção muito confiável”, pela falta de conflitos geopolíticos, e tem petróleo de qualidade, do pré-sal, e com pouca emissão de carbono. Nesse caminho para conquistar outros mercados, no entanto, o Brasil deve enfrentar concorrência de países como Nigéria, Guiana e Guiné Equatorial.
Os efeitos do conflito sobre as exportações brasileiras para o Oriente Médio também preocupam. “Exportamos principalmente açúcar, frango e soja, é [um mercado] interessante para o Brasil”, afirma Roberto Uebel, da ESPM, embora ressalte que o Irã não seja o principal comprador desses produtos. “Há preocupação com a situação ao longo prazo, se essas relações comerciais serão mantidas ou não”.
O Brasil importa principalmente fertilizantes do Irã, mas Uebel afirma que há outras fontes de suprimento, na Ásia Central e no Leste Europeu. “Quando começou a guerra na Ucrânia, houve preocupação do governo brasileiro de diversificar seus fornecedores”, diz. (Com agências internacionais)