Geofísico revela como o Brasil achou o pré-sal, alerta que produção começa a cair em 2027 e explica por que a nova margem equatorial pode transformar o Amapá no estado mais rico do país

Geofísico revela como o Brasil achou o pré-sal, alerta que produção começa a cair em 2027 e explica por que a nova margem equatorial pode transformar o Amapá no estado mais rico do país
8 de dezembro de 2025

Por Carla Teles

Geofísico conta bastidores de como o Brasil achou o pré-sal, alerta que a produção do pré-sal começa a cair a partir de 2027, explica o papel da margem equatorial na nova produção de petróleo no Brasil e mostra como os royalties podem transformar o Amapá mais rico do Brasil

Ao longo das últimas décadas, o Brasil achou o pré-sal e mudou a própria trajetória energética. Uma descoberta que não veio por acaso, mas do trabalho silencioso de geofísicos, engenheiros e equipes embarcadas em navios que varrem o fundo do mar em busca de sinais de petróleo.

Agora, com a produção do pré-sal se aproximando do pico e uma produção de petróleo no Brasil que pode começar a cair já a partir de 2027, o país encara uma encruzilhada: ou abre uma nova fronteira na margem equatorial e cria condições para ter o Amapá mais rico do Brasil, ou volta a depender de importações e de um combustível cada vez mais caro.

A seguir, você entende como o Brasil achou o pré-sal, por que existe uma curva de produção que vai inevitavelmente descer e qual é o peso estratégico da margem equatorial para o futuro da produção de petróleo no Brasil.

Geofísica, navios e dados: como o Brasil achou o pré-sal

Antes de falar de riqueza, royalties e do possível Amapá mais rico do Brasil, é preciso voltar para a origem de tudo. A formação do geofísico que conta essa história começa na graduação em geofísica, área que estuda a física do planeta Terra: vulcões, terremotos, estrutura interna do planeta e também os recursos que geram riqueza, como minérios, água e, claro, petróleo.

Ele se formou no fim de 1999, justamente quando o monopólio da Petrobras sobre o petróleo foi quebrado. A abertura do setor atraiu dezenas de empresas estrangeiras e, no ano 2000, cerca de um terço da frota mundial de navios de aquisição de dados sísmicos estava no litoral brasileiro, mas quase não havia profissionais preparados para operar esses sistemas.

Foi nesse cenário que ele embarcou em um navio de aquisição de dados. Esses navios disparam bolhas de ar na água, gerando ondas que atravessam as camadas do subsolo e retornam para longos cabos cheios de sensores. Ao analisar como essas ondas se refletem, a geofísica consegue dizer onde há água, onde há gás e onde há reservatórios de petróleo.

Anos depois é que ele soube: os dados que ajudou a adquirir foram exatamente aqueles usados para que o Brasil achou o pré-sal. Não foi sorte. Foi tecnologia de ponta em um ambiente extremamente desafiador.

Sal, inteligência artificial e um reservatório escondido

O desafio do Brasil achou o pré-sal é que o petróleo está sob uma verdadeira montanha de sal. Nas áreas do pré-sal brasileiro, essa camada de sal pode ter cerca de 2 a 3 quilômetros de espessura, a vários quilômetros de profundidade abaixo do fundo do mar.

Esse sal é um problema duplo. Primeiro, na hora de enxergar. Quando as ondas sísmicas atravessam a camada de sal, elas perdem energia, são atenuadas. O sinal que volta para os sensores chega muito fraco. Visualizar o que existe abaixo do sal é como tentar enxergar através de um vidro grosso e embaçado.

Segundo, na hora de perfurar. O sal se comporta como um material plástico: se você abre um espaço, ele “fecha” de novo, como uma gelatina. A Petrobras precisou desenvolver tecnologias específicas para perfuração no sal, cimentando o poço à medida que avançava, construindo uma “parede” interna para o buraco não desmoronar.

Diante desse cenário, a equipe que participou da descoberta do pré-sal recorreu a técnicas de inteligência artificial quando elas ainda engatinhavam na indústria do petróleo, lá no início dos anos 2000. A ideia era usar algoritmos para melhorar a qualidade dos dados sísmicos degradados pelo sal e tentar interpretar o que estava escondido debaixo da camada.

O resultado foi o que o mundo inteiro já conhece: o Brasil achou o pré-sal, identificou um enorme sistema de reservatórios de petróleo em águas ultraprofundas e conseguiu transformar essa descoberta em produção em larga escala.

Curva de produção, fator de recuperação e o relógio do pré-sal

Toda grande reserva segue uma lógica parecida. Primeiro vem a descoberta, depois o desenvolvimento dos campos, o aumento da produção do pré-sal até um patamar máximo e, por fim, a queda.

Isso acontece porque não é possível tirar 100% do petróleo de um reservatório. Existe um fator de recuperação, que é a porcentagem do óleo que efetivamente pode ser extraída com as tecnologias disponíveis. No caso da Bacia de Campos, por exemplo, esse fator é da ordem de 28%: menos de 30% do que está no subsolo vira óleo produzido.

produção de petróleo no Brasil segue essa lógica. A Bacia de Campos teve seu auge e começou a cair. O pré-sal entrou como a nova grande fronteira, criando uma “ponte” entre a queda da produção antiga e o crescimento de uma nova província petrolífera.

Só que o relógio também está correndo para a produção do pré-sal. De acordo com o geofísico, a fase de depressão da curva do pré-sal começa por volta de 2027. Isso significa que, a partir daí, o volume extraído por dia tende a diminuir. Se nada substituir essa produção, a produção de petróleo no Brasil como um todo começa a encolher.

Ele resume o problema de forma direta: se o país deixar a curva cair sem ter uma nova “âncora” de produção, a dependência de importações dispara e o preço na bomba pode explodir. É por isso que, depois que o Brasil achou o pré-sal, o passo seguinte precisa ser encontrar a próxima grande fronteira.

Margem equatorial: a nova fronteira que pode mudar tudo

Essa nova fronteira já tem nome e localização: margem equatorial. Trata-se de uma extensa faixa de bacias sedimentares no Norte do país, em frente ao litoral do Amapá e de outros estados, com características geológicas semelhantes às áreas vizinhas onde a Guiana vive um boom de produção de petróleo.

Na visão do geofísico, a margem equatorial é uma oportunidade do tamanho do pré-sal – e até maior. Ele destaca que as descobertas na Guiana multiplicaram o PIB do país em poucos anos, justamente por causa do petróleo. Se algo semelhante acontecer no lado brasileiro, o impacto sobre a produção de petróleo no Brasil e sobre a arrecadação será enorme.

É aí que entra a expressão Amapá mais rico do Brasil. Como os campos da margem equatorial ficam na projeção do litoral amapaense, os royalties de produção seriam destinados ao estado. Com a plena exploração dessa fronteira, o Amapá teria potencial para se transformar, em termos de receita per capita, no Amapá mais rico do Brasil, com uma base fiscal comparável ou superior à de estados hoje muito mais industrializados.

Não por acaso, deputados federais e lideranças locais acompanham cada passo da discussão sobre licenciamento, meio ambiente e exploração na margem equatorial, de olho nos futuros royalties que podem reforçar tanto o orçamento estadual quanto a capacidade de investimento em infraestrutura, saúde e educação.

A encruzilhada: meio ambiente, IBAMA, Petrobras e o risco na foz do Amazonas

Se a margem equatorial pode garantir o futuro da produção de petróleo no Brasil e ajudar a fazer do Amapá mais rico do Brasil uma realidade, por que o tema gera tanta controvérsia?

O ponto sensível é o risco ambiental. A área da margem equatorial está relativamente próxima da foz do rio Amazonas, uma região de enorme relevância ecológica. Em caso de acidente grave, como um grande vazamento de óleo, existe o temor de que correntes marinhas levem o petróleo para a foz e, potencialmente, rio adentro, causando um desastre de grandes proporções.

A Petrobras, por sua vez, defende que suas simulações indicam o caminho oposto: em cenários modelados de vazamento, as correntes tenderiam a levar o óleo para outro lado, sem atingir a foz do Amazonas.

Nesse contexto, o embate se dá entre:

  • órgãos ambientais, como o IBAMA, preocupados em evitar qualquer risco elevado à Amazônia e ao litoral norte
  • a Petrobras e o governo, pressionados pela necessidade de garantir que a produção de petróleo no Brasil não entre em queda livre após a fase de auge da produção do pré-sal
  • governos locais e parlamentares que enxergam na margem equatorial a chance de ver o Amapá mais rico do Brasil, com royalties financiando uma transformação estrutural no estado

O geofísico alerta que a decisão não é simples, mas também lembra que não decidir é, na prática, optar pela redução da produção de petróleo no Brasil, aumentando a dependência de importações em um cenário global instável.

Royalties, cidades do petróleo e o efeito cascata da produção

Quando o Brasil achou o pré-sal, a principal beneficiada em royalties foi a Bacia de Santos, somando-se à Bacia de Campos. Municípios como Macaé e Campos dos Goytacazes se tornaram símbolos das chamadas “cidades do petróleo”, com orçamentos turbinados pelas receitas de produção.

Esses royalties não beneficiam apenas empresas e grandes investidores. Proprietários de áreas com produção terrestre recebem participações, municípios disputam a projeção de campos no litoral e estados inteiros reconfiguram seus orçamentos.

No caso da margem equatorial, a lógica se repete: uma produção robusta nessa região muda a escala dos repasses para o Norte do país. Se os projetos avançarem, o Amapá mais rico do Brasil deixa de ser apenas uma frase de efeito e passa a ser um cenário plausível, em linha com o que aconteceu em outros países que tiveram sua economia remodelada pelo petróleo.

Ao mesmo tempo, o geofísico lembra que o setor vive ciclos de euforia e crise. Ele cita a queda forte do preço do barril por volta de 2015–2016, quando o custo de produzir um barril no pré-sal era maior do que o preço de venda, o que levou à paralisação temporária de projetos até que a tecnologia ficasse mais barata e o mercado se ajustasse.

Petróleo, matriz energética e dependência dos derivados

Mesmo com o debate sobre energias renováveis e mudança da matriz energética, o especialista destaca um ponto incômodo e incontornável: não é apenas o combustível que depende do petróleo.

Gasolina, diesel e querosene de aviação podem até, em parte, ser substituídos por eletrificação ou por novas tecnologias no longo prazo. Porém, plásticos, componentes eletrônicos, fibras sintéticas, embalagens e uma infinidade de produtos do dia a dia continuam profundamente vinculados à cadeia do petróleo.

Ele faz um exercício simples: olhar em volta no ambiente em que você está agora. Boa parte do que você vê tem origem direta ou indireta em derivados do petróleo. Isso significa que, mesmo com uma transição lenta no transporte, haverá demanda substantiva de óleo por muito tempo.

Por isso, a descoberta do pré-sal e a possível abertura da margem equatorial não são apenas “apostas de curto prazo”, mas decisões que definem o papel do país na oferta global e no equilíbrio da produção de petróleo no Brasil nas próximas décadas.

O que está em jogo a partir de 2027

Resumindo a equação que o geofísico apresenta:

  • Brasil achou o pré-sal e garantiu uma fase de forte crescimento da produção
  • essa produção do pré-sal tende a entrar em declínio a partir de 2027
  • sem uma nova fronteira, a produção de petróleo no Brasil corre o risco de cair com força, elevando custos internos e a dependência de importações
  • margem equatorial surge como a melhor candidata para substituir e ampliar essa produção, com potencial para transformar o Amapá mais rico do Brasil em uma realidade construída à base de royalties e investimentos
  • a decisão passa por um equilíbrio delicado entre risco ambiental, necessidade energética e desenvolvimento regional

Em outras palavras, o momento em que o Brasil achou o pré-sal foi o capítulo que tirou o país de um cenário de maior vulnerabilidade. Agora, a forma como o país tratará a produção do pré-sal, a abertura da margem equatorial e o futuro da produção de petróleo no Brasil vai definir se essa história será de continuidade da riqueza ou de perda de protagonismo.

Fonte: Click Petróleo e Gás.
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