A Inpasa estrutura um projeto de R$ 22 bilhões para construir dois dutos para movimentação de combustíveis entre Sinop (MT) e Paulínia (SP), numa extensão de 2,1 mil quilômetros entre si.
Documentos obtidos pela agência eixosmostram que o projeto foi apresentado ao Ibama para o início do licenciamento ambiental federal.
O empreendimento está formalmente sob responsabilidade da IPA Participações Ltda.
O investimento representaria um salto na infraestrutura de escoamento do etanol de milho, cuja produção cresceu rapidamente nos últimos anos no Centro-Oeste.
Segundo dados apresentados pela empresa, 15 usinas de etanol de milho foram construídas na região nos últimos cinco anos.
A produção regional aumentou de 11,3 milhões para 16,2 milhões de m3 e já representa quase metade da produção brasileira de etanol.
A construção de um etanolduto para escoar a produção do Centro-Oeste não chega a ser uma novidade e fazia parte do plano original da Logum Logística — empresa fundada em 2011 e que reuniu, na ocasião, a Petrobras e gigantes do setor de etanol como a Cosan e Copersucar e as empreiteiras Odebrecht e Camargo Corrêa.
O projeto de sistema multimodal da Logum — que também contemplava o transporte rodoviário e hidroviário — previa a chegada de um etanolduto ao estado de Goiás, mas nunca foi integralmente implementado.
Atualmente, a companhia opera uma malha de dutos de mais de 1 mil quilômetros de extensão e um sistema que envolve ainda o transporte por rodovias e cabotagem e terminais em Uberaba (MG), Ribeirão Preto (SP) e Paulínia (SP).
Essas unidades recebem o etanol proveniente de usinas do interior do país por rodovia. Ao chegar aos terminais, o etanol é transportado pelos dutos para os polos de distribuição localizados em Barueri (SP), Guarulhos (SP), São Caetano do Sul (SP), São José dos Campos (SP) e Duque de Caxias (RJ), além de ser transportado para o terminal marítimo da Ilha D’Água (RJ), para carregamento de navios tanque (cabotagem e exportação).
A Logum também passou por mudanças no quadro societário, com a saída da Odebrecht e Camargo Corrêa em 2018.
A empresa é, hoje, uma sociedade entre Copersucar (30%), Raízen (30%), Petrobras(30%) e Uniduto (10%).
Os dois dutos planejados pela Inpasa serão instalados paralelamente e compartilharão uma única faixa de passagem.
Entre Sinop e Campo Grande, os dutos acompanharão principalmente a faixa da BR-163 e, a partir da capital sul-mato-grossense, seguirão até Paulínia utilizando, em grande parte do percurso, a faixa de servidão do Gasoduto Bolívia–Brasil (Gasbol).
O Projeto Pascal foi dividido em quatro trechos:
Os documentos apresentam números distintos sobre a quantidade de municípios atravessados.
Uma descrição da Ficha de Caracterização da Atividade (FCA) menciona 72 municípios — 21 em Mato Grosso, 11 em Mato Grosso do Sul e 40 em São Paulo. Outro trecho da documentação contabiliza 69 municípios, sendo 19 em Mato Grosso, dez em Mato Grosso do Sul e 40 em São Paulo, possivelmente em razão de ajustes posteriores no traçado.
O desenho reapresentado ao Ibama também ajustou o percurso para coincidir com as localizações previstas para os terminais de Sinop e Paulínia.
Uma vistoria aérea realizada no âmbito da análise ambiental constatou que a faixa de servidão do Gasbol se encontra, em geral, conservada e claramente delimitada.
A utilização de um corredor de infraestrutura já existente é apresentada como uma maneira de evitar a abertura de novas faixas e reduzir a supressão e a fragmentação da vegetação nativa.
O Ibama identificou, entretanto, áreas de sensibilidade ambiental e social ao longo do percurso. O corredor atravessa áreas agrícolas e de pastagem, remanescentes de vegetação nativa, áreas de preservação permanente, zonas úmidas e diversos cursos d’água.
Também foram verificadas edificações residenciais dentro ou imediatamente ao lado da faixa de servidão do Gasbol em pontos onde a expansão urbana avançou sobre o corredor.
Segundo a análise técnica, a situação exigirá atenção especial para segurança operacional, gerenciamento de riscos e restrições ao uso e à ocupação da faixa.
O órgão ambiental concluiu que a adoção de corredores já antropizados reduz novas intervenções, mas não elimina os impactos.
Áreas urbanizadas, travessias de grandes rios, zonas úmidas e segmentos de relevo acidentado precisarão ser aprofundados nos estudos ambientais.
A recomendação é que o futuro termo de referência cobre a avaliação de alternativas locacionais e a identificação do traçado de menor impacto. O documento servirá de base para a elaboração do Estudo e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima).
A Inpasa estima que a operação dos dutos poderá retirar das rodovias aproximadamente 225 mil viagens de caminhão por ano, equivalentes à utilização de cerca de 5,4 mil veículos e motoristas.
Parte dessa estrutura poderia ser direcionada às operações de primeira e última milha — entre usinas, terminais e bases de distribuição — ou ao transporte da crescente safra de grãos do Centro-Oeste.
De acordo com a apresentação do projeto, o transporte dutoviário emite até 80 vezes menos carbono por tonelada-quilômetro do que o modal rodoviário.
Em sua capacidade nominal, os dois dutos evitariam aproximadamente 500 mil toneladas de emissões de carbono por ano. Os números são projeções da própria companhia e ainda dependerão da configuração definitiva e do nível de utilização da infraestrutura.
A empresa projeta uma média de quatro mil postos de trabalho durante os cinco anos de construção, com pico de oito mil trabalhadores. Para a fase operacional, os documentos consultados apresentam estimativas de 185 a 407 empregos.
Além da redução de emissões e do tráfego rodoviário, a Inpasa aponta como benefícios uma maior estabilidade no abastecimento, menor exposição à volatilidade dos fretes e mais controle sobre a qualidade, a origem e a tributação dos combustíveis transportados.
O projeto também ajudaria a solucionar uma assimetria logística do Centro-Oeste.
A região ampliou rapidamente sua produção de etanol, mas está distante dos grandes centros consumidores e dos portos de exportação. Ao mesmo tempo, depende do transporte rodoviário de derivados produzidos ou recebidos no Sudeste.
A distância entre as novas usinas de etanol de milho e os principais mercados consumidores pode chegar a 1,7 mil quilômetros.
A Inpasa se apresenta como a maior biorrefinaria de grãos da América Latina e a segunda maior do mundo.
A empresa possui unidades em Sinop e Nova Mutum, em Mato Grosso; Dourados e Sidrolândia, em Mato Grosso do Sul; Balsas, no Maranhão; e Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, além de projetos em construção em Rondonópolis (MT) e Rio Verde (GO).
A companhia também prepara um novo terminal em Paulínia, com capacidade de armazenamento de 122 mil metros cúbicos. A estrutura faz parte de uma estratégia logística que inclui presença em portos, transporte por cabotagem, ativos ferroviários e operações em dutos já existentes.