Etanol lidera nova fase de crescimento do setor energético brasileiro

Etanol lidera nova fase de crescimento do setor energético brasileiro
27 de abril de 2026

Inserção do milho no setor reduziu a sazonalidade produtiva, tradicionalmente associada à entressafra da cana e melhorou a utilização dos ativos industriais.

De acordo com Mauro Matoso, chefe do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, os desembolsos do banco em projetos de transição energética alcançaram R$ 5,1 bilhões em 2025. Metade deste volume foi destinado ao etanol, especialmente a projetos vinculados ao processamento de milho.

Do ponto de vista econômico, o uso de instrumentos financeiros com custos mais competitivos, como o Fundo Clima, tem reduzido barreiras à implantação de novas unidades produtivas e ampliado o horizonte de planejamento do setor.

Já do prisma técnico, a sinergia entre cana e milho está associada às características agronômicas e industriais distintas de cada matéria-prima.

Isso porque a cana-de-açúcar apresenta elevada produtividade por hectare e menor intensidade de carbono, consolidando-se como base histórica da produção nacional. Já o milho oferece a vantagem da produção contínua ao longo do ano, permitindo que usinas mantenham operações fora do período tradicional de moagem da cana.

Essa convergência operacional tem favorecido o crescimento das chamadas usinas flex, capazes de alternar matérias-primas conforme disponibilidade e condições de mercado.

O resultado direto é a redução da sazonalidade produtiva, tradicionalmente associada à entressafra da cana, além de melhor utilização dos ativos industriais.

Na prática, esse modelo contribui para maior estabilidade nos preços e menor risco de desabastecimento, fatores relevantes tanto para o mercado interno quanto para a credibilidade internacional do Brasil como fornecedor de biocombustíveis.

A viabilidade econômica do etanol de milho também tem sido sustentada pela geração de coprodutos com alto valor agregado. O destaque é o DDG (farelo proteico utilizado na nutrição animal), que tem desempenhado papel crescente na intensificação da pecuária.

Ao fornecer insumos nutricionais de forma competitiva, o DDG contribui para elevar a eficiência produtiva do setor pecuário e liberar áreas agrícolas para outras culturas, fortalecendo a integração entre energia e produção de alimentos.

Esse modelo reforça a lógica de economia circular dentro do agronegócio, ampliando a rentabilidade das cadeias produtivas.

Participação do etanol da cadeia de milho

O avanço do etanol de milho vem provocando transformações relevantes na dinâmica de demanda pelo grão. Em menos de uma década, a participação do etanol no consumo nacional de milho saltou de aproximadamente 2% para mais de 25%, movimento que contribuiu para maior valorização do grão no mercado interno e estimulou investimentos logísticos e industriais em regiões produtoras, especialmente no Centro-Oeste.

Esse crescimento mostra que o etanol de milho deixou de ser uma alternativa marginal para se tornar um componente estruturante do mercado agrícola brasileiro.

Atualmente, o Brasil conta com cerca de 30 usinas dedicadas ao etanol de milho, incluindo as unidades com tecnologia flex. A capacidade instalada total gira em 13,4 bilhões de litros anuais.

Entretanto, considerando os projetos em construção e em fase de planejamento, a capacidade produtiva pode praticamente dobrar nos próximos anos, indicando que o setor ainda se encontra em fase de expansão e consolidação.

Esse movimento tende a ampliar significativamente a participação do milho na produção total de etanol. Hoje próxima de 30%, essa participação pode atingir cerca de 50% no médio prazo, alterando de forma definitiva a configuração produtiva do setor.

Como consequência, espera-se uma redução progressiva da volatilidade de preços e maior previsibilidade no abastecimento, especialmente durante períodos críticos da entressafra.

Aumento da demanda

Apesar das perspectivas positivas, especialistas apontam que o ritmo de expansão produtiva exigirá crescimento proporcional da demanda para evitar desequilíbrios de mercado.

Entre os desafios identificados estão a pressão sobre custos, especialmente relacionados à biomassa utilizada como fonte energética, e a necessidade de ampliar mercados para absorver coprodutos como o DDG, inclusive por meio de exportações.

Nesse contexto, novas aplicações energéticas aparecem como alternativas promissoras para ampliar o consumo de biocombustíveis.

Entre elas, destacam-se o Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e o uso de etanol no transporte marítimo, segmentos que apresentam elevado potencial de crescimento e forte demanda por soluções de baixa emissão de carbono.

Especialistas destacam que eficiência energética, diversificação de produtos e inovação contínua são pilares fundamentais para aumentar a competitividade do etanol brasileiro e reduzir a exposição a oscilações de preços e mudanças regulatórias.

Fonte: CNN Brasil.
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