Quem viveu a revolução do software livre nos anos 90 talvez esteja experimentando uma sensação curiosa diante do atual entusiasmo em torno da inteligência artificial. Para muitos profissionais mais jovens, a possibilidade de criar aplicações, agentes e soluções em poucos dias parece algo absolutamente novo, mas para quem já viu outras ondas tecnológicas nascerem existe um certo déjà vu.
Naquela época, o movimento open source prometia democratizar o acesso à tecnologia e, de fato, cumpriu um papel transformador, onde desenvolvedores do mundo inteiro criavam softwares gratuitos, compartilhavam conhecimento e permitiam que empresas inovassem sem depender exclusivamente de grandes fornecedores.
Parecia o cenário perfeito, mas havia uma armadilha pouco discutida. Em muitos casos, não existia uma organização por trás do produto, existia uma pessoa, e quando o criador se cansava, mudava de emprego ou simplesmente deixava de ter tempo para se dedicar àquele projeto, o software desaparecia junto com ele. O código continuava lá, mas a sustentação, evolução e segurança desapareciam. Três décadas depois, a IA parece estar reproduzindo o mesmo roteiro, só que em velocidade exponencial.
Nunca foi tão fácil construir uma solução tecnológica como hoje, qualquer profissional de qualquer área consegue criar aplicações funcionais com auxílio de modelos de linguagem e ferramentas de desenvolvimento baseadas em IA. Isso é extraordinário, mas também pode ser perigoso.
Tenho observado um fenômeno crescente dentro das empresas, em que um colaborador cria uma ferramenta para resolver um problema específico e a solução funciona tão bem que outros departamentos começam a utilizá-la. Logo surgem pedidos de melhorias, correções, integrações e suporte. Sem perceber, aquele profissional deixa de executar sua atividade principal e passa a ser o responsável informal por um software que, na prática, se tornou crítico para a operação. O problema é que pessoas não deveriam ser confundidas com plataformas.
Existe uma diferença enorme entre uma aplicação que resolve uma dor individual e uma solução preparada para atender uma organização inteira. Escalar exige arquitetura, documentação, monitoramento, governança, segurança, redundância e capacidade de evolução. Exige processos e não apenas genialidade.
Essa nova geração de aplicações desenvolvidas rapidamente, impulsionada pelo chamado “vibe coding”, traz ganhos impressionantes de produtividade, mas também cria uma falsa sensação de maturidade. Porque o fato de algo funcionar em um notebook ou para uma equipe não significa que esteja pronto para sustentar centenas de usuários, integrar sistemas críticos ou suportar milhares de transações simultâneas.
A inteligência artificial está tornando possível transformar qualquer colaborador em criador de tecnologia e isso é positivo, já que a inovação deixou de ser apenas dos departamentos de TI. Mas democratizar a criação não significa eliminar a necessidade de engenharia.
Talvez esse seja o maior equívoco do momento, acreditar que a IA substituirá arquitetos de software, engenheiros e especialistas em infraestrutura, minha percepção é exatamente a oposta. Quanto mais pessoas construírem soluções, maior será a necessidade de profissionais capazes de organizar esse ecossistema, garantir padrões, criar governança e assegurar que a inovação não se transforme em uma coleção de sistemas isolados e frágeis.
A grande discussão dos próximos anos será sobre quem consegue sustentar, governar e escalar. Porque, na prática, inovação não é apenas fazer algo funcionar, é fazer com que continue funcionando quando deixa de ser um experimento e passa a ser parte do negócio. Essa diferença, embora pareça técnica, é profundamente estratégica.
Sobre o autor: Fernando Baldin é Country Manager LATAM na AutomationEdge, com mais de 25 anos de experiência nas áreas de Gerência Comercial, Recursos Humanos, Inovação e Operações. Ao longo de sua trajetória, liderou iniciativas estratégicas de transformação organizacional em empresas de grande porte. Conta com diversas certificações de alto nível, como ITIL V3 Expert, ITIL Manager e HDI KCS, além de atuar como membro do conselho consultivo estratégico do Help Desk Institute.
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