O etanol sempre foi “tolerado” nos Estados Unidos, dentro de um sistema de combustíveis historicamente dominado pelos fósseis. Uma tempestade perfeita, porém, abriu uma pequena brecha na política de “drill, baby drill” do presidente Donald Trump.
O choque de oferta causado pela guerra com o Irã deve ser mais longo que o previsto, o que significa aumento no preço da gasolina em ano eleitoral. E o agronegócio quer do republicano que colocou na Casa Branca maior previsibilidade na demanda por insumos para biocombustíveis.
O resultado foi uma autorização federal para a venda de gasolina com maior teor de etanol, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os preços nas bombas e reforçar a oferta doméstica. A medida permite a comercialização do chamado E15, gasolina com 15% de etanol, em todo o território dos EUA a partir de 1º de maio. A mistura padrão permitida no país é de até 10%.
Este aumento da mistura é excepcional e tem validade de apenas 20 dias, que podem ser prorrogados sucessivamente se persistirem condições de “escassez extrema ou incomum” de combustível, define a lei nacional. Essa permissão depende de autorização da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA, na sigla em inglês) e costuma acontecer no verão, quando há um pico de demanda por combustível.
“A EPA continuará monitorando o fornecimento de combustível em conjunto com a indústria e parceiros federais. A agência estará pronta para estender as isenções emergenciais de combustível enquanto as circunstâncias do fornecimento de combustível justificarem tal ação”, diz o comunicado divulgado na noite desta quarta-feira (25).
A razão da mudança é segurança: energética e nacional. Mas a decisão cabe a um órgão ambiental porque elevar o teor de etanol aumenta a volatilidade da gasolina e, consequentemente, a poluição do ar por ozônio.
“Embora o anúncio de hoje seja uma ótima notícia para os agricultores, o E15 durante todo o ano é essencial para a economia agrícola, e o Congresso precisa encontrar uma solução sensata que proporcione a tão necessária segurança aos consumidores e agricultores”, disse a secretária de Agricultura dos EUA, Brooke L. Rollins, no mesmo comunicado.
O Congresso tenta aprovar uma lei para acabar com essa regulação baseada na qualidade do ar. A proposta é transformar o E15 em um combustível liberado o ano inteiro, em nível nacional. A pressão aumentou este ano com preços de energia mais altos. O debate tem apoio bipartidário relevante, mas os congressistas ainda não votaram um texto final.
A decisão sobre biocombustíveis coloca a Casa Branca em uma posição delicada, ao tentar equilibrar a pressão das refinarias, preocupadas com o preço da gasolina e do diesel, e a dos agricultores, que contam com os biocombustíveis para compensar as exportações perdidas por causa da guerra comercial decretada por Trump.
O presidente americano disse nesta quinta-feira (26) que seu governo anunciará medidas para ajudar os agricultores americanos. O setor aguarda ansiosamente o anúncio da política de mistura de biocombustíveis para este ano e o próximo.
A movimentação é acompanhada de perto pelos produtores de milho (principal matéria-prima do etanol nos EUA) e pelas refinarias de petróleo. Segundo a Reuters, o anúncio da quantidade de combustível renovável que deve ser misturada na gasolina e no diesel do país acontecerá ainda esta semana. Os volumes não devem diferir materialmente dos propostos pela EPA antes do início da guerra com o Irã, disseram as fontes.
O sistema americano não define uma mistura percentual obrigatória fixa, como no Brasil, mas sim o volume obrigatório de venda de combustíveis renováveis que as refinarias e importadores de gasolina e diesel precisam cumprir.
A proposta apresentada pela EPA – que pode ser confirmada por Trump – eleva o mandato total de biocombustíveis para níveis recordes: 91 bilhões de litros em 2026 e 92,6 bilhões em 2027 – um aumento de quase 10% em relação a 2025.
O avanço estaria ancorado no aumento do diesel renovável, que entra na cota de “biocombustíveis avançados”. O volume de etanol de milho seguiria estável em 56,8 bilhões de litros para cada um dos dois anos, uma vez que há o teto atual de mistura de 10% padrão.
Espera-se que as diretrizes impulsionem a demanda por matérias-primas como milho e soja. A expectativa pelo aumento de demanda fez o preço do óleo de soja subir pela quinta sessão consecutiva hoje.
Há pressão também de outros setores produtivos. Segundo a Bloomberg, grupos de transporte rodoviário e energia pressionaram o Congresso a restabelecer um incentivo fiscal para misturadores de biodiesel nos EUA. O crédito tributário de US$ 1 por galão para o biodiesel, frequentemente produzido a partir de soja, expirou em 2025.
O pedido veio após o anúncio sobre a decisão provisória sobre aumento da mistura do etanol.