Entenda o que são terras raras, minerais críticos e estratégicos

Entenda o que são terras raras, minerais críticos e estratégicos
24 de abril de 2026

Com depósitos amplos, o país avança na extração, mas ainda depende do exterior para capturar margens na transição energética

O Brasil voltou ao centro do mapa global de recursos naturais — desta vez, não pelo petróleo ou pelo minério de ferro, mas por um conjunto mais complexo de insumos que sustentam a transição energética. Terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos aparecem frequentemente no mesmo debate, mas não são sinônimos — e entender essa diferença ajuda a explicar por que o país ainda captura pouco valor, apesar da abundância geológica.

Terras raras são uma categoria química: um grupo de 17 elementos com propriedades magnéticas e eletrônicas essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de defesa. Já os minerais críticos são definidos pela economia e pelo risco: são insumos essenciais com alta vulnerabilidade de suprimento, segundo classificações do U.S. Geological Survey e da International Energy Agency.

Minerais estratégicos, por sua vez, refletem uma decisão política — no caso brasileiro, o Ministério de Minas e Energia inclui, entre outros, lítio, níquel, grafite, terras raras e nióbio em sua lista prioritária.

No subsolo, o país é competitivo. Estimativas do USGS indicam que o Brasil concentra cerca de 90% da produção global de nióbio e possui uma das maiores bases de terras raras fora da Ásia. No caso do grafite, figura entre os principais detentores de reservas, enquanto o lítio avança rapidamente no Vale do Jequitinhonha, com projetos que vêm atraindo capital estrangeiro. Ainda assim, esses números contam apenas metade da história — e talvez não a mais importante.

O desequilíbrio aparece na cadeia de valor. Dados recentes da IEA mostram que mais de 85% do processamento de terras raras e cerca de 70% da produção de materiais para baterias estão concentrados na China. É nessa etapa — refino químico, separação e manufatura — que se captura a maior parte da margem.

O Brasil, apesar de exportar concentrados minerais, ainda participa pouco desse segmento. Não é propriamente um problema de mineração; é um problema de química, de escala industrial e, sobretudo, de estratégia.

Desde 2021, o diagnóstico de que o país exporta recursos e importa tecnologia tornou-se quase um lugar-comum. O que mudou foi o contexto. A disputa entre Estados Unidos, Europa e China por cadeias seguras de suprimento elevou o valor geopolítico desses minerais.

A questão deixou de ser apenas econômica: passou a envolver segurança energética, política industrial e controle tecnológico.

O Brasil começa a reagir, ainda que de forma desigual. Projetos de terras raras em Goiás e Minas Gerais avançam, enquanto iniciativas ligadas à cadeia de baterias tentam ganhar escala. O Plano Nacional de Mineração e diretrizes recentes do MME sinalizam uma tentativa de integração da cadeia — mas os investimentos ainda se concentram na etapa extrativa.

O salto para o refino e a manufatura segue travado por capital intensivo, tecnologia e previsibilidade regulatória — três variáveis que não se resolvem apenas com boa geologia.

Há, portanto, um descompasso. O país tem ativos relevantes, mas ainda não definiu com clareza como transformar vantagem geológica em vantagem competitiva. Em um mercado em que o valor se desloca da mina para o laboratório e, depois, para a indústria, isso não é um detalhe técnico — é onde a disputa efetivamente acontece.

O que observar agora

Mais do que novos projetos de mineração, o sinal mais claro de mudança virá de Brasília. A tramitação de propostas como o PL 414/2021, que trata da modernização do setor elétrico e pode influenciar a demanda por insumos críticos, tende a moldar o ambiente de investimentos. Também entram no radar iniciativas ligadas à política industrial e à agregação de valor, como o PL 3.771/2023, que discute instrumentos de estímulo à transformação mineral no país.

Em paralelo, debates no Congresso sobre conteúdo local, financiamento e segurança regulatória devem definir se projetos de refino de lítio, separação de terras raras e produção de materiais para baterias ganharão escala.

Sem esse arcabouço, o capital tende a permanecer concentrado na etapa extrativa. No fim, o teste é menos geológico do que institucional: não se trata de descobrir novos recursos, mas de decidir — por meio da legislação — se o Brasil quer capturar valor industrial ou continuar exportando potencial.

Fonte: CNN Brasil.
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