Por Sofia Schuck
O Brasil reúne uma combinação rara: energia renovável abundante, biomassa, minerais críticos e acesso estratégico a mercados globais em expansão.
É sobre essa vantagem competitiva e natural que o país constrói uma das carteiras mais promissoras de indústria limpa do mundo.
É o que revela o novo levantamento do Global Project Tracker, da Mission Possible Partnership, divulgado nesta segunda-feira, 8, após mapear 34 projetos brasileiros nos segmentos de combustível sustentável de aviação (SAF), amônia, metanol e alumínio verde, com potencial de US$ 306 bilhões em investimentos.
Desse total, US$ 219 bilhões estão vinculados à infraestrutura de energia renovável e US$ 87 bilhões a ativos industriais.
O trunfo do Brasil, segundo o relatório, tem origem justamente na energia. A abundância de renováveis o posiciona para suprir insumos de baixo custo que serão cada vez mais determinantes para a competitividade industrial global.
“Em um cenário cada vez mais fragmentado e instável, a dependência de combustíveis fósseis tem se mostrado uma fonte de exposição a choques de preços, interrupções no fornecimento e crises econômicas”, afirma Faustine Delasalle, CEO da Mission Possible Partnership, se referindo aos efeitos dramáticos da guerra no Oriente Médio.
Para a executiva, os países que desenvolvem sistemas industriais mais limpos podem conquistar maior controle sobre os elementos essenciais de suas economias.
O avanço já é percebido na prática. Três plantas de alumínio de baixo carbono já estão em operação no país. Globalmente, 19 projetos de indústria limpa alcançaram a Decisão Final de Investimento (FID) nos últimos seis meses, mais que o dobro do ritmo registrado um ano antes e somando cerca de US$ 43 bilhões em investimentos confirmados.
No Brasil, o marco mais recente é da Acelen Renováveis, que obteve FID para sua biorrefinaria de SAF de US$ 1,5 bilhão na Bahia e se consolidou como o primeiro projeto apoiado pelo Acelerador da Transição Industrial (ITA) no país a atingir essa etapa.
A planta usará macaúba, oleaginosa nativa capaz de crescer em solos de baixa fertilidade e sem competir com culturas alimentares, como matéria-prima.
Segundo Marc Farre Moutinho, líder do ITA no Brasil, a Acelen é um exemplo perfeito do apoio em ação.
“Para os projetos de SAF, temos trabalhado para melhorar o acesso do bio-SAF brasileiro de alta integridade aos mercados internacionais — esse acesso é vital para garantir os contratos de compra que permitiram à empresa obter seu financiamento“, destaca.
A estratégia faz parte de um movimento mais amplo da iniciativa de descabonização que nasceu ainda na COP28, em Dubai.
Em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o ITA passa a apoiar 15 projetos no Brasil, representando mais de US$ 23 bilhões (R$ 125,35 bilhões) em oportunidades de investimento.
O portfólio inclui iniciativas de empresas como Fortescue, European Energy, Votorantim Cimentos, Alcoa, Gerdau, CBA e Atlas Agro, e abrange desde SAF até cimento, alumínio e amônia de baixo carbono em setores que juntos respondem por quase um terço das emissões globais.
“Apoiamos aqueles que contribuem com visão de neutralidade climática para a indústria do futuro”, afirmou Moutinho, em entrevista recente à EXAME.
“Diferentes soluções, em escalas distintas, mas com impacto positivo nas cadeias de produção industrial”, complementa.
O relatório aponta três prioridades para transformar o momento em mudança estrutural: criar mercados mais robustos para produtos limpos, desenvolver parcerias comerciais entre regiões com energia barata e grandes centros de demanda, e mobilizar capital público e privado para reduzir os riscos de projetos pioneiros.