Por Paulo Goethe
Ferro, níquel, grafita, tungstênio, metais preciosos, minerais radioativos e matérias-primas de fertilizantes estão entre os minerais críticos e estratégicos, usados na transição energética e na indústria de alta tecnologia e alvo de uma política nacional com até R$ 7 bilhões em incentivos. O Nordeste tem 12.389 dos 129.423 empregos do Brasil ligados a esses minerais, cerca de 10% do total, e duas cidades se sobressaem: Jaguarari, na Bahia, com 2.052 trabalhadores, e Currais Novos, no Rio Grande do Norte, com 297 das 306 vagas de tungstênio do país. Os dados, referentes a 2025, estão disponíveis no Portal de Minerais Críticos e Estratégicos da Agência Nacional de Mineração (ANM), lançado na quarta-feira (14).
Os minerais críticos e estratégicos (MCE) respondem por 57% das vagas da indústria extrativa mineral, o setor das empresas que tiram minério do solo, e o número cresceu 8,6% entre 2023 e 2025. O ferro sozinho reúne 70.024 desses empregos, e pesa sobretudo em Minas Gerais e no Pará. Pela soma dos dados municipais do portal da ANM, 48.238 das 62.631 vagas mineiras no segmento e 13.256 das 27.047 paraenses são do ferro. A Bahia aparece em terceiro, com 9.147, e nenhum outro estado do Nordeste chega a 700.
O Nordeste tem só 773 vagas no ferro, mas concentra o emprego de minérios mais raros. A região soma 305 das 306 vagas de tungstênio do país, 275 das 369 de minerais radioativos e 319 das 867 de quartzo. São atividades pequenas em número de trabalhadores, mas fazem parte da lista de minerais que a política nacional quer valorizar.
O emprego nos MCE tem mais gente com diploma que o resto da mineração, e paga melhor a quem estudou. No país, 30.707 trabalhadores do segmento têm curso superior, contra 7.393 dos 97.211 empregados nos demais minérios. Quem tem diploma nos MCE recebeu remuneração mediana de R$ 11.856,16 em 2025, e quem parou no ensino fundamental, R$ 3.218,08. A mediana é o valor do meio da lista de salários: metade ganha mais, e a outra metade, menos.
Jaguarari tem mais trabalhadores em minerais críticos do que qualquer estado nordestino fora a Bahia. Quase todas as vagas estão no grupo de outros metálicos não ferrosos, que reúne metais diferentes do ferro e dos metais preciosos, e só Marabá, no Pará, emprega mais gente nesse grupo.
Na cidade fica a mina de Caraíba, da Ero Copper, uma das principais minas de cobre do país listadas no painel de minerais estratégicos da ANM. A mesma empresa opera as minas Vermelhos, em Juazeiro, e Surubim, em Curaçá, também na Bahia. O Brasil produziu 1,65 milhão de toneladas de concentrado de cobre em 2025, com valor de R$ 30,8 bilhões, e o metal vai para cabos, fios e equipamentos elétricos e eletrônicos.
A mineração da cidade também pesa nas contas públicas. Jaguarari recolheu R$ 29,1 milhões de Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) em 2025, pelo sistema de arrecadação da ANM. A CFEM é o royalty que as mineradoras pagam pela exploração do minério, e o valor deixou a cidade em segundo lugar na Bahia, atrás de Jacobina, com R$ 51,3 milhões, num estado que recolheu R$ 237,8 milhões no ano.
O perfil é de nível médio. Dos 2.052 empregados, 1.792 têm ensino médio, 239 têm curso superior e 21 pararam no fundamental, e 244 são mulheres. Mesmo assim, o salário fica acima do resto da mineração da cidade. A mediana dos empregos ligados aos MCE em Jaguarari é de R$ 6.268,14. Nas 24 vagas locais fora dessa lista, fica em R$ 5.493,24.
Quase todo o emprego ligado ao tungstênio no Brasil está em Currais Novos, no Seridó potiguar, a 188 quilômetros de Natal. A cidade é tradicional produtora de scheelita, o minério do qual se extrai o metal, e o estado tem as principais reservas do país, de acordo com a ANM. As outras nove vagas do país ficam em Bodó, também no Rio Grande do Norte, com 8, e em Rio Maria, no Pará, com 1.
O tungstênio ficou mais caro. O preço médio do metal passou de US$ 19,22 para US$ 76,98 o quilo, pelo levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Rio Grande do Norte. “O preço do produto se valorizou no mercado internacional, por ter aumentado a demanda do mineral em setores como defesa, baterias, microchips e carros eletrificados”, afirmou David Góis, gerente de Negócios, Inovação e Tecnologia do Sebrae potiguar, em entrevista em agosto para o Movimento Econômico.
O país produziu 367,6 toneladas de concentrado de tungstênio em 2025, com valor de R$ 48,3 milhões, pelo painel de minerais estratégicos da agência. O concentrado é o minério já separado da rocha, com 60% a 70% de óxido de tungstênio. As principais minas em produção ficam em Currais Novos: Brejuí, da Mineração Tomaz Salustino, Barra Verde, da Mineração Barra Verde, e Boca da Laje, da Mineração Boca de Laje. Mesmo assim, o Brasil importou US$ 54,6 milhões em tungstênio em 2025, somando minério e produtos da transformação mineral, mais que os US$ 18,1 milhões exportados.
De acordo com David Góis, nove empresas estão cadastradas para explorar tungstênio em Currais Novos, e há outras em Bodó, Messias Targino e Caiçara do Rio do Vento. A ANM conta 4 áreas com lavra ativa, a extração propriamente dita, e 25 em estudo de viabilidade no país, em dados de 25 de setembro de 2026. A cidade tem ainda 230 empregos em metais preciosos e soma 529 trabalhadores em minerais críticos, a maior parte das 591 vagas do estado no setor.
O salário, porém, é mais baixo que o de Jaguarari. A mediana desses empregos em Currais Novos é de R$ 2.462,42, acima dos R$ 2.359,02 pagos nas vagas da cidade fora da lista de MCE. Do total, 92 trabalhadores têm curso superior e 58 são mulheres.
Jaguarari não está sozinha no mapa baiano. A cidade de Jacobina soma 1.676 vagas em metais preciosos, a terceira do país nesse grupo, com mediana de R$ 5.366,20, e no mesmo segmento aparecem Barrocas, com 746, e Santaluz, com 290.
A cidade de Itagibá é a segunda do país em empregos ligados ao níquel, com 469, e teve a terceira maior arrecadação de CFEM da Bahia em 2025, R$ 26,8 milhões. Em Caetité ficam 270 das 369 vagas de minerais radioativos do Brasil. Maracás, com 451, e Campo Formoso, com 274, empregam em outros metálicos não ferrosos, e Campo Alegre de Lourdes tem 212 vagas, quase todas em fertilizantes.
Fora da Bahia, o emprego em MCE se concentra em uma ou duas cidades por estado. Rosário do Catete tem as 676 vagas de Sergipe, todas em fertilizantes, e Godofredo Viana, no Maranhão, tem 354 em metais preciosos. O portal da ANM não informa quais empresas empregam esses trabalhadores.
Os maiores salários da região estão onde há mais gente com diploma. Entre as cidades nordestinas com pelo menos 50 vagas em MCE, Salvador tem a maior mediana, de R$ 14.084,57, e 83 dos seus 103 trabalhadores do setor têm curso superior. Nas 218 vagas da capital baiana nos demais minérios, a mediana cai para R$ 3.464,03.
A cidade de Caetité vem em segundo, com R$ 10.541,55, e 105 dos 289 empregados com curso superior. Em Irecê, também na Bahia, a mediana é de R$ 5.125,35 nos MCE e de R$ 2.383,73 no restante da mineração.
Na capital potiguar, a relação se inverte. Em Natal, as vagas em MCE pagam mediana de R$ 1.492,70, abaixo dos R$ 2.085,19 das demais vagas de mineração da cidade.
No país, as mulheres ocupam 22% das vagas em minerais críticos, mas a fatia muda de acordo com o cargo. Elas têm 40,8% dos postos de gerente, com 2.315 vagas, contra 19,3% dos de diretor e 16,1% dos de supervisor, pelo painel da ANM.
Em algumas cidades do Nordeste, a mediana delas supera a dos homens. Em Itagibá, as mulheres recebem R$ 4.869,73 e os homens, R$ 4.125,59. Em Craíbas, em Alagoas, onde fica a mina de cobre Serrote, da Baiyin Nonferrous, são R$ 4.382,09 contra R$ 4.204,87, e em Currais Novos, cerca de R$ 3,5 mil contra R$ 2.419,76.
O caso mais forte está em Piatã, na Chapada Diamantina, cidade de onde saiu o café campeão do Cup of Excellence Brazil em 2022. A cidade tem 137 vagas em minerais críticos, 130 delas ligadas ao ferro. As 24 mulheres do setor têm mediana de R$ 9.953,71, e os 113 homens, de R$ 3.411,61.
Em outras cidades, a diferença corre no sentido contrário. Em Rosário do Catete, a mediana das mulheres é de R$ 3.491,42, contra cerca de R$ 6,1 mil dos homens. Em Andorinha, na Bahia, elas recebem R$ 2.279,75, e eles, cerca de R$ 4,5 mil.
A Política Nacional para Minerais Críticos e Estratégicos foi sancionada pelo governo federal em 16 de setembro. Dos R$ 7 bilhões previstos, R$ 2 bilhões vão para o Fundo Garantidor da Atividade Mineral e R$ 5 bilhões para o beneficiamento e a transformação, etapas em que o minério é processado antes de chegar à indústria.
O objetivo é fazer com que esses minerais ganhem valor dentro do país, de acordo com o Palácio do Planalto. “São aqueles que tornam possível a transição energética, a indústria de alta tecnologia, a indústria de defesa e os data centers, vitais para o progresso da inteligência artificial“, afirmou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, na sanção.
As mineradoras também vão contribuir com recursos para o fundo e para pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. A lei cria ainda o Conselho Nacional de Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, que vai homologar operações societárias e acordos internacionais considerados sensíveis.