O Brasil dispõe de uma base científica relevante: o país ocupa a 13ª posição mundial e produção de artigos científicos, com a publicação de cerca de 458 mil trabalhos entre 2019 e 2023, segundo levantamento apresentado pela Capes com base em dados da plataforma acadêmica Clarivate.
Mas essa capacidade nem sempre se traduz em soluções para os problemas tecnológicos enfrentados pela indústria, em particular no campo da descarbonização industrial. Nesse caso, o descompasso não decorre apenas da disponibilidade de conhecimento ou da qualidade da pesquisa.
Ele está relacionado a três problemas: a forma como os incentivos acadêmicos orientam as agendas de pesquisa, a fragmentação das competências existentes e a baixa articulação entre universidade e indústria.
A primeira questão é que há um desalinhamento dos incentivos acadêmicos. Atualmente, os mecanismos de reconhecimento, avaliação e financiamento da pesquisa atribuem peso significativo à produção científica de alta visibilidade e à inserção em redes internacionais, mas isso não necessariamente direciona os pesquisadores para os problemas tecnológicos mais relevantes para o país.
Esse desalinhamento atua de duas formas. A primeira é direta: pesquisadores têm incentivos para atuar em temas capazes de gerar maior circulação e reconhecimento na comunidade científica internacional. A segunda é menos evidente: a literatura de maior visibilidade também fornece os referenciais a partir dos quais os problemas de pesquisa são formulados.
Quando a produção científica brasileira se apoia predominantemente em agendas, conceitos e prioridades construídos em outros contextos, corre-se o risco de importar não apenas temas de pesquisa, mas também a própria forma de interpretar os desafios tecnológicos.
As agendas científicas internacionais de maior visibilidade são fortemente influenciadas pelas condições econômicas, tecnológicas e ambientais das economias avançadas. Parte significativa dessas agendas concentra-se, por exemplo, na eletrificação de processos industriais e na produção de hidrogênio com baixas emissões de carbono.
Embora esses temas também sejam relevantes para o Brasil, sua centralidade pode reduzir a visibilidade de rotas e problemas associados às características específicas da indústria e dos recursos brasileiros, como o aproveitamento sustentável da biomassa e do biocarbono e a descarbonização de setores industriais intensivos em emissões, entre eles a siderurgia, a metalurgia e a produção de cimento.
Cria-se, assim, um descompasso entre os temas capazes de impulsionar a carreira acadêmica dos pesquisadores e aqueles necessários à ampliação da capacidade tecnológica nacional.
O uso crescente de sistemas de inteligência artificial pode reforçar esse fenômeno. Ao facilitar o acesso e a síntese da literatura mais disponível e mais citada, essas ferramentas podem ampliar a influência das referências que já ocupam posição dominante na produção científica internacional.
Seu uso, portanto, exige capacidade crítica para identificar o que essas referências explicam bem — e também aquilo que deixam de enxergar nas condições brasileiras.
Um segundo problema está na própria organização da pesquisa brasileira. A descarbonização industrial ainda não constitui, no Brasil, um sistema de pesquisa, desenvolvimento e inovação tão articulado quanto os existentes nos setores de petróleo, gás natural e eletricidade. O país dispõe de competências científicas relevantes, mas elas permanecem distribuídas entre diferentes disciplinas e setores industriais.
As pesquisas relacionadas à siderurgia, por exemplo, concentram-se sobretudo na metalurgia. A descarbonização do cimento aparece associada às áreas de materiais e processos químicos, enquanto o hidrogênio é investigado principalmente nos campos da química, da eletroquímica e da energia.
O problema não é a especialização disciplinar em si. A dificuldade é que a descarbonização de um processo industrial raramente pode ser resolvida dentro de uma única disciplina. Ela exige combinar conhecimento sobre processos produtivos, energia, materiais, infraestrutura, custos, regulação e inovação.
Quando essas competências permanecem organizadas em comunidades pouco conectadas, torna-se mais difícil construir programas de pesquisa orientados a missões tecnológicas concretas.
Há, por fim, um terceiro problema: a baixa articulação entre a produção de conhecimento e os processos de inovação das empresas. Os dados da Pintec ajudam a dimensionar essa lacuna: em 2024, apenas 32% das empresas industriais inovadoras com 100 ou mais empregados mantinham algum tipo de cooperação ativa para inovar, e apenas 18,7% cooperavam com a infraestrutura de ciência, tecnologia e inovação.
Universidades podem desenvolver conhecimento de fronteira sem conhecer suficientemente os gargalos tecnológicos enfrentados pela indústria. Empresas, por sua vez, nem sempre dispõem dos mecanismos, capacidades ou incentivos necessários para transformar seus problemas tecnológicos em agendas de pesquisa capazes de mobilizar universidades e institutos de pesquisa.
O problema, portanto, não está apenas na oferta de conhecimento científico, mas na fragilidade dos mecanismos que conectam demanda tecnológica e capacidade científica.
Enfrentar esse descompasso exige atuar sobre essas três dimensões. Primeiro, é importante aprofundar mudanças já em curso nos mecanismos de financiamento e avaliação, ampliando o reconhecimento não apenas da produção científica, mas também da contribuição da pesquisa para a construção de capacidades tecnológicas no país.
A revisão recente do sistema de avaliação da pós-graduação pela Capes, com maior ênfase em impacto, inovação e transferência de conhecimento, representa um avanço nessa direção.
Segundo, é necessário organizar programas interdisciplinares em torno de missões concretas de descarbonização industrial, capazes de articular competências hoje dispersas.
Terceiro, é preciso fortalecer mecanismos permanentes de interação entre universidades, institutos de pesquisa, empresas e governo, de modo que problemas industriais possam gerar agendas de pesquisa e que o conhecimento produzido possa avançar em direção a soluções tecnológicas.
O objetivo não deve ser abandonar a pesquisa de excelência nem rejeitar a cooperação internacional. Também não se trata de substituir referências internacionais por uma agenda científica fechada em si mesma.
A inserção internacional é indispensável para uma ciência de qualidade. O desafio é garantir que essa inserção seja acompanhada da capacidade de formular criticamente os problemas brasileiros e construir agendas de pesquisa a partir das condições tecnológicas, produtivas e ambientais do país.
O Brasil não precisa construir esse sistema do zero. Muitas das peças necessárias já existem. A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), por exemplo, acumulava em setembro de 2026 mais de 4,4 mil projetos de PD&I, mais de 3 mil empresas atendidas e cerca de R$ 9 bilhões em investimentos desde sua criação. Instituições como os Institutos Senai de Inovação e a própria Embrapii já aproximam empresas e pesquisa aplicada.
Na rodada mais recente do Eco Invest Brasil, homologada em outubro de 2026, foram previstos R$ 49,95 bilhões em investimentos potenciais em seis cadeias estratégicas, incluindo pelo menos R$ 250 milhões, já no primeiro ano, em recursos não reembolsáveis para pesquisa aplicada e empreendedorismo de base tecnológica.
O país também possui experiências que demonstram sua capacidade de construir competências tecnológicas em torno de objetivos estratégicos, como a Embraer e a cadeia do etanol. O problema é que essas peças ainda não compõem, no campo da descarbonização industrial, um sistema suficientemente articulado.
O próximo passo não é necessariamente criar instituições, mas organizar capacidades existentes, preencher lacunas e direcionar financiamento, pesquisa e cooperação tecnológica para missões industriais de longo prazo.
Stefania Relva é diretora de Transformação Industrial do Instituto E+ Transição Energética.