A energia solar se tornou um dos pilares da transição energética no Brasil. No entanto, à medida que a tecnologia avança e os sistemas envelhecem, surge um desafio ainda pouco explorado: o destino dos módulos fotovoltaicos ao fim de sua vida útil.
Embora o país amplie sua capacidade instalada ano após ano, a discussão sobre reciclagem ou reaproveitamento dos painéis ainda avança lentamente. E, conforme especialistas explicam, o volume de resíduos cresce em ritmo acelerado.
Para compreender o cenário atual, o Canal Solar ouviu Everton Gois, engenheiro eletricista e sócio fundador da Solar 55, uma das empresas pioneiras do país no tratamento de resíduos fotovoltaicos. Ele descreve o estágio brasileiro da reciclagem como “embrionário”, assim como ocorre em grande parte do mundo.
De acordo com Gois, a taxa real de reciclagem ainda está muito abaixo do necessário. “Hoje estima-se que apenas cerca de 10% dos painéis estejam sendo de fato reciclados e desviados de aterros. Estimamos que o percentual de reciclagem acompanhe a média nacional de resíduos sólidos em torno de 4%”, explicou.
Enquanto isso, mercados como Estados Unidos e União Europeia avançam com metas rígidas e legislações específicas. No continente europeu, por exemplo, a diretriz determina até 80% de reciclagem dos módulos descartados.
No Brasil, porém, muitos painéis continuam sendo tratados como sucata comum, o que compromete o reaproveitamento de materiais valiosos e agrava impactos ambientais.
Relatórios da IRENA (Agência Internacional para as Energias Renováveis) projetam que o Brasil deve acumular de 3 a 8 mil toneladas de resíduos solares até 2030. Em nível global, esse volume pode ultrapassar 80 milhões de toneladas até 2050.
Gois observa que o problema tende a se intensificar rapidamente:
“É importante frisar que esse ainda é um primeiro movimento de descarte. O grande tsunami de resíduos acontecerá entre 2045 e 2055, quando a maior parte dos módulos hoje em operação alcançarem o fim de sua vida útil de 25 a 30 anos.”
O engenheiro ressalta ainda que o país sequer possui uma cadeia estruturada, destacando obstáculos logísticos e a falta de conscientização de instaladores e empresas.
Embora o reaproveitamento pareça uma alternativa mais econômica e imediata, especialistas alertam para seus limites. Segundo Gois, módulos que apresentam defeitos estruturais podem se tornar perigosos.
“Fissuras no vidro podem gerar pontos quentes nas células e comprometendo o desempenho e, em situações extremas, até oferecendo risco de incêndio por superaquecimento”, afirmou.
Esse cenário faz da reciclagem um caminho inevitável, especialmente diante do crescimento exponencial do setor. Países como Alemanha e Estados Unidos já avançam com iniciativas privadas robustas, enquanto a União Europeia se apoia na Diretiva WEEE, que responsabiliza legalmente os fabricantes pelo ciclo de vida dos equipamentos.
Para Gois, esse é o caminho para um setor solar realmente sustentável:“A reciclagem dos módulos fotovoltaicos deve ser vista como uma etapa natural e necessária dentro da cadeia do mercado solar.”
A experiência internacional mostra que a existência de regras claras acelera a criação de cadeias logísticas e incentiva o desenvolvimento de tecnologias de reciclagem. Na Europa, a Diretiva WEEE exige uma taxa mínima de coleta de 85% dos equipamentos colocados no mercado e uma taxa mínima de 80% de recuperação.
No Brasil, embora o país já tenha ferramentas jurídicas aplicáveis, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) e o Decreto nº 10.240/2020, ainda falta regulamentação direta voltada aos módulos solares.
Gois destaca que, na prática, o descarte acaba recaindo sobre o consumidor final, que enfrenta custos elevados e escassez de pontos de coleta. O setor, segundo ele, ainda opera sem diretrizes específicas que garantam responsabilidade compartilhada entre fabricantes, distribuidores e integradores.
Para mudar esse cenário, o engenheiro defende uma atuação mais ativa das empresas que integram a cadeia produtiva:
“Cabe aos fabricantes, distribuidores e integradores o papel de estruturar e financiar sistemas de logística reversa, incluindo a criação de pontos de recebimento, a cobertura dos custos de transporte e a garantia da destinação final correta.”
O avanço da energia solar no Brasil abre portas para um futuro mais limpo e eficiente. Entretanto, para que o setor mantenha sua sustentabilidade, o país precisa enfrentar de forma urgente a gestão dos resíduos fotovoltaicos. O debate sobre reaproveitamento, logística reversa, responsabilidade dos fabricantes e marcos regulatórios robustos deve ganhar força nos próximos anos.
E, conforme alertam os especialistas, quanto mais cedo essa estrutura for criada, menor será o impacto ambiental produzido pela tecnologia que simboliza a transição energética brasileira.