Por Camila Maia
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) avalia que eventuais contratos para viabilizar usinas reversíveis no Brasil terão que calibrar com cuidado os prazos de implantação, para evitar que atrasos criem lacunas no planejamento da expansão de potência do sistema elétrico. A preocupação é que cronogramas otimistas demais levem o setor a contar com um recurso que não estará disponível no momento necessário, especialmente se esses empreendimentos forem contratados em leilões de reserva de capacidade (LRCap).
O alerta foi feito pelo presidente da EPE, Thiago Prado, durante evento promovido pela Copel em parceria com a MegaWhat, em Brasília, sobre o papel do armazenamento hidráulico na segurança do sistema elétrico.
A discussão ocorre em meio à expectativa de avanço na definição de um modelo de contratação para usinas reversíveis no país, tecnologia vista como alternativa para ampliar a flexibilidade do sistema diante do crescimento das fontes renováveis variáveis. Uma das possibilidades na mesa é contratar os empreendimentos em LRCaps, em um certame voltado para armazenamento que também inclua baterias químicas, conhecidas pela sigla BESS.
Segundo Prado, a definição do prazo de implantação será uma das variáveis centrais para desenhar um eventual mecanismo competitivo de contratação. Ele afirmou que o setor precisa evitar o risco de contratar potência para determinado ano e depois enfrentar postergações que deixem o sistema sem a capacidade planejada.
“Muito otimismo traz risco na execução, você começa a fazer rolagem de contrato, o que se informa no mecanismo de reserva de capacidade é muito ruim. Você está contando que uma potência vai entrar, por exemplo, em 2030, e ela rolar para 31, ela cria um buraco”, afirmou.
Prado disse que atrasos desse tipo podem exigir medidas adicionais de gestão do portfólio contratado. “Aí você começa a ter que ficar discutindo, tem que fazer gestão de portfólios, se tiver alguma contratada para 31, tentar antecipar. Então, isso traz riscos e custos para o sistema”, disse.
O presidente da EPE afirmou que experiências internacionais indicam prazos entre sete e dez anos para implantação de projetos de usinas reversíveis. Segundo ele, embora já existam relatos no Brasil de projetos com prazos mais curtos, de quatro a cinco anos, a definição contratual precisa considerar uma janela confortável.
“A gente pode ver que, quando a gente escuta os desenvolvedores aqui no Brasil, é um prazo muito curto, embora a gente não tenha nenhuma construída no Brasil, mas quando a gente olha fora, os prazos variam com um conforto entre sete a dez anos”, afirmou.
Prado disse que a contratação deve buscar uma janela adequada para reduzir o risco de transferência de custos ao sistema. “Essa calibragem de prazo também é importante para que a gente possa fazer a contratação em um ano adequado e em um ano correto, sem transferir riscos”, afirmou.
Segundo ele, a EPE ainda avalia pontos como tempo de armazenamento, localização, tipo de serviço a ser remunerado e modelo de contratação. O órgão também terá que definir se o desenho mais adequado para a primeira contratação seria próximo ao leilão de reserva de capacidade ou a outro mecanismo de remuneração de receita.
Representantes da indústria de equipamentos e engenharia concordaram que os contratos devem considerar folga para reduzir riscos de implantação, embora vejam espaço para perseguir prazos menores como meta.
José Pinheiro Machado, diretor da unidade de negócios de Energia e Infraestrutura da Intertechne, defendeu que os contratos considerem sete ou oito anos, com possibilidade de antecipação. Segundo ele, projetos de armazenamento hidráulico dependem de condições naturais, como geologia, queda e acesso, o que pode gerar variações relevantes entre empreendimentos.
“Se colocar um prazo, pode ser sete anos, talvez oito anos, em que você consegue ter um conforto, com a possibilidade de antecipação”, afirmou. “Como a gente está lidando com a natureza, no caso dos armazenamentos hidráulicos, a gente pode ter variações. Então, deixar uma folga para esse tempo, eu acho que é desejado”, disse.
Pinheiro afirmou que a indústria deve perseguir uma meta mais curta de desenvolvimento e construção, mas ponderou que o prazo total entre o início dos estudos e o comissionamento tende a ser maior.
“A meta que a indústria tem que perseguir é uma coisa simples: estudo mais quatro a cinco anos de implantação. Essa é a meta”, afirmou. “Mas o prazo total, de quando a gente diz vou começar a pensar no projeto hoje até o comissionamento da máquina, aí são sete, oito anos”, disse.