COM PREVISÃO DE CRESCER MENOS EM 2026, SETOR SOLAR BUSCA SOLUÇÕES PARA CORTES DE GERAÇÃO E INCENTIVOS PARA BATERIAS

COM PREVISÃO DE CRESCER MENOS EM 2026, SETOR SOLAR BUSCA SOLUÇÕES PARA CORTES DE GERAÇÃO E INCENTIVOS PARA BATERIAS
14 de janeiro de 2026

A pauta do dia na nossa série especial de entrevistas Perspectivas 2026 é o setor solar. O segmento viveu altos e baixos ao longo do último ano. Apesar de ter registrado crescimento, o mercado solar também enfrentou muitos desafios que desaceleraram o ritmo de expansão. A principal dor de cabeça do setor tem nome: curtailment, os cortes forçados de geração renovável devido a limitações na rede de transmissão. Para o presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia, é preciso encontrar uma solução estrutural para o curtailment e garantir o ressarcimento dos geradores por cortes que não são de sua responsabilidade. Na visão do executivo, isso vai assegurar a atratividade e a competitividade dos investimentos em fontes renováveis. Sauaia também defende que o armazenamento de energia elétrica em baterias é uma área estratégica e necessita de incentivos, como a possibilidade de emissão de debêntures incentivadas de infraestrutura. Por fim, o presidente da Absolar projeta que o setor deve fechar o ano com 10,6 GW de potência adicionada — número 7% menor na comparação com 2025.

Como foi o ano de 2025 para a sua associação e para o setor solar?

O ano de 2025 foi muito desafiador para a energia solar fotovoltaica e para o setor elétrico como um todo. Dentre os principais obstáculos enfrentados, destaco os cortes de geração renovável, conhecidos como curtailment. Essa prática prejudicou profundamente as grandes usinas solares já em operação no Brasil e resultou no congelamento, ou até na perda, de investimentos em novos projetos de grande porte.

Este foi um dos temas centrais nos quais a ABSOLAR se debruçou ao longo do ano para apoiar seus associados. Atuamos em diversas frentes: no âmbito administrativo junto ao Ministério de Minas e Energia (MME) e ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS); no âmbito jurídico, com ações de defesa do setor; e em uma forte articulação legislativa no Congresso Nacional.

Acompanhamos de perto as medidas provisórias que versavam sobre o setor elétrico, buscando a inclusão de soluções para o curtailment. Tivemos a publicação da Medida Provisória 1304, posteriormente transformada na Lei 15.269. No entanto, em nossa visão, ela traz uma solução incompleta e inapropriada, pois deixa de fora do ressarcimento os cortes voltados à parte energética. Entendemos que essa não é uma responsabilidade dos geradores, nem era um risco previsto originalmente nos contratos assinados, seja em leilões do mercado regulado ou no mercado livre. Responsabilizar e onerar os geradores por esses cortes prejudica a imagem e a reputação do Brasil, por isso seguimos em interlocução com o governo e o Congresso em busca de soluções mais robustas.

Quais foram os desafios específicos para a geração distribuída e o cenário macroeconômico?

Também enfrentamos desafios significativos na geração de pequeno e médio porte, a chamada geração distribuída. As restrições de infraestrutura elétrica afetaram não só as grandes usinas, mas também os pequenos projetos. É importante pontuar que aproximadamente metade de todos os cortes de geração ocorrem devido à falta de infraestrutura, o que revela um problema sério de planejamento.

Na geração distribuída, muitas conexões de projetos foram negadas sob a alegação de “inversão de fluxo de potência” ou falta de infraestrutura na média e baixa tensão, o que dificultou o avanço do setor.

Somado a isso, tivemos o fator negativo da altíssima taxa de juros. Com a Selic mantida no patamar de 15% por um longo período, o desenvolvimento de negócios no setor elétrico foi onerado. Isso prejudica a tomada de crédito tanto por parte das empresas quanto dos consumidores, funcionando como um “freio de mão puxado” que desacelera as atividades, a atração de investimentos e a geração de empregos no país.

Como esses desafios impactaram os números de crescimento do setor em relação aos anos anteriores?

Em decorrência desse cenário, 2025 apresentou uma redução no volume total de projetos implementados. Para efeito de comparação, 2024 foi um ano recorde, com a adição de cerca de 15 GW de nova potência solar. Já em 2025, os números apontam para um fechamento na faixa de 11,4 GW — uma queda considerável. Infelizmente, nossa expectativa para 2026 é de que o resultado também fique aquém do real potencial do mercado brasileiro.

Houve algum ponto positivo ou avanço tecnológico que mereça destaque no último ano?

Por outro lado, 2025 foi um ano de avanços importantes no amadurecimento das discussões sobre sistemas de armazenamento de energia. O Poder Executivo, o regulador e o Legislativo demonstraram entender melhor a importância das baterias para armazenar energia solar e eólica.

Essas tecnologias permitem maior flexibilidade, segurança de suprimento e autonomia, melhorando a operação do sistema elétrico brasileiro. Tivemos progressos na agenda regulatória com novas propostas de textos, apesar de ainda não ter sido aprovada totalmente a Consulta Pública 39/2023 da ANEEL.

Outro marco foi a Lei 15.269, que finalmente incluiu a figura do “agente armazenador” no setor elétrico e deu o sinal para que a ANEEL regulamente suas atividades. A lei também autorizou o Ministério de Minas e Energia a conceder o acesso ao REIDI para sistemas de armazenamento. Isso é fundamental para reduzir o custo desses sistemas no Brasil, que hoje sofrem com uma carga tributária excessiva, entre 70% e 80%. Esperamos que essa desoneração impulsione o avanço dessa tecnologia no país.

Se fosse consultado, que sugestões daria ao governo ou ao mercado para melhorar o ambiente de negócios em seu setor?

Para melhorar o ambiente de negócios no setor de energia solar e de armazenamento, o primeiro ponto crucial é encontrar uma solução estrutural para os cortes de geração (curtailment). É fundamental garantir o ressarcimento dos geradores por cortes que não são de sua responsabilidade. Isso evitaria um desequilíbrio entre os agentes e setores, assegurando que o Brasil não perca sua atratividade e competitividade para investimentos em fontes renováveis. 

No âmbito da geração distribuída, destaco a necessidade de uma fiscalização muito mais rigorosa por parte da ANEEL. É crítico que existam punições contundentes em casos de descumprimento regulatório, educando as concessionárias sobre a importância de seguir as regras e os prazos legais. Além disso, é estratégico que a ANEEL avance no cálculo dos custos e benefícios da geração distribuída, uma agenda que hoje se encontra em atraso em relação aos prazos legais. 

O armazenamento de energia elétrica é outra área estratégica. Precisamos estabelecer uma regulamentação apropriada para esse mercado emergente, abrangendo soluções de pequeno, médio e grande porte — seja “atrás do medidor”, “na frente do medidor”, junto às redes ou à geração. Esse marco regulatório, sob responsabilidade da ANEEL, será crucial em 2026 para aprimorar a estabilidade e a qualidade do sistema elétrico, acelerando a transição energética.

Para viabilizar esses projetos, defendemos a possibilidade de emissão de debêntures incentivadas de infraestrutura para o armazenamento, assim como já ocorre na geração e transmissão. Isso reduziria o custo de crédito e facilitaria o acesso à tecnologia, barateando-a para a sociedade. É um papel fundamental que o Ministério de Minas e Energia e o Governo Federal podem exercer para trazer competitividade ao segmento.

Quais são as perspectivas da associação para o ano de 2026?

As projeções da ABSOLAR, apresentadas recentemente em nosso Encontro Nacional, indicam que 2026 será mais um ano de cautela. Estimamos que o volume de potência adicionada será cerca de 7% menor do que em 2025. Este deve ser o segundo ano consecutivo de queda no ritmo de crescimento da energia solar no Brasil, o que é lamentável diante do nosso potencial.

Essa retração é explicada, de um lado, pela desaceleração no segmento de geração distribuída, especialmente no consumo remoto e na geração compartilhada. Por outro lado, o segmento de sistemas fotovoltaicos de pequeno porte, continua avançando. Nossa expectativa para a geração distribuída é de 6,8 GW adicionados em 2026.

Quanto às usinas de grande porte, os números preliminares apontam para 3,8 GW de nova potência. Somando os dois segmentos, chegaremos a 10,6 GW adicionados no ano — um volume inferior aos 11,4 GW esperados para 2025.

É importante notar que, embora o número da geração centralizada pareça estável, ele reflete projetos contratados em anos anteriores. Não há uma melhora no cenário; pelo contrário, estamos preocupados com o risco de inviabilidade de novos projetos e devolução de outorgas devido aos impactos dos cortes de geração.

Devemos encerrar 2026 com uma potência total acumulada de 75,9 GW (quase 76 GW). Isso consolida ainda mais a fonte solar fotovoltaica como a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira. Desse total, cerca de dois terços referem-se a sistemas de pequeno e médio porte e um terço a grandes usinas.

Em termos econômicos, a projeção de 10,6 GW adicionados em 2026 deve:

  • Atrair R$ 31,8 bilhões em novos investimentos;

  • Gerar 319 mil novos empregos (embora este número represente uma queda em relação a 2025, o que acende um alerta para o risco de perda de postos de trabalho no setor);

  • Arrecadar R$ 10,5 bilhões aos cofres públicos.

Fonte: Petronotícias.
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