Capacidade ociosa de produção na China gera distorções no mercado, diz CEO da AkzoNobel

Capacidade ociosa de produção na China gera distorções no mercado, diz CEO da AkzoNobel
28 de abril de 2025

FONTE: ISTOÉ Dinheiro.

O preço das tintas no mundo tem sido impacto por tarifas comerciais desde antes do tarifaço do presidente americano Donald Trump. No Brasil, a indústria química tem sido afetada por uma taxação imposta pelo governo brasileiro sobre um dos principais insumos para a fabricação de tintas.

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O presidente da AkzoNobel para a América Latina e Ásia, Daniel Campos, conta ao Dinheiro Entrevista que por conta de um viés de nacionalização da produção, alguns insumos eventualmente sofrem tarifas incidentes que fazem o produto final produzido no Brasil ficar mais caro. A companhia, é uma multinacional holandesa dona de marcas como a Coral Tintas, Sikkens e International.

Atualmente o Brasil tem uma produção nacional de dióxido de titânio, mas não o suficiente para suprir a demanda do mercado doméstico por esse insumo fundamental na produção de tintas. A alíquota, dessa forma, visa equilibrar a concorrência e incentivar a produção nacional.

“Aqui temos tarifas muito diferentes [do restante do mundo] porque temos uma produção local mas você ainda precisa da importação (…). A dosimetria é o grande desafio”, diz Daniel Campos.

‘Mais punitivo do que deveria’

Questionado se considera as tarifas mais altas do deveriam, o executivo disse: “Eu acredito que, dadas as situações de câmbio que temos hoje em dia, muito do que está em voga passa a ser mais punitivo do que deveria, quando as contas foram feitas. Isso precisa sempre ser considerado”.

O executivo se refere a uma medida antidumping provisória que foi aplicada e expirou há poucos dias. Trata-se de uma alíquota sobre as importações de pigmentos de dióxido de titânio do tipo rutilo originárias da China. A decisão data de outubro de 2024, quando o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (GECEX) aplicou alíquotas para importadores.

Em vez de tarifas que são um percentual, a medida fixa um valor nominal como tarifa para importação de dióxido de titânio. Hoje as tarifas são de:

  • LB Group Co., Ltd.: US$ 577,73 por tonelada
  • Anhui Gold Star Titanium Dioxide (Group) Co., Ltd.: US$ 654,42 por tonelada
  • Outros exportadores não listados: até US$ 1.772,69 por tonelada

Segundo Daniel Campos, a indústria ‘fica se adaptando e tomando decisões com base nisso’, tentando contornar a questão, e que a mesma discussão ocorre em outras nações – como a Europa, que também aprovou um antidumping para o tema recentemente e a Índia, onde esse assunto está em discussão.

‘Capacidade ociosa na China gera distorções’

A implementação das tarifas e medidas antidumping é recente, mas nem tanto. Campos explica que o tema ganhou espaço dentro das discussões comerciais após a pandemia, pelos efeitos do fenômeno nas cadeias de suprimento globais.

“[Esse debate] é de nem tão longa data. O tema da nacionalização tem alguns anos. Mas a discussão começou muito depois da pandemia, quando se discutia o final das cadeias globais. Você começa a ter o nearshoring, o friendshoring, você fala de resiliência das cadeias de abastecimento….no meu setor, você começa a ver a construção na China caindo muito a partir da crise das grandes construtoras. Você tem vários imóveis na China que não estão habitados e alguns nunca sejam habitados, e aí você gera uma capacidade ociosa de produção química na China, que busca algum lugar e gera distorções no mercado. As cadeias todas estão muito balançadas desde a pandemia, e se soma a isso [atualmente] todo o tema geopolítico”, explica Campos.

O executivo da AkzoNobel também preside o Conselho Diretivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) desde 2024. Nessa posição, conta que tem mantido o diálogo com o governo acerca do tema.

“Acho que todos os lados precisam ser escutados e a conta econômica precisa ser bem feita. Também não acho que free for all é a solução, mas o que me preocupa é se todas as vozes foram escutadas nessas diferentes discussões e se todos os impactos foram calculados. Nós vamos ao governo expor o que está acontecendo no setor e temos sido escutados. Algumas vezes escutados depois que as coisas aconteceram, mas ainda assim escutados – e isso é parte do processo democrático”, afirma o executivo da AkzoNobel acerca das tarifas.

A IstoÉ Dinheiro entrou em contato com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para um posicionamento sobre o tema. A pasta declarou que ‘o processo que leva à adoção de uma medida dessa natureza envolve todas as partes interessadas, inclui um contraditório amplo e verificações contábeis nas empresas envolvidas.

“A aplicação de um direito provisório, também prevista em regulamentos internacionais, existe para evitar que o dano causado pela prática de dumping se agrave no curso de uma investigação. Ela pode ser adotada por até seis meses e, neste caso, a vigência expirou em 22 de abril de 2025. Aguarda-se a conclusão do processo a respeito de uma eventual medida definitiva”, diz a nota.

“Reforça-se que a atuação do governo é no sentido de tão somente neutralizar uma prática desleal de comércio após a realização de uma verificação rigorosa. Por fim, vale destacar que o MDIC, por meio do Departamento de Defesa Comercial da Secretaria de Comércio Exterior, é reconhecido pelo caráter técnico, transparente e rigoroso do seu trabalho”, completa.

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