Apresento a seguir a nossa análise, sem vieses políticos ou partidários, sobre os impactos do resultado das eleições para Presidência da República, com um foco maior, mas não apenas, nos temas de sustentabilidade e ESG.
1 Continuidade sem hegemonia
A reeleição reduz uma incerteza importante: não haverá ruptura imediata nas principais políticas estruturadas entre 2023 e 2026. Transição ecológica, política climática, Nova Indústria Brasil, mercado regulado de carbono, programas sociais, política de valorização do salário mínimo, investimentos públicos, agenda de saúde e educação e orientação multilateral da política externa tendem a permanecer.
Acontece que a Câmara terá PL com 121 cadeiras, Federação PT-PCdoB-PV com 88, União/PP com 87, PSD com 43, Republicanos com 41 e MDB com 36. No Senado, a posição do governo é ainda mais delicada: PL 29, PT 10, MDB 8, PP 6, União e Republicanos com 5 cada.
Isso muda a natureza do quarto governo Lula, portanto, a negociação com centro e centro-direita deixa de ser apenas conveniente e passa a ser estrutural.
A própria Câmara já registra análises segundo as quais a nova composição poderá dar à oposição forte influência sobre a pauta legislativa e sobre vetos presidenciais. Além disso, as eleições para as presidências da Câmara e do Senado tornam-se peças centrais da governabilidade.
Assim, 2027–2030 tende a ser menos um período de grandes reformas ideologicamente definidas e mais um ciclo de negociação política permanente. Políticas que consigam ser apresentadas simultaneamente como ambientais, econômicas, produtivas e territoriais terão muito mais chance de prosperar.
2 Sustentabilidade e ESG: continuidade, mas com mudança de linguagem
A agenda de sustentabilidade deverá continuar forte, mas isso não significa necessariamente fortalecimento equivalente da expressão “ESG”.
O governo continuará tendo compromissos internacionais, Plano Clima, NDC, política industrial verde, financiamento climático, bioeconomia, descarbonização e o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. O Plano Clima estrutura a política brasileira até 2035 e inclui inclusive governança específica para mitigação, adaptação, monitoramento e transição justa.
Por outro lado, diante da composição do Congresso, veremos cada vez mais a agenda de sustentabilidade atrelada a conceitos que dialogam mais com o ambiente corporativo, como: competitividade, produtividade, inovação, segurança energética, bioeconomia, agricultura de baixo carbono, financiamento, resiliência climática e desenvolvimento territorial.
Isso é relevante para o setor empresarial. A sustentabilidade tende a sobreviver politicamente melhor quando vinculada à economia real.
Dessa forma, para as empresas, a expectativa não é de recuo da agenda ESG, mas de sua progressiva institucionalização: menos discurso genérico e mais risco climático, compliance, cadeia de fornecedores, emissões, rastreabilidade, governança, financiamento e acesso a mercados.
3 Clima
Depois da COP30 de Belém, realizada em 2025, o Brasil já possui uma arquitetura climática que ultrapassa um mandato presidencial. O Pacote de Belém tratou, entre outros pontos, de transição justa, adaptação, financiamento climático, tecnologia e participação de comunidades tradicionais.
Assim, entre 2027 e 2030 devemos ter um olhar importante sobre os seguintes temas:
a) implementação da NDC;
b) Plano Clima ;
c) adaptação climática;
d) financiamento;
e) transição energética;
f) bioeconomia;
g) mercado de carbono.
O conflito político continuará ocorrendo em temas como licenciamento ambiental, exploração de petróleo, uso da terra, proteção de biomas e competências dos órgãos ambientais.
Há uma aparente contradição que continuará acompanhando o governo: liderar internacionalmente a agenda climática e, simultaneamente, ampliar ou preservar a produção brasileira de petróleo e gás. A própria plataforma eleitoral reafirmou tanto a meta de desmatamento zero até 2030 quanto a continuidade da exploração de petróleo e gás.
4 Mercado regulado de carbono
O SBCE já existe juridicamente pela Lei nº 15.042/2024. Portanto, não se discute simplesmente “se o Brasil terá mercado regulado de carbono”, mas como ele será regulamentado e implementado.
A reeleição reduz o risco de mudança brusca na arquitetura que vinha sendo construída. A proposta eleitoral de Lula previa concluir a implementação do SBCE e estruturar sua governança permanente. O cronograma em discussão prevê início das obrigações por setores a partir de 2027.
Isso deve repercutir progressivamente sobre:
a) inventários de GEE;
b) Mensuração, Relato e Verficação (MRV);
c) fornecedores;
d) instituições financeiras;
e) preço do carbono;
f) decisões de investimento;
g) inovação;
h) descarbonização.
Importante ressaltar que mesmo empresas que não estejam diretamente submetidas ao teto de emissões poderão ser afetadas indiretamente pelas cadeias de valor e pelo crédito, podendo impactar, inclusive em pequenos negócios que integram cadeias de fornecedores de grandes emissoras.
5 Petróleo, gás e transição energética justa
A tendência mais plausível é uma política de convivência entre expansão/continuidade da produção de hidrocarbonetos e aceleração das fontes de baixo carbono. Importa dizer que falaremos mais em integração energética do que em transição.
O debate deverá sair cada vez mais de “petróleo versus renováveis” para questões mais concretas, tais como:
6 Economia criativa
Aqui a continuidade presidencial provavelmente significa manutenção da valorização institucional de cultura e economia criativa e há uma oportunidade de reposicionamento importante.
Em vez de tratá-la predominantemente como política cultural, haverá espaço para conectá-la a turismo, tecnologia, audiovisual, gastronomia, patrimônio, moda, música, territórios e empreendedorismo.
Esse enquadramento pode reduzir resistências ideológicas no Congresso porque desloca parte do debate para emprego, renda, desenvolvimento local e pequenos negócios.
Para Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro e outros territórios com ativos culturais expressivos, há uma agenda bastante promissora.
7 Direitos sociais – Executivo expansionista e Congresso como contrapeso
A plataforma reeleita preserva uma concepção de Estado com atuação relevante em políticas sociais.
A tendência, portanto, é manutenção ou expansão de programas de transferência de renda, habitação, valorização do salário mínimo e inclusão social, porém, há uma restrição incontornável: dinheiro, isso porque a principal tensão do quarto governo poderá não ser ideológica, mas sim, fiscal.
Programas sociais, investimentos públicos, saúde, educação, infraestrutura e política industrial competirão por recursos com despesas obrigatórias e dívida.
O governo precisará implementar políticas que sejam fiscalmente sustentáveis.
8 Saúde pública
A plataforma eleitoral prevê expansão do atendimento especializado, redução das filas, diagnóstico mais rápido de câncer e maior digitalização do SUS.
Pois bem, diante disso, chamamos atenção para quatro frentes nos próximos anos:
a) atenção especializada;
b) saúde digital;
c) envelhecimento populacional;
d) saúde mental.
A última tende a ganhar ainda mais espaço, em especial, nas empresas.
Além disso, mudanças climáticas passarão progressivamente a ser também uma questão de saúde pública: ondas de calor, dengue e outras arboviroses, eventos extremos, segurança hídrica e alimentar. Assim, a interface clima–saúde–território deve crescer muito.
9 Educação
Aqui não devemos ter uma mudança radical. A plataforma de Lula inclui expansão da educação integral, alfabetização na idade adequada, novos institutos federais e continuidade do Pé-de-Meia.
As discussões políticas tenderão a migrar de acesso para qualidade e aprendizagem e haverá pressão será por resultados concretos, com foco em alfabetização, matemática, permanência escolar, ensino técnico, empregabilidade e formação profissional.
A demanda por mão-de-obra qualificada só aumenta e é preciso formar uma massa relevante de trabalhadores para os setores de tecnologia, indústria, mineração, petróleo e energias.
Até 2030, dificilmente será possível discutir política educacional sem discutir inteligência artificial, competências digitais e novas qualificações profissionais.
10 Ajuste fiscal
Esta é, sem dúvida, uma das áreas que merece maior atenção.
O governo terá simultaneamente pressões para ampliar investimentos e políticas sociais e necessidade de demonstrar sustentabilidade da dívida.
Essa equação interfere diretamente nos juros, que por sua impacta na inflação, no câmbio, em investimentos, na concessão de crédito e, por fim, no crescimento.
O Banco Central continuará operando com autonomia e definindo a Selic de acordo com o cenário prospectivo de inflação e seus riscos, portanto, o governo não “determina” os juros.
Para que haja espaço consistente para redução da Selic, será relevante a combinação de inflação convergindo à meta, expectativas ancoradas e percepção de sustentabilidade fiscal.
Por isso, o mais importante em 2027 para o Poder Executivo Federal é resgatar/obter credibilidade perante mercado e consumidores.
11 Governança corporativa e compliance
Governança, integridade, proteção de dados, gestão de riscos, controles internos, transparência e compliance não dependem exclusivamente da orientação política do Executivo.
São impulsionados também pelo(a) mercado financeiro, CVM, Banco Central, investidores, seguradoras, grandes empresas, cadeias internacionais e legislação (inclusive internacional).
Por isso, é provável que haja um aprofundamento da agenda de governança corporativa, independentemente das disputas políticas no Congresso, que aliás tem sido crescente nas empresas, inclusive de médio porte.
A mudança mais interessante será a integração crescente entre governança, ESG/sustentabilidade, riscos climáticos, IA, cibersegurança e proteção de dados.
12 ONU, ODS e multilateralismo
Aqui a eleição presidencial faz diferença direta porque política externa é fortemente comandada pelo Executivo. A tendência é a manutenção da orientação brasileira favorável às Nações Unidas, onde o Brasil deve assumir um protagonismo ainda maior (lembrando que um novo Secretário-Geral será empossado), Acordo de Paris, ODS, BRICS, Mercosul, cooperação Sul-Sul e reforma da governança internacional.
O Brasil continuará buscando uma posição de maior autonomia diplomática e multilateralismo pragmático, lembrando que na última Conferência da ONU, Lula criticou severamente a postura subserviente e omissa da instituição em face dos conflitos armados no Oriente Médio.
Importa dizer que o Brasil conversará simultaneamente com EUA, União Europeia, China, Índia, África e países latino-americanos.
13 Relações exteriores
A política externa brasileira terá de navegar em um ambiente internacional de:
Competição EUA-China, protecionismo, guerras comerciais, conflitos geopolíticos, reindustrialização, subsídios verdes, minerais críticos, segurança energética e disputa por cadeias produtivas.
A continuidade do governo facilita algumas relações institucionais já construídas, mas o Brasil terá de evitar dois extremos: a dependência excessiva da China e o alinhamento automático aos Estados Unidos.
O acordo Mercosul-União Europeia passa a ter importância especial. O acordo foi assinado em janeiro de 2026 e sua parte comercial começou a ser aplicada provisoriamente em maio; além da dimensão comercial, o instrumento inclui compromissos de desenvolvimento sustentável e cooperação.
Isso pode produzir oportunidades importantes para empresas brasileiras, mas também elevar exigências relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade e padrões produtivos.
14 ODS
Aqui devemos ter uma mudança interessante, pois, a Agenda 2030 entra na sua reta final.
Assim, chegou a hora de avaliar-se os resultados efetivamente alcançados. E isso favorece exatamente a agenda de desenvolvimento territorial sustentável.
Municípios serão cada vez mais importantes porque boa parte dos ODS se materializa localmente: saneamento, mobilidade, educação, saúde, habitação, emprego, adaptação climática, gestão de resíduos e infraestrutura.
Depois de 2030, teremos uma discussão internacional sobre a agenda sucessora dos ODS.
15 O Congresso Nacional
O eleitor reelegeu Lula, mas não entregou ao presidente uma maioria legislativa correspondente.
O PL terá a maior bancada nas duas Casas, e o Senado terá uma renovação extraordinária: 40 dos 54 senadores eleitos são novos, equivalente a 74% das cadeiras disputadas. Isso significa que propostas que dependam de legislação terão necessariamente de passar por uma construção política mais ampla. Por outro lado, o Centrão já sinaliza aproximação com o governo eleito, conferindo algum conforto, mas que exigirá, como dito, muita negociação do Executivo.
Síntese do cenário 2027–2030
O novo ciclo brasileiro pode ser definido a partir do seguinte:
Não há fundamento para se afirmar que a reeleição de Lula produzirá automaticamente uma guinada radical à esquerda, assim como não faz sentido concluir que o Congresso conservador bloqueará toda a agenda governamental.
O cenário institucional aponta para algo mais complexo que é uma negociação permanente, que é uma característica muito forte dos governos Lula, no entanto, a oposição parece ainda mais forte para este próximo mandato.
As agendas que provavelmente encontrarão maior espaço político serão justamente aquelas capazes de transcender a divisão esquerda-direita, tais como:
Nesse contexto, sustentabilidade e ESG provavelmente terão maior capacidade de avançar como agendas relevantes nas corporações.
De outro lado, 2027-2030, tende a ser o período em que várias agendas que até agora eram predominantemente conceituais começarão a gerar consequências econômicas concretas.
Carbono, risco climático, rastreabilidade, transição energética, IA, cadeias sustentáveis e adaptação deixarão progressivamente de ser apenas temas de relatórios e passarão a interferir em crédito, investimento, seguros, compras, contratos e competitividade, como, aliás, temos afirmado em nossas palestras, artigos e conteúdos.
Assim, considero especialmente importantes seis interfaces no campo da governança, ESG e sustentabilidade:
É isso!
Augusto Cruz