A indefinição sobre a realização do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) acendeu um alerta em toda a cadeia produtiva da indústria de máquinas e equipamentos. Fabricantes de turbinas a gás afirmam que a demora no certame compromete o planejamento e pressiona os custos, além de poder gerar gargalos logísticos e atrasar entregas em um mercado global aquecido. Já os produtores de unidades geradoras hidrelétricas enfrentam o problema oposto: a ociosidade de fábricas que operam abaixo da capacidade instalada.
O leilão visa a contratar usinas para que fiquem disponíveis sempre que for necessário, ajudando a garantir o fornecimento em momentos de alta demanda ou crise. Ele não busca só energia, mas, sim, a garantia de que a usina estará disponível quando o sistema precisar.
No setor termelétrico, a avaliação é que, quanto mais o Brasil hesitar, maior será o risco de ficar para trás em um cenário de forte aumento na demanda global. Já fabricantes de turbinas hidrelétricas vivem o contexto de fábricas ociosas por falta de demanda.
Temos a maior metalúrgica da cidade de SP, mas trabalhamos com 1/4 da capacidade”
O vice-presidente da Siemens Energy para América Latina, André Clark, classificou como “uma lástima” o cancelamento, dado o contexto de alta demanda de equipamentos. Clark disse que a postergação do leilão compromete o planejamento industrial, afeta a previsibilidade dos investimentos e pode gerar gargalos na cadeia de suprimentos, especialmente para turbinas, caldeiras e sistemas auxiliares, cujos prazos de fabricação e entrega são longos. Inicialmente previsto para junho de 2025, o governo cancelou o certame motivado por uma série de judicializações.
“É triste para a imagem do Brasil [o cancelamento do leilão]. O mundo está competindo por equipamentos e investimentos. Empresas se prepararam, fizeram estudos e gastaram milhões, e, em cima da hora, o Brasil faz esse tipo de alteração. Se ocorrer logo, o estrago é menor, porque os empreendedores mais sérios já têm os planos de negócio definidos e acordos com provedores de equipamentos. Se demorar muito, eles vão perder o lugar na fila”, afirmou Clark.
Grandes fabricantes, como Siemens Energy, Wartsila, Mitsubishi, GE, entre outros, estão vendo uma crescente mundial por equipamentos para atender data centers nos Estados Unidos. A disputa por equipamentos está se intensificando, com países do Oriente Médio – como Arábia Saudita e Emirados Árabes – lançando ambiciosos programas de expansão energética.
O diretor-geral da finlandesa Wartsila, Jorge Alcaide, diz que esses governos têm colocado pedidos vultosos com antecedência, assegurando posição preferencial nas filas de produção global. Com isso, os fabricantes têm dedicado capacidade produtiva a contratos já firmados.
A empresa atua importando equipamentos e quer ampliar projetos no Brasil por meio de parcerias. Alguns pré-contratos já estão sendo fechados. “Existe um gargalo. Quem chegar primeiro vai levar, o dinheiro não espera. Só nos EUA, fechamos quase 1 gigawatt”, disse. “Estamos navegando num mar de incertezas. É difícil de explicar para nossa sede que o leilão estava marcado, mas foi cancelado sem uma nova data definida. Isso compromete a credibilidade do país perante os investidores.”
A preocupação de Clark e Alcaide encontra respaldo em um relatório recente da consultoria Wood Mackenzie, que aponta um cenário de alta sustentada para a demanda global de turbinas a gás. Segundo o estudo, em 2024, os pedidos globais aumentaram 32% em relação ao ano anterior. Para 2025 em diante, a previsão é de uma “corrida do ouro”.
A equação que antes era de capacidade instalada passa agora a ser também de capacidade produtiva – e o tempo, neste caso, é um insumo que não se estoca. O CEO da Voith Hydro, Hans Poll, lembra que o leilão já deveria ter ocorrido em agosto de 2024, quando a empresa estava preparada.
“Investimos R$ 100 milhões e esperamos retorno. Temos tornos de usinagem e mandrilhadoras de alta capacidade, mas não temos demanda para tudo isso. Por isso trabalhamos mais com mercado de exportação”, diz. “Temos a maior metalúrgica da cidade de São Paulo (…), mas trabalhamos com um quarto da capacidade instalada.”
Hans avalia que, diante dos impasses e judicialização que fizeram o certame ser cancelado, o Ministério de Minas e Energia (MME) deveria fazer um leilão separado só para projetos hidrelétricos, com entrada em operação em até 36 meses. Isso permitiria aproveitar a capacidade produtiva existente e evitar que outras empresas entrem em processo de hibernação fabril por falta de demanda.
“Conseguimos obter e produzir cerca de 90% da matéria-prima localmente, pois estas máquinas usam componentes fabricados com chapas e alguns componentes fundidos”, acrescenta. A sugestão de Hans tem chance de ser avaliada. O ministro Alexandre Silveira, garantiu que a pasta abrirá consulta pública para receber contribuições ainda em junho.
Enquanto isso, aumenta a preocupação com a segurança energética. Já há sinais de que o sistema pode não ter capacidade de atender a momentos de maior demanda no futuro, e a margem de operação está mais estreita. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) foi obrigado a antecipar o início do suprimento de energia de térmicas do leilão de 2021. Essas usinas somam 2,2 GW de capacidade instalada.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que o sistema precisará de oferta de potência já a partir de 2027, com necessidade adicional de 5,5 GW em 2028 por conta do aumento da demanda de energia, descomissionamento de usinas antigas e fim de contratos de térmicas mais caras e poluentes.