Por Eduardo Laviano
O Brasil produz mais energia solar e eólica do que sua rede elétrica pode suportar. Como evitar essa sobrecarga, que gera apagões, sem frear o crescimento econômico e a transição energética?
A resposta do governo federal são grandes sistemas de baterias para armazenar essa eletricidade excedente. Um leilão para a contratação desses sistemas deve ocorrer ainda no primeiro semestre de 2026, segundo o Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia.
Para especialistas, trata-se de um “projeto piloto”, que tem como objetivo entender a tecnologia e como ela se integraria à rede elétrica do Brasil.
A disputa deve envolver grandes empresas globais, como a americana Tesla e as chinesas BYD, Huawei e CATL, esta última a maior fabricante de baterias do mundo. A expectativa é que o leilão movimente mais de R$ 10 bilhões.
Esses sistemas funcionam como power banks de celular, mas em dimensão muito maior, é claro. Eles guardam a energia renovável excedente no momento em que a geração está muito alta. Assim, ela pode ser usada em momentos de escassez, em especial à noite, quando o consumo aumenta e a geração diminui.
Para resolver essa equação, o governo federal planeja um leilão de reserva de capacidade, com o objetivo de garantir rapidez de acionamento em caso de necessidade.
A consulta pública para o leilão já foi encerrada e o setor aguarda publicação da portaria no Diário Oficial da União. A expectativa é de contratação de 2 gigawatts, que é o equivalente ao consumo de 2 milhões de residências.
“Vai ser muito competitivo porque há muitas empresas preparadas e interessadas”, diz Markus Vlasits, presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia.
Usar baterias de grande porte em redes elétricas não é assunto novo, mas o uso no Brasil ainda é pequeno, focado em indústrias e sistemas isolados, desconectados da rede.
Globalmente, mais de 100 GW de capacidade desses grandes sistemas de armazenamento foram adicionados às redes no ano passado, quase o triplo do total de 2023. Para este ano, outros 130 GW devem ser instalados.
Os dados são da consultoria especializada Rystad, que classifica as grandes baterias como uma das tecnologias do setor de energia que crescem mais rápido nesta década.
Agora, uma conjunção de fatores esquentou o tema também por aqui. Quando a rede não dá conta de absorver a eletricidade extra, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é forçado a cortar a geração de energia solar e eólica em certos momentos do dia.
Essa prática, chamada de curtailment, significa na prática um desperdício de energia limpa – e desestimula investimentos em novos parques solares e eólicos.
“O curtailment também gera muitas ações judiciais pedindo ressarcimento dos prejuízos causados pelos cortes”, afirma Ana Karina de Souza, advogada sócia do escritório Machado Meyer que atua na área de energia. “E, claro, muita gente querendo investir em baterias.”
No projeto do governo, o empreendedor irá apenas instalar os sistemas de acordo com as diretrizes da portaria. O poder de decisão sobre horários de acionamento da tecnologia, comprando e vendendo energia, ficará por conta do ONS.
“Não é o modelo mais sofisticado, mas é o governo querendo entender como usar a ferramenta. Ninguém terá grandes margens de retorno com isso, mas é importante para estruturar leilões maiores no futuro”, afirma Souza.
Ela afirma que o objetivo principal do leilão é servir como um empurrão inicial para que os investidores sintam segurança, algo parecido com os primeiros certames para a contratação de energia renovável.
Também conhecidos pela sigla BESS (sistemas de armazenamento de energia em baterias, em inglês), os parques de baterias já estão transformando a matriz elétrica em algumas partes do mundo.
Em abril do ano passado, as baterias foram responsáveis por mais de 24% da geração noturna, um papel desempenhado pelas usinas a gás até 2020. Enquanto as renováveis atendem 85% da demanda durante a tarde, o excesso é armazenado e distribuído em outros períodos do dia, reduzindo a produção noturna de gás de 10 GWh (em 2021) para cerca de 4 GWh (em 2025).
No Estado australiano de Victoria, a energia injetada na rede vinda desses sistemas superou em dezembro passado pela primeira vez a geração de termelétricas a gás. A expectativa é que o mesmo se repita este ano em New South Wales e Queensland (foto), dois outros Estados.
A matemática do preço das baterias não é simples, mas uma coisa é certa: para que sejam uma solução de longo prazo, a energia que elas vão injetar na rede precisa custar menos que a das termelétricas, o recurso usado hoje para garantir a estabilidade da rede.
O preço médio por megawatt/hora dessas usinas térmicas no Brasil é de R$ 1,6 milhão – e elas dependem de derivados do petróleo, ou seja, têm um custo variável sujeito a eventos globais imprevisíveis. O megawatt/hora das baterias gira em torno de R$ 1 milhão e R$ 1,1 milhão, segundo Vlasits.
“O preço dos componentes e insumos das baterias caiu vertiginosamente nos últimos anos, mais de 80%. É o momento ideal para dar tração a essa ideia”.
Mas um elemento ainda é uma incógnita: a questão tributária, afirma Thiago Soares, diretor executivo de engenharia da UCB Power, empresa brasileira de fabricação de baterias e de projetos de armazenamento.
Soares diz que a expectativa é que esses sistemas de armazenamento sejam enquadrados no regime especial de incentivos para desenvolvimento de infraestrutura, que suspende os impostos PIS e Cofins, totalizando um desconto de 9,25%. Isso poderia ajudar a produção nacional, que possui atores com expertise no tema, como a Moura, WEG e a própria UCB.
De qualquer modo, esses benefícios teriam alcance limitado. As empresas brasileiras montam os chamados “battery packs”, que reúnem dezenas ou centenas de células – muito parecida com pilhas – e são equipados com software para controlar funções como carregamento e descarregamento.
Mas as pilhas têm de ser importadas. “Hoje o mercado chinês responde por mais de 95% de células de baterias de íons de lítio e há um movimento de crescimento no custo de matéria-prima desde o fim do ano passado”, afirma Soares.
Segundo Ricardo Baitello, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente, o trabalho está mais lento do que o necessário, especialmente por conta da questão regulatória, ainda atrasada.
“A regulação precisa definir ainda coisas básicas, como caracterizar melhor o que é um momento de estresse no sistema, o que é um momento de alívio. E talvez pensar em uma tarifa dinâmica, como a que temos hoje nós transporte por aplicativo, e as bonificações”.
Por mais que não resolva todos os problemas, ele acredita que as baterias são a melhor solução imediata, pois o crescimento de energia eólica e solar que o Brasil vivenciou nos últimos 15 anos está ameaçado pelo curtailment.
Segundo dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica, por exemplo, o mercado de energia solar no Brasil sofreu uma retração de 29% em 2025.
“O tempo de resposta de baterias é mais rápido e a aceitação social tende a ser maior por conta de questões ambientais, em especial na comparação com termelétricas”.
Para Thiago Soares, da UCB, as baterias no Brasil não podem ficar restritas ao armazenamento de capacidade.
“Há muitas oportunidades em sistemas isolados off-grid, ou seja, não conectados à rede, como é o caso da Amazônia. É um setor que tem muito para crescer no país”.
Ricardo Cifu, vice-presidente da GEF Capital Partners para América Latina, acredita que 70% dos participantes do leilão devem ser estrangeiros, como Tesla, CATL, BYD e Huawei, que inclusive participaram da consulta pública.
Os 30% restantes seriam de investidores financeiros, como fundos de infraestrutura.
O interesse dos chineses é natural. Além de dominar a indústria global de células de baterias, o país é o líder na ultiização de baterias em sistemas elétricos.
Os Estados Unidos vêm em segundo lugar, e Reino Unido, Alemanha e Austrália são outros países que têm investido nessa tecnologia. Itália, Arábia Saudita e Chile e nações do Leste Europeu também vêm avançando, de acordo com a Rystad.