O rápido crescimento da geração solar fotovoltaica, eólica e distribuída, combinado ao surgimento de grandes novas cargas elétricas, como os data centers, já está afetando a operação do sistema elétrico brasileiro e pode exigir práticas de gestão da rede mais complexas. O alerta é da Agência Internacional de Energia (AIE) em seu último relatório sobre o setor elétrico mundial. De acordo com o estudo, a demanda por eletricidade no Brasil deve se expandir a uma taxa média anual de 2,7% entre 2026 e 2030, em comparação com um crescimento do PIB em torno de 2,3% ao ano no período. A AIE projeta que as fontes renováveis atenderão a toda a demanda adicional de eletricidade ao longo desse período.
Até o fim da década, o relatório aponta que a solar fotovoltaica deve ultrapassara eólica e se tornar a segunda maior fonte renovável de oferta de eletricidade no país, atrás apenas da hidrelétrica. A geração eólica cresceu 10% em 2025 e deve avançar a um ritmo mais moderado, de cerca de 5% ao ano em média até 2030. No total, a participação das fontes renováveis variáveis (VRE, na sigla em inglês) na geração total deve aumentar de 27% em 2025 para 36% em 2030.
A AIE lembra que o corte de geração (curtailment) de fontes solar e eólica vem aumentando no Brasil nos últimos anos, refletindo restrições persistentes na rede e a limitada flexibilidade do sistema. Em 2025, o curtailment de energia eólica e solar teria superado 20%, ante menos de 10% em 2024 e abaixo de 4% em 2023. No mesmo ano, o Brasil deixou de aproveitar cerca de 37 TWh de energia renovável proveniente de fontes eólica e solar.
O estudo deu um exemplo de um evento que aconteceu no feriado do Dia dos Pais do ano passado, quando uma demanda muito baixa coincidiu com uma produção solar excepcionalmente elevada. Por volta do meio-dia, a geração solar fotovoltaica distribuída respondeu por quase 40% de toda a eletricidade, levando o sistema a se aproximar de seus limites mínimos de carga e exigindo cortes significativos de geração para manter a estabilidade.
“Como resposta, o Operador Nacional do Sistema (ONS) reduziu a geração hidrelétrica e térmica e também realizou cortes de cerca de 98% da produção programada de usinas eólicas e solares de grande porte. Embora não tenha ocorrido interrupção no fornecimento, o episódio ilustrou como a sobregeração em fins de semana ensolarados, com baixa demanda, vem se tornando um desafio recorrente em um sistema com rápida expansão da participação de fontes renováveis variáveis”, destacou a AIE.
O relatório considera que seja importante sustentar a rápida expansão das fontes renováveis, mas também realçou que “é essencial fortalecer a infraestrutura de transmissão, ampliar o acesso a recursos de flexibilidade e melhorar a coordenação entre instituições”, com ênfase na revisão dos marcos institucionais e de mercado, na promoção da flexibilidade, no avanço da reforma do mercado varejista e na atualização do sistema de compensação da geração solar fotovoltaica distribuída, entre outros pontos.
Entre 2020 e 2025, o Brasil adicionou mais de 62 GW de capacidade solar fotovoltaica, dos quais quase dois terços correspondem a instalações distribuídas, sem restrições de corte (curtailment). As adições de solar distribuída foram impulsionadas por um sistema de compensação de energia (net metering) e, apesar de uma mudança regulatória em 2023, os baixos custos iniciais e os elevados preços da energia ao consumidor estimularam uma adoção em larga escala. Após a criação do Redata, que incentiva a instalação de data centers, os pedidos de conexão à rede desses projetos aumentaram 32%, passando de 19,8 GW para 26,2 GW entre setembro e novembro de 2025, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Caso todos os projetos propostos sejam implementados, essa carga representaria mais de um quarto da demanda total de eletricidade do Brasil.