2026 entre incertezas e oportunidades: os fatores que devem moldar o ano do setor de celulose

2026 entre incertezas e oportunidades: os fatores que devem moldar o ano do setor de celulose
26 de janeiro de 2026

Por Ari Medeiros, executivo, conselheiro, mentor e palestrante

Já iniciamos o ano com a divulgação de uma operação conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na prisão de Nicolás Maduro e sua esposa. O episódio, atribuído a uma ação rápida do governo americano, gerou repercussões internacionais e levou diferentes países a adotarem iniciativas diplomáticas ao longo do período.

O parágrafo acima foi apenas um exemplo do dinamismo de ações que marcarão este ano, tanto a nível da geopolítica internacional (EUA x China, Rússia x Ucrânia / OTAM, Europa x Mercosul, Groenlândia, Brasil…) quanto nas incertezas e oportunidades que teremos no nosso setor de celulose e seus derivados, nos cenários nacional e internacional.

Iniciando com o cenário internacional, a competição acirrada com os novos volumes de produção chineses (cerca de 5 milhões de toneladas acrescidas ao mercado global de oferta de celulose nos últimos dois anos), aliado às taxações americanas a diversos produtos industriais e incertezas na geopolítica entre continentes, pressionando os preços de produto final a valores inferiores a US$ 500/ton (especialmente na Ásia/China), traz ainda mais necessidade de “ênfase em eficiência operacional“ para nossas empresas, visando redução de custos e desperdícios de produção, logística e comercialização, impactando diretamente na “margem de contribuição” de suas receitas e  avaliações em novos investimentos para o curto prazo.

As novas investidas dos EUA sobre a Groênlândia e seus impactos imediatos por meio das reações adversas da Dinamarca (detentora da posse legal desta ilha gigante) e seus aliados europeus da OTAM, além de outros países ao redor do mundo, geram incertezas sobre movimentos estratégicos futuros e como se posicionar como país e empresa exportadora num contexto de turbulência crescente.

Alguns analistas especializados em geopolítica internacional comentam, entre outras possibilidades, que as principais potências econômicas e militares do mundo, Estados Unidos, China, Rússia e Israel, estariam dividindo suas “áreas de influência e de atenção ao longo de 2026” por continentes, da seguinte forma:

  • EUA, tomariam conta das Américas (Norte, Central e Sul);
  • China tomaria conta da Ásia (incluindo Japão, Taiwan e demais países);
  • Rússia da Europa (incluindo obviamente a OTAM);
  • Israel (Oriente médio – em especial, os países de sua área de atuação).

Quero deixar claro aqui, visando evitar discussões e polêmicas, que o termo “tomar conta” significa priorizar sua atenção e estratégia geopolítica de governo e ações para estas áreas específicas, dividindo a atenção geopolítica com as demais potências citadas, sem perder o foco em sua estratégia principal.

Estas questões por si só, demonstram a dimensão das incertezas reinantes no cenário internacional e que certamente impactarão nas decisões internas das empresas brasileiras de todos setores industriais e corporativos.

Dando ênfase agora ao cenário nacional, o ano de 2026 será bem mais curto, teremos cerca de apenas 10 meses realmente úteis e produtivos para as empresas brasileiras, devido à grande quantidade de feriados e pontes e aos fatores citados a seguir.

Apesar de toda investida e avanços em produtividade nas empresas e em serviços, com o advento cada vez mais rotineiro da IA e suas vertentes, nosso ano efetivamente começa após as férias de verão e carnaval, em boa parte do país. Para o nosso setor teremos “paradas gerais obrigatórias e antecipadas” em grandes fábricas, em especial no primeiro semestre do ano.

Apenas no primeiro trimestre (até final de março), segundo o “calendário de paradas gerais da ABTCP”, estão previstas grandes paradas nas fábricas da CMPC, no Rio Grande do Sul; Klabin, em Telêmaco Borba (PR); Veracel, na Bahia; Cenibra, nas linhas 1 e 2, em Minas Gerais; e Suzano, nas unidades de Aracruz (linha A), no Espírito Santo, Três Lagoas (MS) e Imperatriz (MA), entre outras de menor porte. Isto obviamente impactará no volume de produção já planejado pelas empresas mas também o tempo de retomada da atividade comercial rotineira destes mercados.

Um fato que julgo oportuno para nosso setor será a realização do primeiro Pulp Summit Latinoamérica, no dia 25 de março de 2026, em São Paulo, onde estarão reunidas as principais lideranças das empresas produtoras de celulose e seus fornecedores, num ambiente de muita sinergia, conexões e oportunidades visando reduzir um pouco as incertezas reinantes e aprofundar relações num ambiente B2B.

Outro fator relevante para o ano será a Copa do Mundo de futebol, que acontecerá na América do Norte entre 11 de junho e 19 de julho, e tomará alguns dias de atividades “mais lentas” do que o normal devido liberações parciais (em vários setores) nos dias de jogos do Brasil. Além disso, em anos de Copa, a forte relação do público brasileiro com o futebol faz com que celebrações pessoais e corporativas sejam influenciadas pelo evento, o que pode impactar a produtividade das empresas, positiva ou negativamente.

O último, mas talvez o mais importante evento do ano, serão as eleições para presidente, governadores e deputados, que acontecerão em outubro, mas que já tomam o noticiário político nacional desde o segundo semestre de 2025 e se estenderão por todo o ano de 2026. Devido à grande polarização entre as duas vertentes de poder e atuação político-social vigentes no Brasil, mais notadamente após a eleição de Bolsonaro em 2018-19 e retorno de Lula a partir de 2022-23, nosso ano será integralmente impactado pelos movimentos sociais voltados à esta eleição e sua interferência na dinâmica das empresas e do mercado nacional.

Diante de todos os argumentos demonstrados acima, fica evidente que as empresas terão de investir muito em “eficiência operacional”, visando à redução de custos, aumentos de performances, efetividade comercial e priorizar a “gestão inspiradora e inclusiva de pessoas”, a fim de garantir produtividade e retenção — evitando altos níveis de turnover e “investir em tecnologia – IA e inovação” com o intuito de manter-se competitiva e com resultados diferenciados frente à concorrência interna e do competidor estrangeiro.

Um ponto que considero fundamental para as empresas brasileiras do nosso setor é o investimento no treinamento e na retenção de pessoas para atender aos novos projetos de linhas green field em andamento, como o da Arauco/Sucuriú em Inocência (MS), e àqueles em fase final de avaliação, como CMPC (Projeto Natureza) e Bracell em Bataguassu (MS).

A escassez de mão-de-obra qualificada em especial da nova geração Z (profissionais entre 18 e 30 anos) é um fator crítico e que impacta todos novos projetos e as plantas novas em operação nos últimos 5 anos. Programas de treinamento e qualificação destes novos profissionais já estão em andamento liderados pela ABTCP tendo os SENAIs dos estados e as empresas produtoras como parceiros nesta jornada. O que precisamos evitar é o “canibalismo” na concorrência desmedida entre empresas visando preencher seus quadros operacionais, trazendo instabilidades às concorrentes.

Saliento que o necessário equilíbrio e serenidade deve estar presente na alta gestão das empresas para buscar a máxima eficiência operacional (otimizando processos e reduzindo custos) e reter e motivar suas pessoas para que a adequada alavancagem de seus resultados e metas corporativas seja efetivamente atingida ao longo deste ano de incertezas.

Em suma, segundo a minha opinião, o ano de 2026 será um dos anos mais difíceis e desafiadores desta década, pela convergência de fatores e situações acima descritos, em nível nacional e internacional, onde a  maturidade, competência de soft e hard skills, capacidade de liderança e visão estratégica de nossas lideranças deverá prevalecer para que possamos transformar “desafios e incertezas em resultados efetivos e consistentes” , fazendo uma ótima limonada destes limões ácidos que estão na cesta.

Desejo sucesso e lucidez para nosso país e setor, visando atravessar os desafios de 2026 e que este ano sirva de exemplo de superação e retomada da consciência humana e de sinergia entre pessoas e corporações visando o bem-comum.

Ari é um executivo, conselheiro, mentor e palestrante com mais de 41 anos de experiência em grandes empresas do setor de celulose, papel e logística. Sua experiência profissional inclui 15 anos como Diretor de Operações Industriais da Veracel Celulose, onde liderou projetos estratégicos e contribuiu para o crescimento e a eficiência da empresa.

Fonte: Portal Celulose.
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