Província mineral na Bahia impulsiona transição energética global

Província Metalogenética do Norte do Estado da Bahia abriga minerais essenciais para descarbonização

FONTE: A Tarde.

Uma estrada de terra vermelha que se estende por quilômetros a fio no sertão do norte baiano, na divisa com o Piauí, engana os olhos e esconde um segredo enterrado há milhões de anos: a Província Metalogenética do Norte do Estado da Bahia, um acervo mineral que pode ser a chave para a transição energética do Brasil – e do mundo. Sob um solo seco e aparentemente infértil, jazem elementos cruciais para a revolução verde: ferro-titânio-vanádio, níquel-cobre-cobalto e grafita, todos minerais críticos e estratégicos, sem os quais não haveria baterias, painéis solares, turbinas eólicas, nem o sonho de uma economia de baixo carbono.

Embora pareça um conceito abstrato para quem está longe dos grandes centros de decisão, no sertão baiano, a transição energética é palpável. O mundo caminha rapidamente para a necessidade de fontes renováveis de energia e para a eletrificação do transporte e da indústria. No centro dessa revolução estão os minerais críticos e estratégicos, insumos essenciais para o desenvolvimento dessas tecnologias verdes, e a Bahia, com a Província Metalogenética do Norte do Estado, desponta como um dos territórios mais promissores do mundo para a produção desses insumos.

Estatal responsável pelo desenvolvimento mineral do Estado da Bahia, a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) desbravou essa região e identificou o potencial que se estende por um cinturão geológico de 250 km, dos quais 100 km já possuem depósitos reconhecidos pela empresa. De acordo com o geólogo Luis Fernando Souza, a província se diferencia de outras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo porque concentra, em uma mesma região, diversos minerais essenciais à transição energética.

“Essa escala não existe em nenhum outro lugar do Brasil”, destaca Souza, um dos técnicos da CBPM que participou ativamente do processo de descoberta dos principais alvos da província. “O entendimento geológico e modelo prospectivo desenvolvidos pela CBPM nos permitiu realizar a descoberta e a caracterização dos corpos mineralizados, identificar a relação de teor estabelecida e os estudos de viabilidade econômica favorável desses insumos.”

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| Foto: Divulgação | CBPM

Outro técnico da CBPM atuante na exploração da região é o mestre em Geofísica e Exploração Mineral Josemar Oliveira, um dos responsáveis pelas interpretações dos levantamentos aerogeofísicos da província. De acordo com ele, o modelo geológico da companhia está baseado em métodos de pesquisa geofísicos e geoquímicos.

“É um trabalho que foi possível por causa das ferramentas da CBPM, do investimento na pesquisa e da qualidade do nosso corpo técnico”, avalia. “Na verdade, o conjunto da obra possibilitou esse avanço.”

Gerente de Prospecção e Oportunidade Mineral da CBPM e especialista em Avaliação de Recursos, o geólogo Esdras Varjão destaca as contribuições da companhia para viabilizar a descoberta da província mineral, que abriga mineralizações sulfetadas de níquel-cobre-cobalto com potencial superior a 1 bilhão de toneladas desse minério e é hoje uma das mais promissoras do País. “Podemos dizer que a caracterização dessa região como província é 100% da CBPM, assim como o entendimento geológico da localização dos alvos no espaço”, ressalta.

Chefe de projeto na CBPM, o geólogo Judiron Santiago comenta o valor estratégico dos minerais presentes na Província Metalogenética do Norte do Estado da Bahia. Ele lembra, por exemplo, que o cobre é a espinha dorsal das redes elétricas, conectando fontes renováveis como solar e eólica ao sistema de distribuição. “Já a grafita é essencial para anodos de baterias, potencializa o armazenamento de energia”, compara. “O vanádio, por sua vez, permite o desenvolvimento de baterias de fluxo, uma solução promissora para armazenar grandes quantidades de energia renovável. Sem esses minerais, a transição energética simplesmente não acontece.”

Corrida contra o tempo

A mineração desses elementos, portanto, se apresenta como uma necessidade urgente diante das mudanças climáticas, sobretudo num momento em que a pressão internacional por fontes confiáveis de minerais críticos e estratégicos tem crescido. Países como Estados Unidos e Alemanha buscam reduzir a dependência da China, que domina a produção e processamento de diversos desses insumos.

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| Foto: Divulgação | CBPM

É por esse motivo que, para o presidente da CBPM, Henrique Carballal, a Província Metalogenética pode transformar completamente o papel da Bahia na economia global. A transição energética, na visão do gestor, não é mais sobre o futuro, mas sobre o presente. “Essa nova fronteira mineral é uma esperança de desenvolvimento e nós precisamos acelerar esse processo”, enfatiza. “É necessário acelerar a extração desses minerais para não perdermos a oportunidade de fazer com que essa riqueza que está no nosso subsolo possa gerar desenvolvimento social e econômico para a Bahia.”

A Bahia tem, por suas características geológicas, um imenso potencial de mineração vinculado à transição energética. Primeiro lugar no Brasil em diversidade mineral, o estado é considerado um player relevante no mercado de níquel, por exemplo. Isso porque a Bahia abriga a única mina de níquel sulfetado do Brasil, operada em área da CBPM localizada no município de Itagibá, região sul do Estado.

Os novos depósitos da Província Metalogenética ampliam essa perspectiva. Segundo os geólogos da CBPM responsáveis pelas atividades de pesquisa mineral na nova fronteira mineral, ao observar o mapa global, é possível constatar que a Bahia tem potencial para ser um dos maiores polos de níquel sulfetado do mundo. “Possivelmente, a Bahia tem hoje um dos contextos com maior potencial exploratório do Brasil quando se trata de níquel sulfetado”, enfatiza Luis Fernando.

Embora represente um marco histórico da atividade de pesquisa mineral, a Província Metalogenética do Norte do Estado da Bahia ainda tem um vasto potencial a ser explorado. De acordo com os geólogos da CBPM, a região tem perspectivas promissoras para a continuidade das pesquisas, que têm sido intensificadas na atual gestão.

Investimentos

Desde que Carballal assumiu a presidência da CBPM, em junho de 2023, a estatal já investiu cerca de R$ 20 milhões em pesquisa mineral na província, sendo R$ 11 milhões direcionados às sondagens, R$ 7 milhões investidos em levantamentos aerogeofísicos e outros R$ 3 milhões em levantamentos geoquímicos. Para o executivo, esses investimentos reforçam o compromisso da CBPM em mapear e desenvolver os recursos minerais do estado de forma responsável e sustentável.

Detentora de 90% dos ativos minerários conhecidos na Província Metalogenética do Norte do Estado da Bahia, a CBPM tem, atualmente, 30 contratos de pesquisa complementar e 21 contratos de arrendamento vigentes. Agora, segundo Carballal, o compromisso da estatal é garantir que a riqueza extraída se converta em benefícios para a população.

“A mineração é uma das principais aliadas no combate às mudanças climáticas”, ressalta. “Sem ela, não há baterias, não há energia solar, não há hidrogênio verde. Nosso compromisso hoje, seguindo a recomendação do governador Jerônimo Rodrigues, é garantir que a exploração desses minerais seja feita de maneira responsável. No fim, a questão não é se a mineração deve ou não ocorrer, mas como será feita da maneira mais justa, eficiente e sustentável possível.”

Apesar de ser essencial para a descarbonização, a atividade mineral ainda enfrenta resistência por parte da sociedade, muitas vezes vista sob a ótica dos impactos ambientais que a atividade provocava do passado. No entanto, o presidente da CBPM ressalta que a mineração moderna pode e deve ser conduzida de forma sustentável, principalmente no momento em que se apresenta como uma das grandes soluções de combate às mudanças climáticas.

“Nós não podemos compreender ninguém que defende o meio ambiente, ninguém que defenda a natureza, ninguém que defenda a humanidade e não defenda a transição energética”, argumenta. “E para ter transição energética, nós precisamos tirar esses minerais do solo e fazer com que eles sejam processados para que tenhamos ferramentas para combater as catástrofes cada vez mais frequentes em função do aquecimento global.”