Eólicas esperam nova onda em 2027, após freio na expansão

Contratos assinados agora demoram pelo menos dois anos até que os novos parques de produção de energia realmente se concretizem

FONTE: Valor Econômico.

A energia eólica convive com freios na atividade ao mesmo tempo em que dá sinais, graduais, de superação. “O setor viveu momentos de euforia de 2012 a 2023, com investimentos atingindo um total de U$ 48,6 bilhões, mas a partir daí, em função de uma conjuntura econômica desfavorável, a demanda por novos projetos de parques eólicos caiu violentamente”, afirma Elbia Gannoum, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

O ritmo de instalação de novas usinas eólicas no país caiu 31,25% no ano passado. Foram 3,3 GW de potência, com 76 novos parques, contra 123 projetos implantados em 2023, com recorde 4,8 GW de potência. “Trata-se de uma crise diagnosticada, entendida, e estamos convivendo com ela porque temos boas perspectivas em um futuro muito próximo, a partir de 2027”, afirma Gannoum.

Há novos “drives” de demanda, como data centers e a produção de hidrogênio verde. “Novos contratos estão sendo assinados agora, mas demoram pelo menos dois anos para que os parques eólicos realmente se concretizem”, afirma. É o caso, cita, dos investimentos realizados pela Auren Energia, que em 2024 adquiriu negócios da AES no Brasil e pretende expandir seu complexo eólico Cajuína (RN). E o exemplo da dinamarquesa Vestas, que anunciou investimento de R$ 130 milhões em sua fábrica de turbinas eólicas no Ceará.

Mesmo empresas como a Siemens Gamesa, controlada pela alemã Siemens Energy, que há dois anos suspendeu sua produção de turbinas em Camaçari (BA), acompanham os novos rumos do mercado. A empresa diz confiar no papel que empresas renováveis e a indústria eólica desempenham, mas por enquanto não tem previsão de retomada da fábrica. “Nossa localidade continua operacional, com foco na manutenção de ativos e prestação de serviços aos projetos existentes”, informa, em nota.

Temos boas perspectivas em um futuro muito próximo”

Para Eduardo Sattamini, diretor-presidente da Engie, um dos maiores conglomerados do setor de energia do país, em um cenário de complexidade como o que o país atravessa, especialmente no campo energético, com excessos de subsídios, é natural que as empresas repensem seus planos de investimentos. Apesar disso, ele avalia que há espaço para a expansão da geração eólica no Brasil. “Basta que o mercado se equilibre e a demanda seja estimulada, especialmente na região Nordeste, com a atração de novas indústrias e setores, como os de data centers, que prezam por crescimento sustentável e uso de energia renovável”, ressalta.

Segundo Sattamini, a Engie encerrou 2024 com o maior volume de investimento de sua história. Foram R$ 9,7 bilhões, sendo a maior parte destinada às usinas eólicas e solares. A empresa consolidou a operação integral do Conjunto Eólico Santo Agostinho, em Santa Catarina, e iniciou as operações comerciais do Conjunto Eólico Serra do Assuruá, na Bahia. No total, foram adicionados 1,2 GW de capacidade instalada própria, somando 9,6 GW de energia renovável. Para o ciclo de 2025 a 2027, estão previstos investimentos de mais R$ 8,5 bilhões. “Adotamos um planejamento estratégico de longo prazo que prioriza a gestão eficiente de um portfólio diversificado com precificação adequada dos riscos”, afirma.

A motivação para a retomada dos investimentos em novos parques eólicos parte também dos próprios consumidores. A Dow, corporação americana de produtos químicos, assinou contratos de longo prazo para abastecer suas nove unidades instaladas no país, entre operações e centro de inovação, com 100% de energia elétrica renovável gerada em usinas eólicas e solares e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). “Para alcançar nossas metas [de descarbonização], a companhia focou na diversificação de suas matrizes energéticas, realizando investimentos em diversas frentes para garantir a transição energética necessária”, afirma Claudia Schaeffer, diretora global de negócios para energia e mudanças climáticas da Dow.